A cada nova edição do Bons Sons, existe uma maior preocupação com a sustentabilidade do festival. A organização é mais empenhada que nunca, cada vez mais organizada, procurando melhorar o que se faz, sempre tendo em conta os interesses dos habitantes de Cem Soldos.

Nesta edição, a organização continua a apostar na diminuição da pegada ecológica do festival, aplicando não só medidas já implementadas em anos anteriores, mas também novas propostas. Nesse sentido, estivemos uns minutos à conversa com Ana Brazão, responsável pelo Plano Ecológico do Bons Sons, para saber concretamente as novidades deste ano.

Echo Boomer (EB) – Ana, como veio parar ao Bons Sons? O que faz de profissão, além de ter estes dias dedicados ao festival?

Ana Brazão (AB) – Eu trabalho numa Associação de Defesa do Ambiente de âmbito nacional, isto é, sem sede aqui em Cem Soldos, num projeto que tem como objetivo preservar os rios de Portugal. Trabalho na área, mas de uma forma muito diferente. O meu namorado é de cá, portanto acabei por fazer parte da família (risos).

EB – Fale-me um bocadinho das novidades do Plano Ecológico para esta edição.

AB – Nós somos um dos festivais selecionados para estar abrangidos por uma nova linha de financiamento criada pelo Ministério do Ambiente. O objetivo é financiar medidas que melhorem o desempenho ambiental dos festivais de música que decorrem este ano Portugal. Portanto, nós propusemos medidas, e algumas delas foram selecionadas para serem financiadas nesta edição.

EB – E que medidas propuseram?

AB – Propusemos cinco medidas, ao passo que quatro delas acabaram por ser elegidas. Uma diz respeito aos consumos de água – vamos instalar um conjunto de torneiras com redutor caudal (medida que teve maior classificação) -, que vem na consequência de outra medida (não financiada) que é o facto de eliminarmos por completo os copos de plástico descartáveis utilizados nas cervejas e nos refrigerantes. A partir de agora as pessoas vão ter de usar uma caneca. Essa caneca vai ter de ser limpa muito mais vezes e prevê-se um consumo acrescido de água. Portanto, pensámos na instalação das torneiras para que esse acréscimo de água não seja assim tão significativo.

Foto: Carlos Manuel Martins

Outra das medidas – esta de teste – é a instalação de sanitários secos apenas no parque de campismo para ver como os festivaleiros reagem e quais os usos e os comportamentos em relação a estas casas de banho. Vamos ter um plano de monitorização que vai medir todo o desempenho ambiental do festival, sendo que esta medida está incluída nesse plano, o que permitirá compreender se os festivaleiros preferem estas casas de banho ou as outras. Há aqui duas grandes vantagens. Por um lado não precisamos de usar água acrescida e energia acrescida no tratamento e transporte dos influentes líquidos gerados nas casas de banho normais, e, por outro lado, os resíduos produzidos vão sofrer compostagem durante um ano, portanto, o composto será depois utilizado em jardins e espaços florestais da própria aldeia. Tentamos, assim, fechar o ciclo do impacto que é gerado em um ano. E queremos dar a ideia de que a aldeia recebe muito de fora, mas dá muito de si, com o objetivo de querer que isto se torne um hábito não só a nível cultural, mas também ambiental.

EB – Mas notavam muitos copos no chão para pensarem nesta medida?

AB – Cada vez há menos copos no chão. Não só porque existe maior consciência ambiental por parte dos festivaleiros, mas também porque há alguns anos, mais precisamente em 2010, o Bons Sons inseriu no festival uma caneca de metal. A essa os festivaleiros aderiram muito bem e gostam de a utilizar e andam sempre com ela. Portanto, tem sido cada vez mais usual, menos pessoas a usar copos de plástico descartáveis e mais pessoas a utilizarem a caneca. Ainda assim, havia muito desperdício de plástico, que era usado apenas uma vez, e logo encaminhado para tratamento. E isto não fazia qualquer sentido. Agora com este apoio financeiro complementar, decidimos avançar com esta medida. E complementam-se umas às outras.

EB – Acha que aqui na aldeia, como estão num ambiente mais rural e não urbano, as pessoas vão aderir bem à medida do copo reutilizável?

AB – Sinceramente não me parece que as pessoas tenham reagido muito bem. Pode haver alguma confusão logística com o procedimento em si de comprar a caneca num sítio, dar um euro, ficar com uma senha e devolvê-la só para ficar com esse euro novamente. As pessoas pensam que têm um trabalho acrescido que antes não tinham. Vão perder uns minutos a perceber isto e a fazê-lo. Mas certamente que muitos vão olhar para os contentores de outra forma ao perceber que não estão cheios de lixo, não é? E como será a primeira vez que implementamos os copos reutilizáveis, certamente que haverá algo a melhorar.

EB – Havia uma preocupação da população da aldeia com o lixo que poderia resultar da existência do festival?

AB – Havia muito essa preocupação, sobretudo com as beatas. Lixo no chão, guardanapos… Fazia alguma confusão. O Bons Sons tem essa particularidade de não ser feito num recinto, mas sim dentro de uma aldeia. Lá está, o comportamento das pessoas vai mudando, portanto, há cada vez menos pessoas a deitar as beatas no chão. No geral, a mentalidade tem mudado.

EB – O financiamento é usado apenas para o plano ecológico ou será também aplicados noutras áreas?

AB – O financiamento (co-financiamento na realidade) é exclusivo do Ministério do Ambiente, portanto, é apenas para medidas de questão ambiental e ecológica. Não tem de ser reembolsado. Mas as verbas só serão disponibilizadas se as medidas correrem dentro do previsto e se forem corretamente implementadas, que é o esperado, obviamente. O ambiente é, talvez, das áreas mais transversais que existem, portanto, não existe nenhuma medida que depois não vá ter um impacto nas restantes. Outra das medidas, por exemplo, diz respeito ao Espaço Criança, que já existia há dois anos, e que este ano tem uma programação específica para sensibilizar os mais novos para algumas temáticas ambientais. Com este financiamento, conseguimos adquirir material educacional, conseguimos melhorar a oferta informativa, mas, por outro lado, acabamos por não estar apenas a tratar de questões ambientais. Estamos a falar da educação, de sensibilização das camadas mais jovens, ou seja, estamos a falar da própria oferta em termos de programa do festival. Nunca conseguimos dizer que o financiamento é só para o ambiente.

Foto: Pedro Sadio

EB – Provavelmente serão pioneiros em tudo isto.

AB – Em algumas medidas sim, somos pioneiros. Na questão das torneiras, por exemplo, fomos os únicos a fazê-lo até hoje. O Espaço Criança também é uma oferta que não existe em muitos festivais e também sabemos que este ano, financiados pelo Fundo Ambiental, somos os únicos que têm uma oferta nesse sentido. O próprio Bons Sons já é um festival muito diferente, o facto de ser um festival de grande dimensão organizado e executado por uma comunidade faz com que haja outros desafios. E isso também se vê depois noutra escala.

EB – Desde o início do festival, isto é, desde a sua concepção, sempre tiveram presente a área da sustentabilidade? Tentaram fazer disso a vossa missão?

AB – Sim, o plano ecológico sempre existiu. Aliás, ao longo destes últimos anos, o Bons Sons foi nomeado várias vezes para essa componente. Havia a preocupação das canecas, havia e sempre houve a preocupação com a reciclagem no recinto, e este ano continuará a haver a distribuição gratuita de cinzeiros portáteis. Havia um conjunto de preocupações, mas, como este é um festival com um base voluntária muito forte – a grande maioria são voluntários, fazem mesmo parte da comunidade –, a verdade é que várias medidas necessitavam de financiamento, mas nunca conseguiam sair do papel. Abrindo essa possibilidade, conseguimos que algumas se tornem realidade.

EB – Consigo trabalham mais quantas pessoas?

AB – Neste momento, estão comigo mais cinco voluntários. Têm funções diferentes, fazem coisas diferentes. São voluntários externos, ou seja, não são da comunidade, mas gostam e identificam-se com o projeto. Vêm cá passar uma semana e são responsáveis pelo plano de monitorização, isto é, vão estar em diferentes períodos do dia a perceber como é que as medidas estão a correr, qual o impacto que têm no festival, mas também o impacto que têm no ambiente e no desempenho ambiental deste evento.

EB – Há pouco falou-me no parque de campismo. Em anos anteriores, qual tem sido o feedback de quem acampa por lá? Se gostam das condições, se podiam existir melhorias, se há muita sujidade…

AB – Neste momento uma das coisas que estamos a tentar melhorar é precisamente a limpeza do parque de campismo. Estamos a tentar que seja mais frequente e que haja mais e melhores recursos. Mas, lá está, sendo um festival com base voluntária, tem sido mais difícil, e esse é um dos aspectos a melhorar. É um desafio grande, de facto. Estamos a falar de uma área que tem usos muito diferentes, tem entre 3 a 4 mil pessoas e não é possível fazer limpezas quando queremos.

EB – Mas a limpeza em anos anteriores era feita diariamente ou apenas quando terminava o Bons Sons?

AB – Era feita pelo menos uma vez por dia de forma exaustiva. Como estamos a falar de um grupo de voluntários, acaba por ser desafiante melhorar essa componente. Mas agora com estas novas medidas, vamos também perceber o impacto no próprio parque de campismo e em como podemos melhorar para anos seguintes.

EB – Por último, alguma coisa que queira dizer a quem vai ao Bons Sons?

AB – Venham viver a aldeia! Informem-se, há muita informação que está disponível no próprio recinto sobre as várias formas para melhorarem o seu desempenho. Acima de tudo, que estes “ensinamentos” da nossa parte estendam-se após a visita ao Bons Sons.

O Echo Boomer falou ainda com João Silva, responsável pela assessoria de imprensa, e com alguns voluntários do grupo de trabalho, uma equipa indispensável para a realização do festival. Lê a reportagem aqui.

 

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