Bebel Gilberto – Voz de Veludo e muito improviso

Onze anos após a sua última atuação em Portugal, na qual celebrou um aniversário, Bebel Gilberto – grande nome no panorama da música brasileira – voltou, este ano, a pisar dois palcos portugueses: primeiro no Porto (n’A Casa da Música), a 8 de abril, e depois em Lisboa, no dia 9 (no Teatro Tivoli BBVA). O Echo Boomer esteve lá para contar tudo em primeira mão e deixa um gostinho da boa energia de Bebel aos fãs que, por algum motivo, não puderam assistir.

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O espetáculo começou intimista, apenas com uma meia luz sob Guilherme Monteiro, guitarrista e amigo de longa data de Bebel. A entrada da artista fez-se acompanhar com uma sentida salva de palmas; surgiu a dançar de forma fluída, com um top brilhante, que apenas complementava o brilho natural que a artista já transpira pela sua presença.

“Momento”, tema do álbum homónimo, de 2007, começou sorrateiro, abrindo o concerto. “Lisboa, meu amor”, começou por dizer, dando as boas-vindas ao público. Ao longo de todo o concerto, aliás, Bebel manteve uma comunicação fluída com o público, com pitadas de humor, inclusivamente deitando-se no palco e dizendo que foi algo que aprendeu com a grande Maria Bethania, fazendo-nos sentir como se estivéssemos em palco com ela.

Extremamente expressiva, genuína e espontânea, transmitiu-nos uma autêntica sensação de warm welcoming, tal como é a música dela em geral. Solta, desprendida, carinhosa, simplesmente ela mesma numa entrega total ao momento.

Com uma setlist definida mas com muita flexibilidade de desvio, flexibilidade essa partilhada com a plateia, Bebel cantou algumas faixas de improviso, como por exemplo “Lisboa boa noite (…) agora eu vou cantar uma música que tem mais um papaparapapapara; na verdade a Bebel põe papapa em todas as canções e todas as canções dela têm papapa, agora vai cantar comigo, se quiser me acompanhar nessa canção”. Também brincou muito com a gastronomia portuguesa, referenciando o bacalhau com natas numa das suas faixas de improviso, arrancando autênticas gargalhadas do público.

Ao longo do concerto, entre improvisos e risos, Bebel revisitou alguns dos seus clássicos de samba e bossa nova, que marcaram os momentos mais altos da sua carreira de 30 anos. É o caso das famosíssimas “Baby” e “Simplesmente”, também do álbum Bebel Gilberto – que colocou toda a plateia a cantar em uníssono e a sorrir com o tom enternecedor destas músicas – e a tropical “Aganju”, escrita pelo também reconhecido artista brasileiro Carlinhos Brown.

Foi com emoção que Bebel falou do recente falecimento da sua mãe aos 81 anos, a também famosa cantora brasileira Miúcha, aproveitando para cantar alguns dos seus temas, em jeito de homenagem – como “Just One of Those Things” (com João Gilberto) e “Comigo É Assim” (com Tom Jobim). De álbuns mais antigos, temos “August Day Song”, “Mais Feliz”, “Sem Contenção” e “So Nice”, todas do álbum Tanto Tempo, lançado em 2000.

Contámos ainda com uma cover de “Harvest Moon”, de Neil Young,  – e, aqui entre nós, ficou a faltar uma das mais bonitas covers também já feitas pela Bebel: “Samba da Benção” (originalmente de Vinicius de Moraes). Afinal, a letra de “Samba da Benção” (“é melhor ser alegre que ser triste / A alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração / Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza / É preciso um bocado de tristeza / Senão não não se faz o samba não”) resume toda a aura musical da artista: uma felicidade serena que toca na tristeza e a necessidade de haver tristeza para haver beleza e composição de música. Mas, pelo charme de todo o concerto, não só pelas músicas em si como por todo o encanto enternecedor que a artista imprime na sua atuação, está perdoada por essa “falta”.

Para encore, dois dos seus temas mais conhecidos, “Samba e Amor” – tema gravado com o seu tio Chico Buarque – e “Preciso Dizer Que Te Amo” – o seu primeiro tema gravado em estúdio, em 1986.

Bebel respira música e nota-se que esta é a arte que preenche a sua alma – não corresse a música no seu sangue, sendo filha de Miúcha e João Gilberto, e sobrinha de Chico Buarque. Bebendo das suas heranças, nunca desiludiu, contando com uma carreira sólida, estando o lançamento do seu próximo álbum previsto para este ano.

No palco do teatro Tivoli BBVA, era só ela e o seu companheiro Guilherme – como o nome do espetáculo, de resto, indicava, “Voz e Violão”, a base eterna da bossa nova. E, de facto, não era preciso absolutamente mais nada para sairmos de lá com o coração cheio.

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