Chico Esperto: O regresso da boa tradição do tacho à portuguesa na Avenida de Roma

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Localizado em plena Avenida de Roma, em Lisboa, o restaurante Chico Esperto celebra quase dois anos de uma história que transformou o espaço de uma antiga pizzaria vegan num refúgio de sabores autênticos.

Numa Lisboa que parece render-se, semana após semana, à ditadura das espumas, das técnicas de sous-vide e dos menus de degustação em que o prato é maior do que a substância, surge um baluarte de resistência no coração de Alvalade. No número 46B da Avenida de Roma, onde se cruzam memórias de uma burguesia alfacinha que sempre soube comer bem, vive de portas abertas ao público, há quase dois anos, o Chico Esperto. Mas não se deixem enganar pela evocação malandra deste nome, que pretende, sem dúvida, sugerir astúcia. Aqui, a esperteza principal foi a de perceber que o futuro da gastronomia urbana está a voltar-se (talvez um pouco ironicamente) de novo para o passado.

Há, aliás, uma certa mística que paira sobre a Avenida de Roma, uma artéria que, durante décadas, serviu de espinha dorsal a uma Lisboa burguesa, intelectual e, acima de tudo, exigente com o que se punha na mesa. Entre as livrarias icónicas e o comércio de prestígio, pontuavam os restaurantes, cafés e pastelarias profundamente ligados à alma da gastronomia portuguesa. Mas atenção: em Alvalade, muitas pessoas ainda se conhecem pelo nome!

Nesse espírito, o Chico Esperto escolheu o lugar certo para fundar uma política e visão que pretendem basear-se na simplicidade e no domínio dos “segredos dos sabores de norte a sul do país”. Aberto desde dezembro de 2021, o espaço passou por uma metamorfose curiosa: onde anteriormente funcionava a pizzaria vegan Giulietta – onde, aliás, degustámos saborosas pizzas -, ergue-se agora este novo espaço, que se apresenta desabridamente como um bastião da proteína e do receituário clássico português. Esta mudança de paradigma reflete-se na conversa com os anfitriões da casa, os funcionários que nela trabalham, alguns deles desde o início, e que evocam a memória dos tempos para assumir a identidade atual de “comida típica de verdade”. Como as próprias epígrafes do menu comentam, o objetivo aqui é combinar “ingredientes autênticos e técnicas tradicionais para criar pratos que encantam os paladares mais exigentes”.

Dono do aclamado Sr. Lisboa e do Jardim, Francisco Breyner, o mentor por detrás deste projeto, não é um novato nestas andanças. Quem tem acompanhado de perto a transição do empresário para este conceito mais tradicional em Alvalade, sabe que o percurso de Breyner reflete o histórico familiar, cujos pais foram os fundadores da emblemática cadeia de restaurantes Di Casa. Portanto, falamos de alguém que herdou o saber-fazer de quem vive a restauração por dentro desde cedo.

Na abertura, o Chico Esperto teve um soft opening, em maio de 2024, e atingiu por atingir a sua plenitude funcional em janeiro de 2025. O desafio era grande: criar um espaço que não fosse uma caricatura para turistas, mas sim um restaurante bem português para todos aqueles que sentem falta do “pingo de azeite” e do “tacho de ferro” no centro da mesa. Numa zona como Alvalade, onde ainda se respiram memórias do comércio tradicional, o Chico Esperto apresenta-se como um prolongamento da sala de jantar das nossas avós, mas, obviamente, com o rigor de uma gestão moderna.

Ao entrarmos no Chico Esperto, a primeira coisa que nos atinge é o aroma (omnipresente) do refogado. A estética vem em segundo plano. A sala, com capacidade para 60 comensais, puxa pela nostalgia: paredes grossas remetendo para uma certa ruralidade, mobiliário antigo (como a tradicional estante de apoio, em mogno, ao fundo), objetos pendurados contando histórias de um Portugal que teima em não ser esquecido… Não há aqui a frieza do design industrial ou do minimalismo nórdico. Há calor. Há ruído reconfortante, conversas cruzadas e o tinir do vinho nos copos entre caras conhecidas, algumas da televisão e de outros media. O sucesso deste princípio do projeto de Francisco Breyner está bem patente no facto de conseguir dar-nos a impressão – não sei dizer como – de que tudo e todos estão ali há décadas.

Mas vamos ao que mais importa: a comida. Para síntese prévia, pode-se dizer desde já: é uma comida sem estrelas (Michellin, entenda-se), mas com brilho.

Numa era em que os chefs se tornaram celebridades mediáticas, o Chico Esperto segue o caminho inverso. Aqui, o herói chama-se Bruno Lopes, ou por outra, quem com ele trabalha conhece apenas por Bruno. “Não é nenhum estrela Michelin”, diz um dos colegas de sala, “mas é o melhor de todos”, e isto com uma convicção que desarma qualquer crítico. Bruno é, na verdade, o guardião de um legado que dispensa técnicas de vanguarda. A filosofia é clara: produtos ricos, por si só, e uma gastronomia sem “grandes invenções”. Pessoalmente, tenho o dever crítico de salvaguardar que o que se degusta pelas mãos de uma estrela não é de forma alguma de menosprezar – já comi divinamente, em vários sítios de alta gastronomia! Mas este ponto de honra no virtuosismo culinário das avós também nos toca e tem, de facto, as suas vantagens, mais que não seja porque as modas e os caprichos respingam constantemente na mudança, como o vento que sopra, e o nosso público almeja sempre por uma oferta variada de experiências. Portanto, a mudança faz, em si própria, parte da alma do negócio da restauração; e, hoje em dia, anda-se a respirar uma certa nostalgia de regresso à cozinha do passado… É a oportunidade de projetos como este.

A carta do Chico Esperto é um mapa bem português. Para começar, depois de um couvert de pão, azeitonas, manteiga e queijo amanteigado, e num mundo que esqueceu a importância da sopa, o menu de Breyner resgata a Sopa de Feijão com Unto, uma raridade calórica e afetiva, e o tradicional Caldo Verde, com o chouriço cortado na espessura certa e o obrigatório fio de azeite, é obrigatório.

A lista de entradas inicia-se com as Pataniscas, seguidas pelos Croquetes da família e pelas Gambas ao alhinho. Estão também disponíveis os Ovos mexidos com espargos e tostas caseiras, os Ovos Rotos com Queijo da Serra e os Peixinhos da Horta com molho maionese de alho, coentros e raspa de lima. O menu apresenta ainda a Alheira panada com molho de mostarda e maçã verde fresca, o Chouriço Assado e, finalmente, o Preguinho à Casa.

Devo confessar que segui uma recomendação, a dos Ovos Rotos com Queijo da Serra. Este prato consiste nuns ovos do tipo estrelado que vêm servidos numa generosa cama de cebola doce refogada com presunto tenrinho, mas, por baixo, com uma dose de batas fritas ao palitos finos, caseiras, entre as quais se derretem pedaços de queijo da serra. Tudo isto num molho, igualmente generoso, à base de azeite tradicional.

Este é, aliás, um ponto importante, na identidade deste menu: a generosidade dos molhos. No Chico Esperto, o azeite não é um condimento; protagoniza a cena toda. Para os palatos mais sensíveis à dieta moderna, a gordura pode parecer excessiva, mas para os frequentadores da “velha guarda”, aquele molho pede pão até ao fim do prato e comprova que ali não se temem calorias.

Outra entrada experimentada foi a Alheira panada com molho de mostarda e maçã verde fresca. Aqui já temos algo mais sóbrio, uma espécie de mini panqueca de alheira, bem recheada de carne, por sinal, portanto, de ótima qualidade, mas de tamanho reduzido, com um molho verde caseiro de mostarda, até a lembrar um pouco os pratos gourmet – mais do que suficiente.

A força desta cozinha prossegue nos pratos principais. O destaque absoluto da nossa visita, devo dizer, e um dos pratos que tem ganho mais adeptos, foi a Raia de Cura Portuguesa à Gomes de Sá. Visualmente, o prato impressiona pela generosidade da posta de raia grelhada, a nadar sobre cebola, batata e ovo cozido, polvilhada de coentros picados. O peixe é, neste caso, submetido a uma cura semelhante à do bacalhau, ganhando uma textura firme e um “pico de sal” diferente, que desperta o paladar de todos os ingredientes envolvidos. No palato, o equilíbrio entre o azeite de qualidade, a cebolada macia e a batata que absorve todos os sucos cria uma harmonia que raramente se encontra. No entanto, o “pico de sal a mais” revela que a cura, embora tradicional, exige um rigor de dessalagem que nem sempre acompanha a pressa do serviço.

Outras opções de Peixe são apresentadas no menu, com pratos bem conhecidos, entre eles, o Bacalhau à Brás, o Bacalhau à Lagareiro e o Bacalhau lascado com broa, batata, grelos e vinagrete. Seguem-se a Açorda de Camarão, os Filetes de Corvina com arroz de tomate e maionese de alcaparras, o Arroz de Corvina com camarão, a Corvina grelhada com guarnição e, ainda, as Lulas estufadas com puré de batata. Existe também a Lota do dia com batata cozida e salada com preço sob consulta, prato este disponível de terça a sábado.

Para contrabalançar com o conforto das carnes, não podíamos deixar de experimentar o Bife à Chico Esperto com molho de trufa, vinho da Madeira e batata frita. É um delicioso bife de vitela, cozinhado no grau perfeito, bem temperado a dente de alho, como não podia deixar de ser, e regado com um cremoso molho de café. É uma dose substancial e de carne macia e suculenta.

Ainda no que toca às carnes, destacam-se ainda outros pratos, como O Famoso Arroz de Pato, as Bochechas de porco estufadas em vinho tinto com arrozada de cogumelos, as Iscas de cebolada com elas e o Bitoque do Cachaço de porco com vinagrete de alho e coentros e batatas fritas. A oferta continua com Lagartos de porco grelhados com batata frita e salada, a Cabidela de Galinha, o Bife da Vazia à Portuguesa, Rosbife com esparregado e batata pala-pala, o Coelho à Vilão com batata frita e salada, o Franguinho assado à casa desossado com salada e batata frita, o Ossobuco com batata palito e o Cabrito no forno com batata e esparregado.

Para concluir, os acompanhamentos incluem o Arroz branco, o Arroz de tomate, o Esparregado, o Puré de batata, as Batatas fritas, a Salada de pimentos, a Salada mista e os Legumes.

Para regar tudo isto, a garrafeira é exclusivamente nacional, destacando-se referências como o equilibrado Quinta da Alorna “Fernão Pires” do Tejo ou o mais complexo Quinta da Vacaria Reserva do Douro, perfeitos para fazer frente à robustez de pratos de tacho como estes.

Nenhuma viagem pela comida de tacho ficaria completa sem a doce sobremesa, e quanto mais tradicional, mais doce, também. Nesta matéria há também sobremesas de todos os tipos, numa viagem desde Castelo Branco ao Alentejo, com um toque de homenagem à doçaria conventual e regional.

Fomos para o Leite Creme, um doce standard muito leve, e algo mais arrojado, para quem já tinha comido muito, o Bolo de Azeite com Doce de Ovos e Amêndoa, que fez lembrar na textura e no sabor o tradicional bolo de mel algarvio.

Há também Tigelada, segundo a receita de Castelo Branco, com textura característica e travo a mel e canela, as Farófias com Leite-Creme de Baunilha, passando pela mesa ali ao lado, leves como nuvens, boas decerto para contrastar com a densidade dos pratos degustados. E há ainda a Serradura com doce de ovo e amêndoa torrada, ótima para quem procura uma textura densa e viciante.

Não podíamos deixar de nos informar sobre as versáteis Lérias. Foi-nos referido que estas são feitas à moda de Amarante, cuja hóstia em forma de rissol encerra um interior de ovos moles bem delicioso. Podem contar ainda com Mousse de Chocolate, a Torta de laranja, o Perna de pau caseiro, o Gelado caseiro – com sabores de chocolate, baunilha, morango, limão, natas, cookies, after-eight e caramelo salgado – e a Fruta da época, que está disponível sob consulta.

No capítulo das Sobremesas Líquidas, o menu disponibiliza Vinho do Porto Vallado 20 anos 5cl, Vinho da Madeira Barbeito 10 anos 5cl, CRF Aguardente Velha e Aguardente Adega Velha XO 12 anos 5cl. Para finalizar, encontram-se a Ginja de Óbidos, o Licor Beirão e a Amarguinha.

Concluindo, num mercado saturado de “conceitos”, Francisco Breyner entrega-nos uma experiência baseada no regresso à tradição e na revalorização de um património comum. É, como o próprio nome do espaço indica, um movimento inteligente que visa captar quem procura o conforto de uma cabidela bem feita, dum bom filete ou de um arroz de peixe suculento e completo.

Com a alma de quem sabe receber, o Chico Esperto espera por todos vós na Avenida de Roma. E, acreditem, vai valer a pena.

Graça Pacheco
Graça Pacheco
Licenciada em literaturas clássicas e com um doutoramento em estudos literários, sou colaboradora e fã do Echo Boomer. Escrever, para mim, é um ofício desafiante mas também um hobby. Também adoro gastronomia, gosto de explorar novas tecnologias e sobretudo, adoro cinema e TV.
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