Almada sem água: Consumo recorde na Costa da Caparica desencadeia proibição de regas e lavagens

- Publicidade -

Com os reservatórios a 10%, a Câmara de Almada avançou com cortes de água programados entre as 22h e as 6h.

A crise no abastecimento de água que afeta o concelho de Almada levou a presidente da Câmara Municipal, Inês de Medeiros, a decretar o estado de alerta na região, numa tentativa de mobilizar meios e reverter a situação com medidas drásticas de redução de consumo. A decisão surge numa altura em que os reservatórios do concelho se encontram a cerca de 10% da sua capacidade, um valor considerado crítico, quando o nível seguro para o funcionamento estável da rede deveria rondar os 60%. O cenário coloca em risco a estabilidade de todo o sistema de distribuição de água à população.

Perante esta realidade, a autarquia determinou a proibição imediata de todas as utilizações de água pública para fins não essenciais. Estão vedadas as regas de espaços verdes, a lavagem de viaturas e de vias públicas, bem como o enchimento de piscinas e outras atividades recreativas de elevado consumo. Adicionalmente, foram encerrados equipamentos municipais, balneários e infraestruturas desportivas que impliquem consumos significativos, salvaguardando-se apenas as situações de competições oficiais. O objetivo central destas restrições passa por reduzir para metade o consumo de água nos próximos dias, permitindo a recuperação dos níveis de segurança dos reservatórios.

Como consequência direta do estado de alerta, serão implementados cortes programados no abastecimento, organizados por zonas geográficas. Estes cortes ocorrerão no período noturno, entre as 22h e as 06h, e o calendário exato será divulgado com a maior antecedência possível através da Câmara Municipal, dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada e das Juntas de Freguesia. A medida substitui o modelo anterior de contingência, que embora tenha evitado que qualquer zona ficasse sem água por 24 horas consecutivas, gerou uma imprevisibilidade nos cortes que causou fortes constrangimentos a famílias e empresas.

Para mitigar o impacto junto das populações e garantir o funcionamento de infraestruturas críticas, a autarquia assegura o abastecimento prioritário do Hospital Garcia de Orta, de centros de saúde, lares de idosos, quartéis de bombeiros e restantes serviços essenciais. Está também prevista a chegada de 10 camiões-cisterna para apoiar as zonas e os equipamentos mais sensíveis do concelho. Para além disso, os SMAS de Almada reforçaram as equipas de monitorização da rede, deteção e reparação de fugas e roturas, bem como as ações de fiscalização para combater consumos abusivos e utilizações ilegais.

A estratégia para aumentar a oferta de água no concelho inclui a abertura de novos furos de captação. Atualmente, um novo furo já se encontra em funcionamento e um segundo deverá entrar em atividade até ao final da semana. De resto, e em articulação com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e com a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), está a ser agilizado o licenciamento de mais dois furos de captação, que serão localizados no Seixal, uma solução integrada para responder ao aumento excecional das necessidades.

A origem da crise prende-se com um aumento abrupto e histórico no consumo de água, registado desde o início do ano, com particular incidência a partir do mês de maio. Contrariamente aos padrões de anos anteriores, em que os picos de consumo eram pontuais, o ano corrente tem mostrado uma procura constante e invulgarmente elevada. Enquanto a média de consumo nacional se fixa nos 180 litros diários por pessoa, a média no concelho de Almada disparou para os 300 litros por habitante, atingindo valores próximos dos 500 litros diários em zonas de forte cariz balnear e turístico, como a Costa da Caparica, a Charneca e a Sobreda. Este incremento é justificado pela forte afluência turística e pelo crescimento urbanístico e de licenciamentos nestas freguesias.

A situação do abastecimento em Almada é historicamente dependente de um acordo com o concelho vizinho do Seixal, que data de há quase 60 anos, período em que as atuais divisões administrativas ainda não existiam nos moldes de hoje. O Seixal fornece tradicionalmente mais de 90% da água utilizada em Almada, num modelo em que a água é tratada como um bem público e não propriedade de um município individual. No entanto, o colapso de um furo conjunto no ano passado e diferendos jurídicos e administrativos entre os dois municípios introduziram constrangimentos adicionais ao sistema, acelerando a necessidade de Almada avançar com captações próprias e independentes.

O plano de investimentos dos SMAS de Almada, que conta com um orçamento anual de cerca de 40 milhões de euros para as áreas da água e do saneamento, destina cerca de 5 milhões de euros anuais a novos investimentos, sendo a maior fatia canalizada para a manutenção de condutas, adutoras e reparação de fugas. No último ano, o montante global aplicado na rede ascendeu a quase 50 milhões de euros.

Quanto ao acesso a fundos comunitários e nacionais, a autarquia esclarece que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) não contemplava verbas para o setor da água na Área Metropolitana de Lisboa, tendo as candidaturas de Almada sido direcionadas para o programa Portugal 2030, num aviso que abriu em maio e encerra em novembro, onde foram submetidos cinco projetos que totalizam 10,7 milhões de euros.

A resolução plena da crise e o regresso à normalidade no abastecimento dependem agora da eficácia das restrições implementadas, do arranque das novas captações e da colaboração ativa da população na redução do consumo doméstico, estimando-se que o sistema necessite de duas a três semanas para estabilizar por completo.

Entretanto, os SMAS de Almada estão a assegurar a distribuição de água a clientes considerados sensíveis e prioritários, no contexto das medidas de resposta adotadas após a ativação do Estado de Alerta no município.

A operação visa garantir o funcionamento de instituições que acolhem populações vulneráveis, nomeadamente no que respeita às condições mínimas de higiene, bem-estar e continuidade dos cuidados prestados aos utentes, numa fase marcada por constrangimentos no abastecimento.

No âmbito desta ação, os SMAS contam com o apoio do Município do Barreiro, que disponibilizou cerca de cinco mil litros de água. Este contributo enquadra-se numa articulação entre autarquias destinada a reforçar a capacidade de resposta perante a situação em curso.

Durante o dia, equipas no terreno têm acompanhado a evolução da situação, procedendo à monitorização dos efeitos da interrupção no abastecimento e à implementação de medidas para mitigar os impactos junto da população. A intervenção envolve diferentes serviços e trabalhadores, mobilizados de forma coordenada para responder às necessidades identificadas, com prioridade às entidades consideradas mais críticas.

Alexandre Lopes
Alexandre Lopes
Licenciado em Comunicação Social e Educação Multimédia no Instituto Politécnico de Leiria, sou um dos fundadores do Echo Boomer. Aficcionado por novas tecnologias, amante de boa gastronomia - e de viagens inesquecíveis! - e apaixonado pelo mundo da música.
- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Relacionados