Análise – Sea of Thieves – Um divertido simulador de piratas

por David Fialho

Sea of Thieves é o mais recente exclusivo para o ecossistema Xbox (Xbox One e Windows 10). Desenvolvido pela Rare, este jogo promete levar-nos por aventuras em mar alto, com uma pala num olho e uma perna de pau.

Nas últimas duas semanas, graças ao período gratuito de 14 dias do Xbox Game Pass, tive a oportunidade de experimentar aquele que já é considerado o jogo de maior sucesso da Microsoft, nesta geração.

A antecipação por este jogo transcende o seu tipo de jogo, pois marca o regresso do estúdio britânico Rare, cujo último jogo “a sério” foi Banjo-Kazooie: Nuts & Bolts para a Xbox 360, que já data de em 2008.

Desde então, o estúdio outrora conhecido por jogos como Donkey Kong Country para a SNES, ou GoldenEye 007 para a Nintendo 64, dedicou-se ao desenvolvimento de aplicações para a Xbox e jogos para o já defunto Kinect.

A ideia de termos um jogo a sério da Rare era entusiasmante e um possível regresso à boa forma deste estúdio com Sea of Thieves parecia, na teoria, algo mesmo interessante e refrescante, sentimentos que, de resto, perduraram durante as primeiras horas de jogo.

Em Sea of Thieves podemos ser piratas. Podemos ter o nosso navio, uma equipa com outros piratas, desenterrar tesouros, combater contra outros piratas em épicas batalhas navais e muito mais.

O jogo começa com a nossa criação de personagem. Ao contrário do que costumamos ver noutros jogos, em que temos diferentes opções de personalização, aqui encontramos um grupo de personagens geradas com detalhes aleatórios, das quais podemos escolher uma.

A vantagem deste sistema é que a probabilidade de encontrarmos um pirata igual ao nosso é reduzida. Por outro lado, num jogo que prima pela liberdade, estamos limitados por uma roleta russa, com personagens definidas e criadas pelo jogo.

Sea of Thieves

Os primeiros minutos podem ser decisivos para o jogador decidir se quer mesmo avançar para este mundo, mas há algo que não pode ser negado: Sea of Thieves é um jogo extremamente bonito. Conta com um design artístico animado, quase de desenho animado, mas com efeitos que dão uma ilusão de hiper-realismo incrível.

O título tira partido das tecnologias do Unreal Engine 4 para criar um mundo muito colorido, que tem tanto de paradisíaco como infernal, especialmente quando rebentam as tempestades.

O mundo é, maioritariamente, construído por água, com dezenas de ilhas para explorar espalhadas pelo seu imenso mapa. O mar é a estrela e não há muitos efeitos de água tão realistas como em Sea of Thieves. A ondulação é orgânica e inesperada, encontramos espuma quando o mar está mais agitado, e, quando está calmo, quase que dá para ver o reflexo das ilhas no horizonte ou do nosso barco ao perto.

A nível técnico, é também interessante como Sea of Thieves se comporta tanto nas consolas como no PC. Se na Xbox One original temos um jogo com um desempenho sólido e uma qualidade de imagem impecável, no PC encontramos uma flexibilidade enorme de definições que nos permite jogar ao máximo. Mesmo com definições mais modestas, é perfeitamente jogável sem perder uma pitada da experiência. Sea of Thieves corre na perfeição em computadores mais lentos.

Mas recuando à experiência do os primeiros minutos de jogo, o que encontrei foi um misto de alegrias e dúvidas. Por um lado, Sea of Thieves é libertador. Larga-nos neste mundo e deixa-nos à descoberta. Para quem joga com regularidade, este pode ser um aspeto positivo. No entanto, sendo um jogo direcionado para um público mais vasto, teria sido simpático o jogo “dar-nos a mão” durante um bocado. Mesmo assim, sem qualquer ajuda ou indicação do que fazer, lá consegui encontrar o “meu caminho”.

Aqui, o jogador terá que explorar de imediato a taberna onde começa e as várias casas e tendas que ali se encontram para saber o que fazer.

Temos lojas onde podemos comprar fatos, armas e decorações, tudo com dinheiro do jogo, e temos vários pontos onde podemos adquirir as nossas missões. Ao todo, podemos levar connosco três missões, que serão escolhidas no barco.

O jogo começa, basicamente, da mesma maneira como se inicia todas as vezes que iniciamos o jogo, com a diferença que, noutras sessões, já temos algum dinheiro na nossa bolsa. Contudo, teremos sempre que escolher que tipo de barco queremos usar.

Sea of Thieves

Ao nosso dispor temos apenas dois modelos, um para grupos grandes e outro que é recomendado para jogadores a solo, ou pares.

Se até aqui o jogo é fácil de seguir, apesar não termos ajudas, quando chegamos ao barco esta falta de apoio é acentuada.

Sea of Thieves mostra-se, a partir deste momento, mais um simulador de piratas do que um jogo divertido e leve para desanuviar a cabeça.

A interação com os barcos é, curiosamente, complexa. A bordo, o jogador terá que baixar ou levantar a âncora, baixar as velas, escolher a direção das mesmas de acordo com as correntes de ar, pegar no leme e deixar-se conduzir pelo vento e pelas marés. São mecânicas algo profundas.

Mas partir para o mar não é assim tão “simples”. Há preparações que devem ser feitas, como ter a certeza que temos tábuas de madeira no nosso inventário, ou os canhões carregados prestes a disparar caso tenhamos algum acidente ou encontro inesperado. E claro, falta o destino.

Mais uma vez, o jogo só nos indica levemente o que fazer quando nos aproximamos dos pontos de interesse. Aqui temos que nos colocar, mais uma vez, incarnar no papel da personagem e usar a lógica para perceber como ler as pistas e o mapa. Não é difícil, mas numa primeira impressão senti que estava a desvendar um puzzle. Puzzle esse que tem de ser feito todas as vezes que queremos partir para uma missão.

De volta ao leme, é preciso ter atenção à direção do barco de acordo com o mapa e com a bússola, para os quais vamos olhar de cinco em cinco segundos.

É a partir deste momento que o jogo comporta-se como um jogo de tiros na primeira pessoa normal. Desembarcamos nas ilhas, temos esqueletos para atirar abaixo, escavamos os tesouros e apanhamos itens mágicos que temos que levar manualmente para o barco de volta a quem nos deu os contratos…

No fundo, o jogo é apenas isto, um loop eterno de viagens longas e complexas onde temos que ter cuidado com rochas e tempestades para não andarmos loucos de um lado para o outro a tapar buracos para não irmos ao fundo.

Sea of Thieves

É possível divertir-mo-nos sozinhos? Sim, claro que é. Mas a falta de uma linha narrativa, da diversidade de missões ou de um sentimento de progressão diminuem, em muito, o potencial do jogo.

Sea of Thieves é, no entanto, um jogo social. O mundo é partilhado com outros jogadores que estão, também eles, nas suas aventuras individuais ou em equipa.

É nesse modo que o jogo ganha vida e se torna muito divertido, fazendo de Sea of Thieves um recreio virtual onde podemos mesmo brincar aos piratas com os nossos amigos, enquanto lutamos pela sobrevivência com turmas rivais.

Jogar acompanhado é uma experiência transformativa. Ultrapassando os momentos de aprendizagem, todos os jogadores poderão tomar uma posição nestas aventuras. Podem até criar uma persona bem realista.

Em mar alto, a navegação cooperativa faz com que todos os jogadores tomem posições, para que seja possível encontrar outras tripulações para assaltar e roubar as suas descobertas. Para os mais pacifistas, podemos até juntar-nos em equipas.

Não há nada no jogo que defina um lado A ou um lado B. Apenas não podemos trair aqueles que estão definidos na nossa equipa com nomes verdes. De resto, existe liberdade total.

Este modo de jogo tira partido do áudio direcional de uma forma bastante inteligente, especialmente usando um par de auscultadores, em que a distância e a localização dos outros jogadores apresenta-se bastante bem posicionada. Isto obriga a que os jogadores se juntem mais perto para comunicarem e, até, poderem partilhar uma caneca de rum.

Sea of Thieves

Momentos hilariantes nestas sessões não vão faltar. Desde grupos de jogadores que nos perseguem até ao fim, a traições à última da hora depois de recuperar um tesouro, a um erro de navegação que nos afunda o barco, entre muitos mais.

No entanto, no fim do dia, a progressão não muda muito. Sea of Thieves acaba por ser um jogo que requer um investimento enorme, semelhante ao que encontramos em jogos de tabuleiro de fantasia, em que temos que vestir bem o nosso papel, estar disponíveis para socializar e começar, de alguma forma, sempre do mesmo ponto sempre que iniciamos o jogo.

Neste momento, Sea of Thieves parece um jogo ainda em desenvolvimento, ao qual poderá ser adicionado muito conteúdo num futuro próximo, em que objetivos ficam ao critério do jogador, na sua vontade de fazer contratos para ter dinheiro para novos fatos, itens e decorações, que não têm impacto na jogabilidade.

O título não desapontará quem seguiu o seu desenvolvimento e participou nos vários períodos de teste, mas irá certamente afastar alguns jogadores que esperariam o regresso em força da Rare com um jogo mais linear.

Para os curiosos, o jogo está disponível para quem for subscritor do Xbox Game Pass, que oferece um período de avaliação de 14 dias, tempo suficiente para explorar o que Sea of Thieves tem para dar por agora.

Quem quiser o jogo para si e para sempre, pode encontrá-lo na Store da Microsoft por 69.99€.


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