Análise – Watch Dogs: Legion

Uma aposta ambiciosa e cheia de estilo, mas com pouca substância.

Watch Dogs: Legion análise
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De tempos a tempos surge um jogo que me faz questionar quem sou e qual é o meu objetivo. Não o digo a nível pessoal, mas sim no contexto da oferta do próprio jogo, algo que aconteceu demasiado rápido em Watch Dogs: Legion, a nova aposta da Ubisoft, na série antissistema que, desta vez, nos deixa pertencer a uma rebelião que luta pela liberdade da cidade de Londres.

Politicamente relevante e quase premonitória do que poderá ser um futuro próximo, se o mundo continuar na direção em que se encontra, Watch Dogs: Legion apresenta uma visão arrojada de um futuro onde as ferramentas e os sistemas tecnológicos que tanto nos fazem falta no nosso dia a dia,+ podem ser usados contra nós, de uma forma mais clara e explícita do que já acontece atualmente.

O terceiro jogo da série chega com grandes ambições, maioritariamente técnicas, no ponto de vista de produção de um jogo. Em Watch Dogs: Legion podemos interagir com todos os habitantes londrinos com quem nos cruzamos, que contam com linhas de diálogo próprias, caras, vozes e histórias criadas por inteligência artificial. Além disso, temos também um jogo de transição de gerações nas consolas que tira partido das novas capacidades das Xbox Series X e Series S e da PlayStation 5, apresentando um mundo mais rico, detalhado e vivo.

Em Watch Dogs: Legion, estas ambições e inovações estão bem presentes, tornando esta versão cyperpunk de Londres, meticulosamente recriada com os seus pontos de interesse mais icónicos e outras supressas para quem conhece a cidade, num assustador, mas muito interessante, destino para explorar durante horas e horas a fio. Contudo, a minha viagem por Watch Dogs: Legion ao longo dessas horas não me impressionou, nem me agarrou tanto como estava à espera, porque, como indiquei no início, não encontrei o meu rumo ou o rumo das suas personagens.

Com a possibilidade de podermos ser qualquer um dos habitantes desta cidade virtual, que variam entre as figuras mais estereotipadas da sociedade atual, a caricaturas de perfis bem problemáticos, o jogo não nos dá a liberdade de criarmos um avatar nosso, nem nos dá acesso a um protagonista protagonista. O protagonista em Watch Dogs: Legion é mais do que uma pessoa, é uma entidade, a organização DedSec, composta pelas personagens que vamos recrutando, de alguma forma aleatória, ao longo das nossas missões, e que são as nossas pessoas que vamos ter que vestir a pele e controlar.

Watch Dogs: Legion análise

O conceito é interessante, sem dúvida, mas acaba por ser bem mais limitador do que parece, pois os seus perfis, estatísticas e habilidades são sempre aleatórias e nem sempre se ajustam às nossas formas de jogar. Isto significa que é o jogador que tem que se moldar às suas habilidades e propostas do jogo, antes de embarcar confortavelmente em missões de ação furtiva e hacking recorrentes.

Podermos ser todos, mas nenhum em particular, faz de Watch Dogs: Legion um jogo com falta de identidade e de uma ressonância emocional, algo que torna pouco motivante o avançar da sua história maioritariamente contada através de conversas áudio, logs e, eventualmente, uma ou outra cinemática ou videochamada. É assim difícil ficar investido ou envolvido na missão da DedSec, que até apresenta motivações bastante fortes para a sua atuação.

Como qualquer jogo de mundo aberto do género, a história pode passar para segundo plano, pelo que a exploração e diversão pela caixa de areia que nos é oferecida pode ser um profundo poço onde podemos gastar horas. A versão digital de Londres em Watch Dogs: Legion é, sem dúvida, bela. Apesar dos exageros do “tsunami” tecnológico que mergulhou a cidade de neons, hologramas, drones e pontos de controlo com scans e turrets, é uma cidade muito autêntica, com uma atmosfera fantástica, cheia de atividades para explorar e muitos segredos para apanhar.

Apesar de ser um jogo da Ubisoft, normalmente criticado e até gozado pelo excesso de pontos de interesse, fui surpreendido pela sua quantidade limitada aqui apresentada e por não me fazer sentir tentado em limpar o mapa com tanta frequência. É refrescante poder explorar o jogo ao nosso ritmo apenas com o objetivo seguinte em mente e, lá pelo meio, ter um ou outro ponto de interesse que nos propõe algo diferente.

A jogabilidade de Watch Dogs: Legion não é muito diferente dos jogos passados, com um foco no hacking de equipamento, armadilhas e veículos que podem ser usados para nossa vantagem. O mundo torna-se num puzzle em tempo real, onde as decisões têm que ser tomadas numa fração de segundo para o sucesso da nossa missão, com eventos inesperados e, por vezes, cómicos, a fazerem parte desta experiência.

As mecânicas de tiro e cobertura mantêm-se mais ou menos as mesmas, dependendo de personagem para personagem, com algumas das suas habilidades secundárias, que abrem as portas a novas maneiras de abordar um conflito, a diferenciarem-se de perfil para perfil. No início podemos estar limitados, mas, com um simples sistema de progressão com troca de créditos, podemos tornar as nossas personagens mais aptas a qualquer situação, independentemente de quem sejam.

Watch Dogs: Legion análise

É nessa altura que o jogo se torna mais divertido e motivante de embarcar nas missões propostas, já que o leque de opções para nos infiltrarmos numa determinada zona para hackear um computador ou roubar informações importantes é mais vasto, criativo e emocionante.

No entanto, a repetição torna-se rapidamente uma constante nas suas missões, assim como as áreas que vamos explorando, onde se sente um excesso de minijogos de lógica, com recurso a drones e aranhas mecânicas que, infelizmente, ajudam a quebrar o ritmo e o fator de diversão.

Watch Dogs: Legion parece ter sido lançado também com uma missão: apresentar um jogo capaz de mostrar o poder da nova geração de consolas e placas gráficas. O Ray-Tracing é o grande destaque, capaz de apresentar uma cidade muito mais realista, onde os vidros não são totalmente transparentes e apresentam alguma refletividade, onde as poças de água revelam os neons e as luzes dinâmicas dos carros e veículos que por elas passam e que, por vezes, ajudam a dar uma pequena vantagem ao jogador durante os confrontos ao ver inimigos atrás de si, graças às superfícies refletivas na sua frente.

Aliado à capacidade de produzir efeitos de luz e sombra mais naturais, Watch Dogs: Legion, em situações ideais, é belíssimo. Infelizmente, nem sempre é assim, especialmente se estivermos a falar na versão para Xbox Series S, onde tive a oportunidade de experimentar o jogo com estas tecnologias, que se estreiam na plataforma, precisamente, com Watch Dogs: Legion.

Com uma resolução dinâmica, no melhor cenário, o jogo tem uma qualidade de imagem brutal e os visuais são tão apelativos como imersivos. Por outro lado, em situações mais caóticas e com efeitos atmosféricos mais acentuados, como a chuva, existe um efeito negativo na qualidade de imagem, com muito desfoque e ruído. Não tem uma apresentação constante e, infelizmente, acontece com tanta frequência e severidade que acaba por nos tirar da experiência. As coisas são melhores na geração atual, nomeadamente na Xbox One X, onde a não existência de Ray-Tracing torna a experiência mais constante, mas com o pequeno sacrifício das inovações.

Watch Dogs: Legion acaba por ser um jogo estranho e mais contido do que aparenta. As suas ambições estão concretizadas, mas parecem impactar demasiado a experiência e potencial do jogo, com detalhes que passarão por baixo do radar de muitos jogadores. É interessante do ponto de vista de design, mas acaba por ser um produto onde o estilo se sobrepõe à substância, com falta de identidade, rumo ou urgência.

Nota: Satisfatorio

Plataformas: PC, Xbox One, Xbox Series X e S, PlayStation 4 e PlayStation 5
Este jogo (versão Xbox) foi cedido para análise pela Xbox Portugal.

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