Crítica – “AMOR AMOR” – Uma declaração ao cinema

É curioso como as melhores histórias que têm como título apenas a palavra amor, no geral, distanciam-se da idealização romântica (e fácil de agradar à audiência) que o nome do sentimento desperta. Felizmente este é o caso de AMOR AMOR, segunda longa-metragem do realizador Jorge Cramez. Ainda que o argumento seja inspirado na peça La Place Royale, de Pierre Corneille, de 1634, a adaptação portuguesa resulta como uma fotografia fiel das relações dos dias de hoje. Mais do que “amor”, esta é uma história sobre “escolhas”. Aquelas que somos obrigados a fazer e sabemos que irão repercutir por toda a vida.


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Como um simbolismo desse momento decisivo, a ação passa-se no último dia do ano, altura em que toda a gente se deixa envolver com a crença de que depois da meia-noite tudo será diferente.

No centro dos acontecimentos estão Jorge (Jaime Freitas) e Marta (Ana Moreira). O relacionamento aparentemente perfeito de sete anos afeta não só os dois, que têm expetativas diferentes, mas as pessoas à sua volta. Carlos (Nuno Casanovas), melhor amigo de Jorge, nutre uma paixão secreta por Marta, enquanto mantém um namoro descomprometido com a sua melhor amiga, Lígia (Margarida Vila Nova). Bruno (Guilherme Moura), irmão mais novo de Lígia, é mais um admirador de Marta e o único representante dos que acreditam no amor de contos de fadas.

AMOR AMOR

Embora o título “Amor amor” seja derivado de um suspiro de um dos personagens, não esperem sair do cinema a revirar os olhinhos. Este é um filme para pensar. Antes da necessidade de viver um amor verdadeiro, salta entre o quarteto principal um encantamento com os prazeres da juventude e uma oculta pressão exercida pela implacável passagem do tempo. É possível amar alguém para sempre? Da altura em que estou, ainda sou capaz de começar uma nova relação? Em que momento terei que fechar as opções e escolher uma única pessoa para partilhar o resto dos meus dias? São questões que parecem permear as ações das personagens.

De todo o grupo, Jorge é a maior tradução do individualismo que rivaliza com o amor puro e desinteressado. O artista plástico está sempre com uma câmara fotográfica na mão a registar os amigos e depois a transformar o que captura em arte. Os seus atos por vezes revelam uma pessoa egoísta – como se usasse toda a gente como um objeto de estudo – mas também acabam por fazer com que os outros se movimentem em busca do que de facto desejam.

Mais do que os dilemas que o guião levanta, o prazer diante do grande ecrã é proporcionado pela perceção de que estamos a assistir a um filme realizado por um apaixonado por cinema. Jorge Cramez, que volta ao formato longa-metragem depois de dez anos da estreia com O Capacete Dourado, dialoga bem com suas referências. O próprio realizador cita que há planos inspirados em Jean Renoir e em Teresa Villaverde. Há ainda uma certa piada com Single White Female que os cinéfilos vão reconhecer. E o público em geral há-de se encantar com lindas cenas de Lisboa e Sintra, mas não só.

Para além dos quadros que têm as cidades como fundo, há imagens internas tão interessantes que até pode-se destacar um plano-sequência close-up, num momento de epifania da protagonista, como uma das cenas mais marcantes. Não apenas do filme, mas daquelas que ficam para sempre na memória.

No fim, sem correr o risco de ser contraditório, acaba por ser difícil negar que é mesmo uma história de amor.

AMOR AMOR estreia a 8 de fevereiro nos cinemas nacionais.

Texto de: Hérica Marmo

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