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A complexidade do vazio de Andy Warhol e da família Kardashian

A fama pode ser comprada, o dinheiro é arte e qualquer um pode ser famoso. Posso estar errada, mas acho que é isto que une a suposta arte de Warhol ao mundo da família Kardashian. E é por causa disto que ambos me parecem ocos, ainda que tenham sido capazes de fazer imenso dinheiro. E quando digo ocos não me refiro à sua capacidade mental, até porque Warhol era demasiado pérfido para ser burro e a Kris Jenner é demasiado eficaz a fugir a questões para ser parva.

Por “ocos” refiro-me à falta de emoção ou mensagem. Tudo neles é uma questão de rótulo ou aparência. A transformação da “Campbell Soup” num ícone cultural, a supremacia da imagem, a transformação da fama num produto de fábrica sem significado inerente… Ambos são estupidamente bons a vender o vazio.

Mas o mais incrível de tudo é que ambos revelam verdades através de mentiras. Vendem a ilusão de que o luxo é acessível às massas e, ao fazê-lo, revelam até que ponto as pessoas estão dispostas a ir para serem idolatradas. Mas o pior é que algumas pessoas nem sequer querem ser idolatradas, algumas só querem ser aceites e cultivar um sentimento de pertença. 

Talvez seja ingenuidade da minha parte, mas fenómenos como as Kardashian e o Andy Warhol fazem-me pensar no quão estranho o mundo é. Porque é que estamos dispostos a tanto por tão pouco? 

A obsessão que eles têm pelo ideal estético é outro exemplo deste frenesim de superficialidade. É verdade que a vida é mais fácil quando somos bonitos, mas a fixação deles é irreal. Para usufruir dos privilégios da beleza basta ser-se razoavelmente atraente, depois disso, a beleza acarreta mais preconceitos do que benesses. Além do mais, qual é o auge do ideal estético? Existe um limite claro? Dadas as constantes modificações físicas das Kardashians, é óbvio que a meta está sempre a mover-se.

Contudo, ainda há mais. As Kardashians alteraram os seus corpos de mil e uma maneiras e ainda têm o descaramento de apregoar o ideal do amor próprio. O cinismo deste ato é absurdo. Não é que a cirurgia estética implique o contrário de amor próprio, mas a contínua busca pela correção de “imperfeições” é um sintoma claro de desconforto com o corpo que temos.

Kylie Jenner fala em aceitar-se a si própria porque não se envergonha duma cicatriz que tem na perna. E a minha questão é: Porque é que o resto do corpo não recebeu o memorando? 

Por outro lado, se tivesse que dizer qual deles é o pior, acho que teria de nomear o Warhol. Parece-me que as Kardashians só querem fazer dinheiro e o resto vem como consequência disso. E nesta medida, serão elas piores que Steve Jobs? Os meios podem ser diferente, mas os fins são exatamente os mesmos.

Warhol, por sua vez, é um gajo maldoso. As coisas que dizia, as controvérsias que gostava de criar, a relação com Edie Sedgwicke e a sua postura nas entrevistas indicam uma personalidade arrogante e auto-centrada. Era tão convencido de si mesmo que nem se dava ao trabalho de ser simpático durante cinco minutos. E quando uma pessoa nem sequer tem interesse em fingir que é ligeiramente agradável, podemos ter a certeza duma coisa: essa pessoa é uma filha da mãe.

No entanto, tenho quase a certeza que ele achava que isso o fazia interessante e misterioso. E é por causa disto que tipos como o Warhol precisam de amigos. Se ele tivesse tido alguém que lhe desse uma chapada no cachaço e dissesse “Deixa de ser panasco e arranja um trabalho a sério!”, se calhar o mundo tinha tido menos um paspalho. 

Gostava de poder terminar isto doutra maneira (talvez uma mais eloquente), mas à medida que o tempo passa, vou-me apercebendo que grandes problemas têm soluções simples. O problema é que são simples na teoria e complicadas na prática. 

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