BlacKkKlansman – Abordar o racismo é ainda uma urgência

por Matteo Ottocento

“Esta merda está a decorrer no mundo inteiro e nós temos que acordar.”

Foi um Spike Lee determinado que se apresentou no Festival de Cinema de Cannes 2018 para a antevisão de BlacKkKlansman, o seu último filme com o qual ganhou o Grand Prix. Os tons usados pelo realizador nova-iorquino na conferência de imprensa foram peremptórios: o racismo é um assunto atual, está presente aqui e agora. Lee confessa-se preocupado com o clima social e político da América pós-Trump e, de um modo geral, com a xenofobia e o ódio racial que está a afetar também a Europa, entre os que querem rejeitar a onda migratória e os que querem reivindicar a soberania nacional construindo muros e barreiras. O resultado implica uma regressão social e cultural, onde a história do ódio racial se repete, ciclicamente.

BlacKkKlansman é uma adaptação cinematográfica do livro Black Klansman escrito por Ron Stallworth, ex-polícia e primeiro afro-americano em serviço na cidade de Colorado Springs. Baseado em factos reais – nos títulos da capa figura a frase “DIS JOINT IS BASED UPON SOME FO’ REAL, FO’ REAL SH*T” – o filme mexe-se entra a comédia, a BlaXploitation (género cinematográfico pensado nos anos 70 para o público afro-americano) e um estilo policial.

O jovem Ron Stallworth (John David Washington, filho de Denzel frequentemente protagonista dos filmes de Lee), inicialmente empregado em tarefas de arquivo e papelada, é escolhido para uma missão: participar, como agente infiltrado, numa reunião sindical do Black Power durante o discurso do líder Kwame Ture. Aqui, conhece Patrice Dumas (Laura Harrier), presidente da união estudantil afro-americana do Colorado College, com a qual terá uma ligação, escondendo-lhe que é polícia. Concluída a operação, Ron é empregado no departamento da Intelligence (Espionagem) ao responder ao anúncio dos Ku Klux Klan encontrado no jornal, procurando novos recrutas.

Decide então, usando (erradamente) o seu nome, passar-se por um homem branco interessado em defender a causa dos WASP (White Anglo-Saxon Protestant) pela supremacia da América branca, disposto a encontrar aos membros da Organização, termo utilizado pelos filiados do KKK, chegando a obter o cartão e a falar telefonicamente com o presidente David Duke (Topher Gracer). A dar o corpo, literalmente, à sua voz, tem um colega branco, o detective judeu Flip Zimmerman (Adam Driver), que, ao passar-se por Ron, torna-se, de facto, no seu alter ego.

A última obra de Lee é uma mistura de intenções, nem sempre conseguidas. Tem os traços da comédia, numa dualidade entre o branco e o negro, entre a voz e o corpo do protagonista (é notável o trabalho linguístico, todo jogado nas paródias e clichés do discurso branco vs negro). Um tema funcional ao nível do desenvolvimento narrativo, menos no da evolução dos personagens, que parecem ligeiramente bidimensionais, tendo em conta a ironia usada na representação das ideologias grotescas dos extremistas brancos. É a banalidade do mal, onde os fanatismos e os estereótipos são justamente ridicularizados (a iniciativa politica de David Duke, um personagem de maneiras educadas e ideas aberrantes, representa a quintessência).

Neste maniqueísmo do bem e do mal (onde a posição de Lee é explícita, como deve ser), a descrição mais adequada é a dos supremacistas brancos: labregos, ignorantes e negacionistas (o Holocausto é reduzido a uma hipótese de conspiração). A questão de BlacKkKlansman é a continuação da história da extrema direita conservadora americana, que culminará nos combates de Charlottesville de 12 agosto de 2017, simbolizando o clima social trumpista. Um ataque explícito dirigido ao presidente americano, parodiado na abertura pelo talentoso Alec Baldwin (já famoso pela sua imitação no Saturday Night Live) através do monólogo racista do personagem de Kennebrew Beauregard, com slogan em estilo Trump.

O guião está cheio: o grito de “American First” é o pano de fundo da filmagem de encerramento, dos episódios de Charlottesville, em que Heather Heyer (com uma dedicatória final) perdeu a vida após um ataque terrorista por parte de um membro da extrema direita. Factos que o presidente comentará de forma ambígua e que nunca condenará definitivamente. Inserção de repertório talvez didático, que serve para reiterar a urgência de responder a um assunto nunca realmente resolvido.

A tese da identidade negra, como redenção de uma consciência de classe recém-descoberta, permanece na superfície: o discurso de Kwane Ture é, para Ron, uma revelação suspensa, onde o conflito ontológico do “policial afro-americano” nunca é realmente explorado. Assim como a componente marxista do “Power to the people”, corre o risco de ser esvaziada como mera demagogia e carente de convição. A catarse de Ron é resolvida de maneira fracassada, mesmo na sequência em que quer despertar a consciência de Flip, confiando na sua identidade como judeu. O reflexo desanimado e tardio de Flip, infiltrado no KKK e desconcertado pela obtusidade dos seus apoiantes, fica narrativamente desabrido, talvez também por causa da frieza e desencantamento do personagem. É claro que a batalha pelos direitos civis interessa a todos, mas “temos que acreditar mais“. Falta uma epifania efetiva.

Trazer a narrativa aos anos 70, dando uma continuidade cronológica ao tema do racismo, é convincente do ponto de vista cenográfico, onde Lee revisita o culto policial, com referências cruzadas com BlaXplotation, à maneira de Tarantino (desculpa, Spike) como Shaft e Superfly, que saíram mesmo em 1972, com uma banda sonora de primeira ordem de estilo funk/soul e com o inédito, nos créditos finais, do malogrado Prince, “Mary Don’t You Weep”. Comovente o momento no qual Harry Belafonte recorda o linchamento de Jesse Washington em 1916, onde as imagens cruzam-se com aquelas de The Birth of a Nation de D.W. Griffith, onde o realizador reconstrói, através da cinematografia americana, a génese do imaginário racista, em que os negros são representados como selvagens a brutalizar ou como máscaras cómicas a ridicularizar. Este é, certamente, o melhor Lee, capaz de trabalhar sobre o poder das imagens, marcando a genealogia do racismo dentro de uma cultura visual específica.

O estilo de BlacKkKlansman refere-se à primeira produção do cineasta, com alguns truques, até mesmo de natureza técnica, típicos do seu cinema, onde a sátira, a ação e a moral estão em jogo num equilíbrio precário. Spike Lee está furioso com o alt-right americano mas, embora a tragédia de Charlottesville ainda seja vivida e as declarações vergonhosas do presidente Trump sejam atuais, a ideia de que o amor vence o odio (como no seu Do the right thing) estás sempre implícita. Ou talvez não, se ainda estamos aqui a discutir o assunto.

O realizador americano pede-nos um esforço extra: aceitar o facto de que o racismo nunca passou e assumir uma posição forte e declarada. É esta redundância que é perdoada no filme de Lee: mesmo quando o mecanismo não é perfeitamente oleado, a temática revelada por BlacKkKlansman é uma urgência inteiramente contemporânea, uma irrupção que não tem nada de anacrónico. É um regresso aos fantasmas do passado, a Divide et Impera, tanto nos Estados Unidos como na Rússia, na Itália como no Brasil e na Hungria. Um filme que não deixa espaço para mal-entendidos: é uma chamada ao despertar e à ação.

Nota: 


 

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