Análise – Shadow of the Tomb Raider

por David Fialho

Shadow of the Tomb Raider é o terceiro jogo da trilogia mais recente de Tomb Raider, que funciona também como uma espécie de prequela onde assistimos à caminhada de Lara Croft até se tornar na personagem icónica de jogos de outra era.

Ainda que seja este o conceito original desta nova visão, estes três jogos existem no seu próprio universo, descolado de outros episódios, mas mantendo a alma e a genética do passado.

Shadow of the Tomb Raider é a continuação direta de Rise of the Tomb Raider. Surge para concluir esta jornada que se iniciou em 2013 e para o melhor e para o pior é, dos três jogos, o que nos dá mais nostalgia, ainda que nem tudo funcione como deveria.

A apresentação de Shadow of the Tomb Raider é incrível. Com a nova aventura a passar-se na América do Sul, somos levados por pequenas cidades locais, aldeias tribais e por selvas e florestas ricas em fauna e flora. Mas o que salta mais à vista são as áreas de exploração que vamos percorrendo de forma algo linear durante a narrativa do jogo ou, até mesmo, os túmulos que podemos explorar.

Todas estas áreas são apresentadas com um detalhe incrível, extremamente bem decoradas, quer com ruínas milenares intocadas quer pela forma com que a natureza se mistura ou absorve essas estruturas. A iluminação do jogo cria uma atmosfera densa, rica e bastante realista, dando a sensação de que são locais reais e intocáveis há centenas de anos.

Esta apresentação geral, juntamente com arquitetura e design dos níveis, que nos propõem desafios e quebra cabeças interessantes que que nos vão fazer perder algum tempo, são os elementos mais reminiscentes de um Tomb Raider de outras eras, onde, entre cada salão e área aberta, havia um corretor apertado, uma gruta claustrofóbica ou sequências subaquáticas que se colocavam entre essas zonas para apimentar a jornada e dar aquele toque de ansiedade necessário à exploração.

Como não podia deixar de ser, o que não faltam são armadilhas mortais e relíquias esquecidas, que, mais do que colecionáveis, podem ajudar-nos a progredir na árvore de habilidades de Lara Croft.

É com muito agrado que o foco na exploração é muito maior neste jogo e, mais uma vez, temos um nível de acessibilidade raro em jogos de mundo aberto, ou semi-aberto, que permite o ajuste de diferentes níveis de dificuldade. No caso de Shadow of the Tomb Raider, existem três níveis independentes para a exploração, para o combate e para a resolução de puzzles.

Este foco dado às coisas que definem Tomb Raider também coloca de parte a componente de shooter deste jogo, que é surpreendentemente baixa. Confrontos com inimigos são escassos e não acontecem todos em porções de história, algo que se torna desapontante quando nos lembramos que foi introduzido um sistema de ação furtiva que podia ter sido muito mais explorado se pudéssemos, por exemplo, usá-lo em áreas mais abertas espalhadas pelas secções de mundo aberto.

Ainda no que toca à exploração, é interessante a forma como o jogo se transforma quando mexemos nas suas definições, onde os indicadores visuais do nível podem ser amplificados através de paredes e árvores pintadas, ou até desligados, acrescentando uma camada de dificuldade extra e obrigando-nos a ficar mais atentos ao que nos rodeia.

Contudo, são os jogadores mais casuais que ficam a perder, mesmo na definição mais baixa. Por muitos indicadores que o jogo nos dê, é frequente perdermo-nos ao passarmos ao lado de uma pequena abertura que esconde uma parte muito escura do local e sentirmos que bloqueamos ou o que jogo tem um problema qualquer.

A escuridão em Shadow of the Tomb Raider é utilizada em diferentes dimensões. Apesar de uma apresentação bonita e cuidada, o jogo é, visualmente, extremamente escuro, obrigando a que se altere as definições de brilho e gama do jogo ou das nossas televisões em algumas porções do jogo.

Mas a escuridão também marca o tom desta aventura de Lara Croft, prometendo-nos que vai ser aqui que ela se irá tornar na Tomb Raider. Se visualmente o jogo parece, por vezes, demasiado escuro, também a sua narrativa ganha contornos sérios desnecessários ao tornar tudo deprimente e, até, aborrecido.

Entre pausas para explorações de zonas ou a fazer missões secundárias aborrecidas, são poucos os momentos em que sentimos que estamos a progredir a caminho de uma grande aventura.

Tudo parece girar também à volta de meia dúzia de personagens e o sentimento de que estamos envolvidos nesse apocalipse simplesmente não existe.

Lara Croft tem, certamente, alguma bagagem e um sentimento de vingança misturado com o egoísmo de colecionadora de tesouros, que, ao somar isto tudo, a tornam numa pessoa desinteressante e com motivações difíceis de aceitar, pelo menos pela maneira como foi escrita e é apresentada no ecrã.

Todo o jogo está desenhado e escrito para ser levado muito mais a sério do que é suposto, resultando em situações chave que não acontecem com o impacto emocional pretendido. É difícil relacionarmo-nos emocionalmente com as personagens e a transformação de Lara Croft para esta versão de Tomb Raider pode não ser a mais satisfatória.

A história de Shadow of the Tomb Raider é apresentada com uma situação maior do que a vida, um apocalipse eminente causado supostamente por Lara Croft. Seria de esperar uma luta contra o tempo e uma panóplia de obstáculos para impedir um destino tão negro, mas o sentimento de urgência perde-se ao longo do que é oferecido no jogo.

Infelizmente, o modo como a história é contada é, provavelmente, o ponto menos positivo de Shadow of the Tomb Raider. A aventura é relativamente curta, o elenco de personagens não é devidamente explorado, aparecendo ou desaparecendo quando é conveniente para história, e a nossa protagonista é aborrecida e muito deprimida.

Ainda assim, o tempo passado em Shadow of the Tomb Raider foi, na sua maioria, divertido, muito graças à exploração deste mundo. A procura de relíquias, pequenas caçadas de animais raros, colecionar pedaços de história, resolver puzzles e descobrir áreas novas nunca cansa até concluir o jogo a 100%.

Shadow of the Tomb Raider pode não ser um título forte naquilo que se pede para um jogo com foco na história, mas acerta nos elementos certos de um Tomb Raider.

Shadow of the Tomb Raider está disponível para PC, Xbox One e PlayStation 4.

Este jogo foi cedido para análise pela Ecoplay.


 

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