Entre vegetação queimada pelo calor e pragas no terreno, os números confirmam um dos anos mais difíceis para a produção tradicional de castanha e mel.
A produção de mel e de castanha na região da Beira Alta registou uma quebra de cerca de 50%, penalizada pelo calor extremo, pela seca e pelos incêndios florestais. O cenário de fortes quebras agrícolas marca a Festa do Mel e da Castanha, evento organizado pelo Município de Góis durante este fim de semana, onde se concentram os desabafos e as preocupações dos produtores locais.
Os relatos apontam para uma época particularmente exigente. Um dos produtores, que chegou a gerir 80 colmeias no passado e atualmente mantém 30 devido à idade avançada e ao desgaste físico, confirma uma redução direta para metade na sua produção. O ano revelou-se degradante após um início marcado por um mês e meio de frio, seguindo-se um calor severo que queimou o queiró – vegetação responsável por conferir a tonalidade mais escura ao mel característico da Serra da Lousã -, restando a floração de castanheiro, que originou um produto de tonalidade mais clara, ainda que com a qualidade preservada.
Outra apicultora confirmou o enfraquecimento das colheitas relativamente a anos transatos, atribuindo as perdas a uma primavera muito quente que secou o mato. O fenómeno afetou criticamente a urze, a flor típica da serra local, cuja presença escassa limitou de forma drástica a produção apícola.
Apesar dos contratempos que assolam o setor, tem-se verificado um aumento no número de produtores de mel no concelho de Góis. No entanto, os profissionais têm sentido muitas dificuldades, com especial ênfase para a ameaça da vespa velutina, espécie invasora que se encontra a dizimar parte da produção, à qual se somam as altas temperaturas que têm condicionado o rendimento das colmeias.
O setor da castanha espelha a mesma tendência de quebra acentuada, com perdas igualmente estimadas na ordem dos 50%. Os produtores queixam-se diretamente das alterações climáticas, frisando que a combinação de calor prolongado com a carência de água impediu os frutos de atingirem o desenvolvimento e o calibre esperados, resultando numa colheita significativamente mais miúda. O impacto cumulativo da seca, das temperaturas anómalas e dos fogos florestais continua, assim, a afetar de forma substancial as produções tradicionais na região das Beiras.
