Crítica – “I, Tonya” – Uma (boa) novela à americana

I, Tonya (em português, Eu, Tonya), é um filme contado pelos protagonistas em tom de entrevista ou até interrogatório, o que denuncia logo algo de bom para quem gosta de dramas recheados de momentos cómicos bem à moda americana. Por algum motivo o filme arrecadou o prémio de melhor comédia pelo Critics’ Choice Award e o Globo de Ouro para melhor filme.

Tonya, interpretada por Margot Robbie, conta como foi empurrada pela mãe, Lavona Harding (interpretado de forma exímia por Allison Janney), para este mundo da patinagem artística com apenas três anos de idade. E é a partir desse momento que nos sentimos quase na obrigação de simpatizar com Tonya. Exatamente porque começamos a perceber que, com uma mãe assim, nada poderá correr bem.

Lavona é excêntrica, fria, implacável e insuportável. Os seus companheiros são um pássaro que tem ao ombro, uma bomba de oxigénio, cigarros sem fim e, claro, álcool. É por isto que o pai de Tonya sai de casa, deixando-a sozinha à mercê dos chiliques da mãe.

Como se isto não fosse já um quadro desastroso, Tonya, ainda muito jovem, apaixona-se por Jeff Gillcoly, interpretado por Sebastian Stan, com quem acabou por casar.

Com Lavona e Jeff a juntarem-se à equação, temos então uma excecional sátira à violência doméstica que tanto nos faz rir, através dos mais que muitos alívios cómicos, como chorar.

Tonya é uma “redneck”, norte-americana que sonha um dia chegar aos jogos olímpicos. Por não ser a mais bonita, nem a mais bem vestida, tudo se torna mais difícil neste universo encantado da patinagem artística, em que a competição é voraz. Assim, vê-se obrigada a lutar de todas as formas possíveis (e impossíveis) pelo seu sonho.

Tonya, que já era conhecida por ter feito algo histórico no mundo da patinagem artística devido à sua vontade desmedida de chegar aos Jogos Olímpicos, e por ter como aliados o marido e um amigo lunático com a mania que é detetive, acaba por estragar tudo e colocar um fim à sua carreira como patinadora.

Na verdade, neste filme a culpa morre solteira, tal como Tonya, que só depois de perder tudo é que consegue pôr um fim ao seu casamento doentio com Jeff. E é “inspirada” num passado de violência que, mais tarde, a levam até uma nova e impensável carreira.

Uma história que representa o sonho americano e que conta uma narrativa repleta de exageros e personagens, também elas levadas ao exagero. Este filme, realizado por Craig Gillespie, vem transformar toda a magia da patinagem artística num autêntico circo, no bom sentido cinematográfico.

I, Tonya já arrecadou vários prémios e conta com algumas nomeações para os tão esperados Óscares. Um deles poderá mesmo ir para Margot Robbie, como melhor atriz, e outro para Allison Janney, como melhor atriz secundária.

Apaixonante do início ao fim e com um equilíbrio fascinante entre o ridículo e o drama da vida real, este é um filme surpreendente, com interpretações fora de série e uma banda sonora escolhida a dedo que nos faz querer saltar da cadeira e começar a dançar.

I, Tonya estreia a 22 de fevereiro nos cinemas nacionais.

Texto de: Mafalda Fidalgo

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