Análise – Marvel’s Spider-Man

por David Fialho

A relação entre o Homem-Aranha e os videojogos é quase tão antiga como a própria indústria do entretenimento digital.

A lista de jogos é extensa, com títulos baseados nas bandas desenhadas, na popular série de animação dos anos 90, nos vários filmes que recebemos desde 2002 ou até com histórias completamente originais.

Marvel’s Spider-Man insere-se no grupo dos jogos que apresenta uma história original e é o primeiro título a ser produzido pela Sony, que detém os direitos da personagem, em conjunto com a Insomniac Games, da fama de jogos como Ratchet and Clank, Resistance e Sunset Overdrive.

A escolha da Insomniac Games não podia ter sido melhor. Olhando para o registo dos jogos anteriores desta produtora, o talento, a alma e a tecnologia ao seu dispor pareciam ser elementos perfeitos para dar vida a uma nova versão de um Homem-Aranha.

Apesar de ser um videojogo, a nova aventura do aracnídeo pode ser facilmente comparada às adaptações cinematográficas pelo tipo de narrativa que apresenta entre os momentos de jogabilidade.

Para um jogo de mundo aberto, com muito por explorar, cerca de 30 horas pode não parecer muito, mas Marvel’s Spider-Man não quer colocar-se ao nível dos RPGs desta geração com um enorme foco na personalização, colecionáveis insignificantes, missões secundárias e terciárias ou narrativas alternativas que, por vezes, obrigam à repetição do jogo por completo.

Marvel’s Spider-Man não se livra de algumas dessas coisas, mas tudo parece ser introduzido com um propósito, compensando-nos sempre com algo novo e diferente. Naquilo que importa, a história é linear e apresenta uma jornada rica de momentos emocionantes que afetam não só o nosso personagem principal, mas todas as que o rodeiam, fazendo com que tudo o que aconteça no jogo seja importante.

Peter Parker aparece neste jogo já adulto, com 23 anos, a trabalhar enquanto assistente de um laboratório. É algo que quase não dá pagar a renda, e, ao mesmo tempo, veste o icónico fato de herói e luta contra o crime. Para trás ficam todas as histórias que já conhecemos e que o trouxeram até este ponto da sua vida. A transformação em Homem-Aranha, a morte do tio Ben, a relação complicada com Mary Jane Watson, entre outras.

O jogo poupa-se nestas apresentações e coloca-nos na pele de um Homem-Aranha familiar, em que o desconhecido são apenas eventos futuros.

O mesmo aplica-se a outras personagens secundárias e, até, aos vilões. Todos são facilmente reconhecíveis e todos apresentam um novo ponto de partida. Ainda que algumas histórias pareçam previsíveis, a maneira como são contadas e o modo como se relacionam com esta versão contemporânea do Homem-Aranha são, de alguma forma, “bem frescas”.

Mas mais impressionante do que arranjar uma nova tela em branco para começar a pintar esta nova aventura foi a própria ambição da Insomniac Games em criar um jogo tão rico e variado em personagens como é Marvel’s Spider Man, que resulta numa obra que quase parece uma autêntica trilogia.

A produtora soube trabalhar com material que teve à sua disposição de forma bastante inteligente e contida, apresentando uma sólida seleção de personagens e vilões para uma aventura longa e inesquecível, cheia de voltas e reviravoltas e momentos emocionantes, ao mesmo tempo que nos permite acompanhar a progressão e perceber a motivação de todas elas de forma direta e simples.

Houve um pouco de tudo ao longo desta jornada. Comédia, drama, tragédia… e até um sentimento de se querer mais, saber para onde a história vai caminhar e que novas ameaças é que vamos ter a seguir.

O ritmo da história não é perfeito. Os primeiros dois atos, por exemplo, atiram-nos por vezes para sub-narrativas que se deixam arrastar um pouco mais do que deviam. Mas é quando mais importa que tudo resulta e os momentos mais altos do jogo valem bem a jornada, revelando-se momentos tão espetaculares que fazem valer a pena ter uma PlayStation 4 só para os viver.

Para além das missões principais, vamos ter também imensas atividades secundárias. Temos vários crimes para parar enquanto navegamos pela cidade, colecionáveis para apanhar e missões deliciosas que, apesar de não acrescentarem muito à historia principal, surgem contextualmente ao ritmo da história principal e assemelham-se a divertidos episódios filler dos desenhos animados.

Visualmente, Marvel’s Spider-Man tem momentos que oferece o melhor que a PlayStation 4 tem para dar, com cinemáticas extremamente bem realizadas e com uma qualidade gráfica muito cinematográfica, que não só resultam como um filme CGI como também ajudam a criar uma relação emocional basta eficaz entre o jogador e as personagens. E é devido a estas “pérolas” que muitas das vezes só nos apetece correr para a próxima missão principal para assistir a mais um momento destes.

Marvel’s Spider-Man também brilha noutros aspetos, como por exemplo na jogabilidade, em que o jogo mantém uma consistência impecável, com ataques finais que mudam para ângulos que nos permitem ver o detalhe dos tecidos das personagens com a mesma qualidade que nas cinemáticas.

No entanto, este título não se livra de partes menos boas que, por vezes, parecem pertencer a um jogo diferente, nomeadamente em algumas missões secundárias, que mereciam cinemáticas trabalhadas em vez de cenas de diálogo na terceira pessoa, onde os personagens ficam estáticos ou apenas a gesticular para nos darem indicações. Felizmente, estas missões menos aprimoradas são poucas e não são, de todo, obrigatórias para o progresso da história.

Marvel’s Spider-Man não se faz só de personagens humanas. A cidade de Nova Iorque é uma personagem por si só e a sua apresentação ajuda a criar a atmosfera do jogo e a conciliar quase todos os aspetos visuais.

Apesar de não existirem ciclos de dia e noite ou alterações atmosféricas em tempo real (estando tudo isto diretamente ligado aos diferentes pontos da história), Nova Iorque apresenta-se com uma vida própria. Não é apenas um mapa para percorrer ruas ao ir de ponto A ao ponto B como na maioria dos jogos; é um mapa com verticalidade, com altura, com verdadeiros arranha-céus.

Com uma dimensão incrível, esta versão digital da Ilha de Manhattan é capaz de enganar quem nunca a visitou ou não conhece, fazendo-nos acreditar que é uma reprodução à escala 1:1 da cidade real.

Dividida por diferentes distritos, todos eles têm uma atmosfera própria, com diferentes tipos de arquitetura e marcos de referência bastante reconhecidos. É fácil perdermo-nos no detalhe e na quantidade de detalhe existente em cada edifício que parece mesmo único.

Claro que a navegação pela cidade num jogo destes não é feita por transporte (ainda que seja possível levar o Homem-Aranha até ao metro para viagens rápidas entre pontos), mas sim com o recurso às teias do nosso herói.

A jogabilidade de Marvel’s Spider-Man é simplesmente deliciosa. É muito fácil de se jogar e torna-se extremamente viciante quando temos a personagem com algumas habilidades que permitem uma fluidez de controlo maior.

Fluidez é mesmo a palavra-chave. Os controlos em conjunto com as fantásticas animações tornam os momentos de navegação, ação ou perseguição em autênticos bailados. Não há nada mais satisfatório do que balançar entre arranha-céus num final de tarde com a excelente banda sonora de fundo que lembra a banda sonora da trilogia de Spider-Man de Sam Raimi.

Da mesma forma que a atualização das habilidades ajuda a mestria da navegação, também no combate se faz sentir. E muito. Ao nosso dispor vamos ter três árvores de habilidades que temos que ir desbloqueando à medida que avançamos na história, onde podemos escolher que tipo de jogabilidade é que queremos dar uso, seja ataque, defesa ou técnica.

Juntamente com os gadgets e poderes associados aos diferentes fatos (que são muitos e que também vamos desbloqueando ao longo do jogo), o nosso Homem-Aranha não só fica mais forte, como passa a ser possível optar por diferentes estratégias de abordar as situações, como entrar a matar ou ser mais furtivo. Porém, é em confrontos com os vilões que tudo isto é posto à prova, permitindo ao jogador o uso de todas as armas ao seu dispor para superar esses desafios.

Um aspeto bastante positivo no que toca a estas habilidades é que Marvel’s Spider-Man permite trocar entres diferentes poderes especiais de outros fatos com o favorito, deixando que o jogador não fique preso a um fato que não goste devido a uma habilidade que lhe possa ser mais útil.

A jogabilidade é diversa e raramente cansa, uma vez que a abordagem a diferentes situações requer um estilo de combate quase sempre diferente, e os objetivos a cumprir em cada confronto adicionam uma nova camada de complexidade, de ritmo e de destreza.

À nossa escolha vamos ter ainda três níveis de dificuldade que podem ser alterados durante o jogo. São elas “Friendly”, “Amazing” e “Spectacular”, ou Fácil, Médio e Difícil, respetivamente. A grande diferença entre elas está nas janelas de tempos de reação do “Spider-sense” e na quantidade de dano que levamos.

Não há necessariamente uma razão para colocar no modo “Spectacular” a não ser a adrenalina de ter a fasquia mais elevada durante um combate, sentimento que vai desaparecendo ao longo do progresso do jogo e que torna tudo mais difícil apenas nos grandes confrontos principais.

Marvel’s Spider-Man faz-se acompanhar por uma bela banda sonora de John Paesano que tira imensas notas aos temas de Danny Elfman nos primeiros filmes de Spider-Man. O tema principal deste jogo, em particular, é bombástico, heróico, místico e torna os momentos mais emocionantes em algo maior que a vida.

No som temos ainda vozes com uma prestação incrível que encaixam na perfeição na representação visual das personagens, pelo menos na versão original em inglês. Já na versão portuguesa não se pode dizer o mesmo, percebendo-se facilmente que os atores estão a ler os diálogos diretamente do papel, com tons robóticos e um discurso pontual e artificial.

No fim de tudo, Marvel’s Spider-Man pode não um videojogo perfeito, mas tem todos os ingredientes para ser o videojogo de Spider-Man perfeito. O material é tratado com o devido respeito e seriedade sem nunca cair na paródia e não faltam referências deliciosas para os maiores fãs ou para aqueles que se tornaram fãs com a recente revolução da Marvel.

Com visuais incríveis, uma jogabilidade profunda e variada e com uma história que mete alguns filmes a um canto, Marvel’s Spider-Man, como exclusivo da Sony, poderá ser o início de uma série que vai ficar para história da PlayStation 4.

Marvel’s Spider-Man chega à PlayStation 4 no dia 7 de setembro.

Este jogo foi cedido para análise pela PlayStation Portugal.

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