Análise – FM 2021 (PC)

Apesar do excesso de trivialidades, FM 2021 é melhor e mais emocionante jogo da saga à data, desta vez dentro e fora de campo.

Análise - FM 2021
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Texto por: Cláudio Araujo

Nos últimos anos, Football Manager tem vindo a brindar os fãs com a introdução de grandes novidades. No ano passado, FM 2020 trouxe remodelações focadas na vertente de gestão a longo prazo do clube e inúmeros arranjos visuais para facilitar a navegação não só dos novos jogadores, como também dos mais experientes. São as chamadas melhorias de qualidade de vida que complementam a intenção de tornar os projetos de longo prazo mais aliciantes.

Análise - FM 2021

Este ano, com FM 2021, as novidades recaem sobre as interações com as personagens do jogo através da introdução de um sistema de gestos que se pode utilizar em conjunto com o discurso nas diversas interações com jogadores, jornalistas e membros do staff. Esta foi, aliás, uma das nossas críticas elaboradas à versão do ano passado, visto que o sistema de diálogos estava estancado há demasiado tempo. Também o dia de jogo sofreu alterações, além das conversas pré e pós-jogo com os jogadores. Existe, também, uma mini entrevista ao fundo do túnel de acesso ao relvado (a minha favorita foi do último jogo da temporada e já vão perceber porquê) e, supostamente, a equipa de observação também foi melhorada.

Este último tema não dá para explorar na primeira época porque a maior parte das equipas, apesar de ter orçamento para transferências disponível nessa fase, não o pode utilizar uma vez que as transferências realizadas na vida real são deduzidas a esse orçamento. Por exemplo, o Everton tem um orçamento de vários milhões de euros, mas na vida real contratou James Rodriguez, Allan, Abdoulaye Doucoure e Ben Godfrey, e, nesse caso, o jogo apenas nos dá essa diferença entre esse orçamento e o custo destes jogadores contratados, resultando num orçamento de 2,74 milhões de euros para transferências na primeira época. Apreciei esta decisão, confere mais realismo e torna-os mais seletivos com a escolha de clube.

É possível destacar o staff para encontrar bons jogadores e negócios, mas cada incursão destas requer algum tempo de observação, e a qualidade depende dos atributos dos vossos olheiros e restante staff de observação. Dada a existência de outras ferramentas gratuitas online que identificam logo, e com precisão, quais os melhores jogadores para cada posição, ou com maior potencial para futuro dentro do vosso orçamento, entre outras opções, e a necessidade de se movimentarem no mercado depressa para que não percam o próximo Mbappé, João Félix ou Ansu Fati, não me parece que esta área do jogo vá ser aproveitada pelos jogadores que todos os anos compram um novo FM.

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Por forma a explorar as novas vertentes de FM 2021 e sem esquecer as limitações orçamentais, decidi carregar um Save com base de dados alargada, voltar a criar o nosso Manager Echo Boomer, desta vez com um visual mais moderno, descontraído e com um perfil de motivador (no ano passado usei o perfil formador que encaixava que nem uma luva na equipa escolhida) e escolher um clube para treinar. E se, no ano passado, decidi utilizar um clube de topo numa liga de média – Ajax -, este ano decidi fazer a escolha inversa. Isto é, escolhi um clube médio e ambicioso numa liga de topo – Everton.

Assim que assumi controlo do Clube, fui prontamente presenteado com as expectativas da Direção relativamente ao meu desempenho enquanto treinador. Seguidamente é-me feito um briefing sobre a equipa, incluindo a tática recomendada, melhor 11, jogador-chave, entre outras questões, e disponibilizada a opção de gerir o clube quase por completo. Até aqui nada de novo.

As expectativas da Direção exigem-me a prática de um futebol de posse, atrativo, com um orçamento bastante restrito, baseado tanto quanto possível nas camadas jovens e na contratação de jogadores com 22 anos de idade ou menos. Assim, o meu primeiro ato foi o de procurar o melhor staff possível (tarefa algo desafiante dada a reputação do meu clube) para melhorar os jogadores disponíveis e conseguir rescisões amigáveis com o staff que não está à altura do novo desafio.

Apesar de as características da minha equipa não serem as mais adequadas ao estilo Gegenpress, decidi verificar se este estilo continua a ser superior aos restantes, conforme tem sido tendência nos últimos anos. Descarreguei uma tática da Internet, um 4-3-3 feito por outro jogador e com resultados comprovados para confirmar a minha teoria. As expectativas da imprensa eram de que iria terminar em 9.º lugar e, efetivamente ,isso quase aconteceu.

Eliminado de ambas as taças logo na primeira ronda, ao longo da época fui alternando entre o 5.º e o 7.º lugar, vencendo jogos com os grandes favoritos ou perdendo pela margem mínima, e levei grandes tareias de algumas equipas que devia vencer com alguma regularidade, sofrendo sempre golos nos últimos instantes do primeira parte ou do jogo e perdendo jogos em que claramente tinha mais golos esperados (xG – de expected goals) do que os adversários. A adição da estatística xG dá um toque extra de realismo ao jogo no sentido em que este termo estatístico tem sido cada vez mais relevante no futebol atual, mas, em termos práticos, traduz-se apenas na substituição do indicador “Oportunidades Flagrantes”, que sempre existiu em FM, por um número pomposo com casas decimais.

Mais ao menos a meio da época, decidi implementar um 3-4-3 a meio dos jogos, com o objetivo de ter os jogadores mais frescos e obter maior posse de bola nos últimos 20 minutos de cada jogo. Disto resultou uma redução dos fatídicos golos sofridos no final de cada jogo, mas a IA de FM 2021 tinha uma surpresa preparada para mim. Além do calendário difícil, as táticas deixaram de dar resultado: fui goleado por um Liverpool que já tinha sido campeão, por um Leeds que queria disputar os lugares europeus e fui, também, tendo outras derrotas e empates que me fizeram cair na classificação e ocupar um 8.º lugar a uma jornada do fim do campeonato, onde iria defrontar o 7.º classificado, o Wolverhampton.

As perguntas no túnel para este último e derradeiro jogo centraram-se à volta do meu possível despedimento (já percebem o porquê de ter sido a minha conversa favorita?). Felizmente, tive a sorte de vencer esse jogo por 1-0 com um golo isolado de Dominic Calver-Lewin, o avançado trabalhador que liderou o meu ataque ao longo de quase toda a época. Muito honestamente, caso não tivesse vencido este último jogo contra o Wolves, em vez de assegurar o 6.º lugar e classificação para as competições europeias, julgo que teria sido despedido, tal como aconteceu com Mourinho, Guardiola e Zidane ao longo da época. Aprecio o facto de ter sido necessário adaptar as tácticas para continuar a ter sucesso ao invés de usar sempre a mesma fórmula.

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O mercado de transferências na segunda época foi bastante ativo, tendo recebido várias propostas por jogadores das camadas jovens, habituais suplentes e alguns jogadores essenciais. Preferi tomar as rédeas a deixar a minha sorte às melhorias implementadas pela Sports Interactive. Consegui vender James Rodríguez aos 29 anos por um valor mais alto do que paguei, apesar de ele ter feito uma época um pouco dececionante, livrei-me de alguns excedentários que tinha no plantel e tive de aceitar a saída das minhas estrelas Lucas Digne (lateral esquerdo e marcador de bolas paradas) e Richarlison (melhor jogador) para o PSG e Chelsea por 30M€ e 90M€, respetivamente.

Com os 55% do montante recebido de transferências que tenho direito (pedi à Direção para ter acesso a uma percentagem superior, mas não me deixaram) e com recurso a tácticas de guerrilha nos mercados de transferências avançadas, como espremer o máximo de euros possíveis em jogadores de qualidade que pertencem a clubes que desceram de divisão (Newcastle foi a minha vítima favorita) e inclusão de umas cláusulas difíceis de realizar, tais como pagar uns milhões de euros a um clube na remota eventualidade de vencer a Taça dos Campeões Europeus nos próximos anos, consegui melhorar bastante a qualidade da minha equipa. Atualmente estou em 2.º lugar no campeonato, desta vez sem Gegenpress.

Quanto à representação do jogo em 3D, voltou a ter algumas melhorias ao nível dos gráficos em pequenas coisas, como a iluminação e algumas animações. Verificam-se também mudanças na organização dos dados informativos, como o número de ataques, condição física dos jogadores, entre outros. Esta é a grande diferença de FM 2021 face à versão do ano passado. Ao longo do jogo mantém-se o fundo roxo, mas a disposição gráfica das opções e informações dos menus estão organizadas de forma diferente.

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Este ano, os meus avançados fizeram mais golos no 1 vs 1 com os guarda-redes adversários e os remates de longe já não são tão temerários, pelo que é bom verificar que este exploit foi corrigido. Isto resulta em jogos muito mais interessantes, principalmente a partir da segunda época, em que já tive orçamento para contratar reforços. No entanto, ainda existem alguns bugs nas movimentações e animações dos jogadores, mas nada a que os jogadores regulares de FM já não estejam habituados.

Já os jogos continuam muito demorados, dado que, em cada jogo, existe sempre pelo menos um lance que é revisto no VAR. Quando tal acontece, o jogo abre um highlight para mostrar não só o lance em que o VAR é chamado a intervir, como também a repetição desse lance. Solução? Definam a opção de mostrar somente momentos decisivos e optem por correr esses momentos a uma velocidade de 2x.

Análise - FM 2021

Com o desenrolar da temporada, voltamos a testemunhar eventos de rebeldia com base no tempo de utilização, incumprimento de promessas, insatisfação relativamente aos prémios de desempenho, propostas de transferência ou empréstimo recusadas, novos contratos, entre outros. Este aspeto, apesar de ter sido renovado este ano através de novo grafismo (as conferências de imprensa agora têm o fundo de uma sala e as conversas de balneário têm uma imagem do nosso balneário em vez de serem uma simples caixa de mensagens) e das novas opções de gestos, tais como colocar o braço à volta de um jogador enquanto se elogia a performance no treino, ou apontar o dedo em sinal de desacordo com o comentário de um jornalista, volta a tornar-se aborrecida ao fim de algum tempo.

Em primeiro lugar, as opções de resposta são sempre as mesmas. E além disso, os gestos parecem ser indiferentes, pois apenas tornam algumas opções de resposta indisponíveis para o gesto em particular, não parecendo causar qualquer diferença na moral dos nossos jogadores.

Tenho ainda uma outra queixa. Dado que escolhi o perfil motivador, teria sido interessante que algumas opções de resposta fossem exclusivas desse perfil, mas, para falar verdade, não notei nada de diferente. Acabei por mim a desejar ter optado por um perfil mais tático por forma a suprimir algumas lacunas no treino. Em alguns momentos senti o apoio dos jogadores através de algumas mensagens que o jogo vai demonstrando e, portanto, se esse efeito psicológico do perfil de treinador que escolhi realmente existe, então ocorre de forma muito subtil.

Análise - FM 2021

O jogo está repleto de detalhes e opções de escolha, o que, por vezes, pode deixar-nos um pouco perdidos, e damos por nós já com imensas horas traduzidas em pouquíssimos jogos, mas FM é isto mesmo: escolhas estratégicas finamente executadas através de cliques em botões ao invés de fintas, passes em profundidade e remates em arco executados com um comando, como acontece em outros simuladores de futebol.

É precisamente por isso que esta remodelação é bem vinda. É um conceito muito bem elaborado, mas infelizmente aborrece rápido e não acrescenta nova emoção ao jogo. Não dá aquele pico de adrenalina de uma nova contratação ou de uma vitória num jogo renhido ou sobre o nosso maior rival. Os novos gráficos de interação são bastante impessoais, com as opções de conversa a tornarem-se redundantes e repetitivas, principalmente quando temos um adjunto com as recomendações certas do nosso lado.

Já a caixa de mensagens acaba por ter imenso spam. O que é que desmotiva qualquer pessoa que trabalhe num ambiente escritório como eu ou o nosso treinador Echo Boomer? Uma caixa de mensagens interminável! Houve um ponto ao longo da época em que recusei ler relatórios de olheiros por algumas semanas e, com isso, acumulei mais de 90 relatórios para ler. Além disso, ainda recebemos notícias casuais de jogadores que constam na nossa lista preferencial, pedidos de mini-entrevistas com duas perguntas sempre que um treinador interessado num jogador nosso aparece no estádio para ver um jogo nosso (como é que o jogo sabe que Guardiola está interessado no meu defesa esquerdo e não no meu estilo de Gegenpress fantástico?) e outras trivialidades. Acabei por delegar a gestão dos treinos de equipa e individuais de jogadores ao meu adjunto, o qual tem ótimos atributos nesse sentido, e saltar as mensagens sem as ler para progredir no calendário até ao dia do próximo jogo. O resultado foram imensas lesões ao longo da época, mas consegui mais tempo para testar as novas opções de diálogo do jogo.

No que se refere a licenças, tenho de repetir a crítica do ano passado. É uma pena que uma saga com tantos anos de história (primeira versão remonta a 2005 se ignorarmos o divórcio entre a SEGA e a Eidos) continue a não ter algumas das principais ligas mundiais e seus clubes, tais como a La Liga (Espanha), Brasileirão (Brasil) ou Premier League (Inglaterra) licenciadas.

FM 2021 está cheio de opções e essa é, verdadeiramente, a essência do jogo: viver o dia-a-dia de um treinador de futebol. Contudo, sinto que está na altura de cortar algumas trivialidades, tais como as notícias sobre jogadores no qual estávamos interessados há uns anos e agora já não, bem como especulação sobre visitas de treinadores ou conversas no túnel todos os jogos.

Deixem-me ter a gestão tática e técnica do clube, dos treinos e dos jogadores, algumas interações sociais com os media que possam ser leves e/ou divertidas, uma IA que se vá adaptando à minha forma de jogar e plot twists no balneário, mas não me obriguem a ler dezenas de mensagens por cada dia do calendário.

Não obstante, é o melhor e mais emocionante jogo da saga à data, desta vez dentro e fora de campo, e a renovação nas opções de discurso, apesar de um pouco parca, talvez por culpa de toda a situação que se vive na indústria neste momento e que resultou no adiamento de imensos jogos, é muito bem vinda e tem o potencial para ser melhor aproveitada numa versão futura do jogo.

Nota: Muito Bom

Disponível para: PC
Jogado no PC
Cópia para análise cedida pela Ecoplay.

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