A Maddy Makes Games juntou-se ao boicote à Microsoft, que continua a fornecer tecnologia ao Ministério da Defesa israelita, apesar das denúncias sobre a sua utilização na vigilância de palestinianos.
Os jogos Celeste e TowerFall deixaram de estar à venda na XBOX Store, numa decisão tomada pela Maddy Makes Games em apoio à Palestina e ao movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções). A retirada dos dois títulos foi confirmada pela criadora Maddy Thorson, depois de vários jogadores terem reparado que já não era possível comprá-los na loja digital da Microsoft.
“Para quem está a perguntar, sim, retirámos Celeste e TowerFall da XBOX. Fizemo-lo para apoiar o boicote BDS”, escreveu Thorson na sua conta do Bluesky, sem avançar com mais detalhes sobre a decisão ou sobre um eventual regresso dos jogos à plataforma.
A retirada afeta apenas as novas compras, pelo que os jogadores que já adquiriram Celeste ou TowerFall continuam a poder aceder às suas cópias digitais. Os dois títulos também permanecem à venda noutras plataformas, incluindo no PC e nas consolas da PlayStation e Nintendo. No caso de Celeste, o jogo já tinha abandonado o catálogo do XBOX Game Pass a 31 de julho, mas continuava à venda na loja digital.
Outros estúdios independentes também estão a boicotar a XBOX.
A decisão da Maddy Makes Games nestes moldes não é um caso isolado e surge poucas semanas depois de a House House, conhecida por Untitled Goose Game, ter anunciado que não irá lançar Big Walk na XBOX. O jogo cooperativo chegou em agosto ao PC, à PlayStation 5 e à Nintendo Switch 2, mas ficou de fora das consolas da Microsoft por motivos semelhantes.
Num comunicado publicado em outubro, a House House explicou que sempre pretendeu que Big Walk pudesse ser jogado pelo maior número possível de grupos de amigos, reconhecendo que a ausência de uma versão para a XBOX contraria esse objetivo. “Gostaríamos muito que as pessoas pudessem jogar Big Walk na XBOX, mas não enquanto a Microsoft e/ou a XBOX continuarem a ser alvos do boicote BDS”, explicou a House House, defendendo que a ação coletiva pode contribuir para mudanças, mesmo quando dirigida a grandes empresas. O estúdio termina a sua declaração com uma mensagem de esperança de que, um dia, a Palestina seja livre.
Em abril de 2025, também a Ice Water Games retirou Tenderfoot Tactics da loja da XBOX, enquanto a Speculative Agency, responsável por All Will Rise, decidiu devolver o financiamento que tinha recebido da Microsoft para apoiar o mesmo movimento. Já Dan DiIorio, criador de Luck be a Landlord, pediu aos jogadores que deixassem de comprar o seu jogo na XBOX, anunciando ainda a intenção de doar 10 mil dólares ao Palestine Children’s Relief Fund.
Porque está a Microsoft a ser alvo do boicote em apoio à Palestina?
O movimento BDS, criado em 2005 e liderado por organizações palestinianas, procura exercer pressão económica e política sobre Israel em defesa dos direitos do povo palestiniano. Em abril de 2025, a organização lançou uma campanha especificamente dirigida à Microsoft e à XBOX, apelando ao cancelamento de subscrições do Game Pass, ao boicote a jogos como Minecraft, Call of Duty e Candy Crush e à suspensão da compra de produtos da divisão de videojogos da Microsoft.
Na origem desta campanha estão os contratos da Microsoft com o Ministério da Defesa israelita, incluindo o fornecimento de serviços de armazenamento na cloud através do Azure e de ferramentas de inteligência artificial. O movimento acusa a Microsoft de contribuir tecnologicamente para as operações militares de Israel e para o genocídio cometido contra a população palestiniana na Faixa de Gaza.
As acusações de genocídio não se limitam, contudo, ao movimento BDS. Em setembro de 2025, uma comissão independente de investigação das Nações Unidas concluiu que Israel tinha cometido genocídio contra os palestinianos em Gaza, identificando assassinatos, graves danos físicos e psicológicos, destruição das condições de sobrevivência da população e medidas destinadas a impedir nascimentos. Num novo relatório publicado a 26 de outubro de 2026, a comissão voltou a denunciar a continuação dos atos genocidas, bem como crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos pelas forças israelitas nos territórios palestinianos ocupados. Israel rejeita estas conclusões, enquanto o processo por genocídio apresentado pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça continua sem uma decisão final.
Quanto à Microsoft, a tecnológica norte-americana reconheceu a existência dos contratos com o Ministério da Defesa israelita e chegou inicialmente a afirmar que não tinha encontrado provas de que os seus serviços estivessem a ser utilizados para prejudicar civis. Contudo, em setembro de 2025, após uma investigação adicional, identificou elementos que sustentavam parte das denúncias relacionadas com a vigilância massiva de cidadãos palestinianos, tendo suspendido determinados serviços de armazenamento e inteligência artificial utilizados por uma unidade militar israelita.
No relatório final publicado em junho de 2026, a Microsoft confirmou que essas suspensões se mantinham, mas também que continuava a prestar outros serviços de software, cloud e inteligência artificial ao Ministério da Defesa israelita.
Apesar destas medidas, o movimento BDS considera que a Microsoft continua a contribuir para as operações do Estado israelita através dos seus serviços tecnológicos, mantendo a XBOX entre os alvos prioritários do boicote.
