Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Road Trip deixa uma sensação de déjà vu, mas mantém-se uma aventura divertida o suficiente para agradar ao seu público-alvo, ainda que sem qualquer elemento que a faça destacar-se no meio da vasta oferta do streaming.
Existem determinadas obras cujo impacto cultural é de tal maneira inegável que se torna numa mera questão de tempo até uma “sequela de legado”ou, no caso de Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Day, uma sequela individual ser anunciada. 10 anos após o lançamento do filme original, eis que o cineasta Marvin Lemus – estreante em longas-metragens – e o argumentista Matt Lopez (Father of the Bride) decidem voltar a trazer um título hilariantemente longo para o grande ecrã com Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Road Trip – para uma leitura mais agradável, passarei a referir-me ao mesmo por Very Bad Road Trip.
Alexander Garcia (Thom Nemer) sempre acreditou que tinha a pior sorte do mundo. Quando a sua mãe Val (Eva Longoria) planeia levar a sua família aparentemente desligada para umas férias luxuosas na Cidade do México a bordo de uma caravana de luxo como parte do seu trabalho como escritora de viagens, Alexander tem a certeza de que tudo acabará em desastre. Apesar dos receios, a família – incluindo o pai Frank (Jesse Garcia), a irmã adolescente Mia (Paulina Chávez), a avó Lidia (Rose Portillo) e o avô Gil (Cheech Marin) – parte, apenas para descobrir que tudo está a correr terrivelmente mal.
Hollywood adora reciclar ideias, especialmente quando um filme de família de baixo risco consegue uma performance decente nas bilheteiras. Foi exatamente isso que aconteceu com a obra de 2014. Uma comédia leve baseada no conto infantil de Judith Viorst e que soube servir o seu propósito primário: entreter o público-alvo. O grande diferencial para Very Bad Road Trip reside na abordagem cultural. O filme original centra-se num típico agregado familiar americano de classe média, ao passo que esta nova versão encontra a sua força na forma como abraça a herança hispânica das suas personagens.
Lemus traz uma energia genuína às dinâmicas familiares e à representação das tradições mexicanas e colombianas. As celebrações, a comida, a música e até as interações entre os membros da família refletem uma autenticidade não tão comum assim em filmes deste género. Nota-se um esforço claro em apresentar a identidade latina como parte integral da narrativa, e não apenas como um artifício superficial para cumprir quotas de diversidade do elenco ou requerimentos dos produtores executivos.
Longoria e Garcia oferecem prestações carismáticas e cativantes enquanto pais de Alexander. A atriz, em particular, destaca-se pelo seu impecável timing cómico e pela forma como equilibra os momentos de frustração parental com genuíno carinho pelos filhos. O jovem protagonista Nemer cumpre bem o seu papel, sendo algo ofuscado pelo restante elenco que acaba por receber mais material cómico para se destacar.
Tal como o filme original, Very Bad Road Trip aposta num humor físico acessível e em situações absurdas para arrancar gargalhadas. Pena que a maioria das piadas sejam previsíveis e sigam os mesmos moldes de tantas outras comédias familiares. Quedas, confusões embaraçosas, animais descontrolados e até aquele clássico momento em que tudo parece perdido, apenas para uma reviravolta emocional salvar o dia. Genérico e carregado de clichés, mas salva-se da mediocridade pelo seu coração e alma.
Apesar da fórmula repetitiva, Very Bad Road Trip conta uma história sobre união familiar e o peso das raízes culturais. Os momentos mais emocionantes envolvem o avô de Alexander e a importância das ligações entre gerações, um tema que podia ter sido explorado com maior profundidade. Os diálogos são simples e as soluções para os problemas surgem de forma tão conveniente que eliminam qualquer verdadeira tensão. Dito isto, honestamente, ninguém espera chegar ao fim totalmente surpreendido com alguma invenção narrativa.
Independentemente da opinião que os espetadores possam ter sobre os últimos anos da Disney, a verdade é que o estúdio aprendeu ao longo das décadas a como criar entretenimento seguro para toda a família. Very Bad Road Trip não tem ambições para ser mais do que isso e, sinceramente, nem precisa. Foi feito para pais e filhos assistirem juntos numa tarde descontraída, onde o maior objetivo é arrancar algumas gargalhadas e, quem sabe, relembrar a importância da família e das suas tradições.
VEREDITO
Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Road Trip deixa uma sensação de déjà vu, mas mantém-se uma aventura divertida o suficiente para agradar ao seu público-alvo, ainda que sem qualquer elemento que a faça destacar-se no meio da vasta oferta do streaming. Para quem aprecia a obra original e não se importa de embarcar numa viagem semelhante, mas com um sabor mais latino-hispânico, a recomendação é simples: apertem os cintos e aproveitem a viagem. Para os restantes, talvez seja melhor procurar um destino diferente.