A mais recente edição do Steam Next Fest está a gerar críticas entre os jogadores, que querem uma forma de identificar e ocultar jogos produzidos com recurso a ferramentas de IA generativa.
O Steam Next Fest regressou esta semana à Steam, com mais de sete mil demos disponíveis até 26 de outubro, mas o evento está a provocar uma onda de críticas por parte dos jogadores, que se queixam da crescente quantidade de jogos produzidos com recurso a ferramentas de inteligência artificial. Em particular, uma publicação no Reddit, está a gerar uma enorme discussão, com os utilizadores a lamentarem que o festival tenha deixado de ser uma boa oportunidade para descobrir novos jogos independentes, tornando-se cada vez mais difícil encontrar propostas interessantes entre milhares de projetos que descreve como “AI slop”.
“AI Slop” é expressão é utilizada para descrever conteúdos gerados com inteligência artificial, geralmente associados a produções de baixa qualidade, com pouco trabalho criativo e sem grande identidade própria. E com a evolução das ferramentas generativas e do chamado vibe coding, que permite desenvolver software através de instruções dadas a modelos de IA, tornou-se mais fácil produzir jogos e experiências sem grandes conhecimentos técnicos, levantando preocupações sobre a quantidade de projetos pouco trabalhados que acabam por chegar à loja da Steam.
Entre as várias críticas, os jogadores estão agora a pedir à Valve que introduza um filtro específico para identificar e excluir jogos com conteúdos gerados por IA, permitindo que deixem de aparecer nos resultados de pesquisa, nas recomendações e na própria seleção de demos do Next Fest. Numa outra discussão no Reddit, vários utilizadores defendem que esta opção deveria também estar integrada na Discovery Queue, permitindo personalizar a descoberta de jogos de acordo com as suas preferências.
A reivindicação não passa necessariamente por proibir a publicação destes jogos, mas por dar aos jogadores a possibilidade de escolher se querem ou não encontrá-los. Alguns comentadores defendem também uma identificação mais visível da utilização de IA em elementos criativos, como imagens, personagens, vozes ou materiais promocionais, enquanto outros consideram que a transparência deveria abranger todas as ferramentas generativas utilizadas durante o desenvolvimento.
E os números ajudam a perceber a dimensão desta discussão. De acordo com os dados publicados pela GameDiscoverCo, a edição de junho do Steam Next Fest contou com 4.382 demos, das quais 1163 tinham uma declaração de utilização de IA, o equivalente a 26,5% dos jogos participantes. Em fevereiro, essa percentagem era de 21,2%, demonstrando um crescimento na quantidade de projetos que assumem recorrer a estas tecnologias. Estes valores, contudo, dizem respeito a qualquer utilização declarada de IA abrangida pelas regras da Steam, não significando que todos esses jogos sejam produções de baixa qualidade.
A Valve já tinha introduzido em 2024 regras para identificar jogos com conteúdos produzidos por inteligência artificial, obrigando os produtores a declarar a utilização destas ferramentas e apresentando essa informação nas respetivas páginas da loja. No entanto, em janeiro deste ano, a Valve alterou as regras de submissão, deixando de exigir a declaração de ferramentas de IA utilizadas apenas para auxiliar o desenvolvimento, como os assistentes de programação, mantendo a obrigação para conteúdos gerados artificialmente que chegam aos jogadores, incluindo elementos visuais, áudio, narrativa e localização.
O problema é que, apesar desta informação estar disponível nas páginas dos jogos, a Steam continua sem oferecer um filtro que permita excluir automaticamente os títulos com declarações de IA. E embora a Valve tenha introduzido novas ferramentas de pesquisa e exploração para esta edição do Next Fest, com filtros por géneros, temas e características, a utilização de inteligência artificial continua de fora dessas opções.
Para já, a Valve não anunciou qualquer alteração que responda diretamente a estas reivindicações. E numa altura em que o número de jogos publicados e de demos disponíveis continua a aumentar, os jogadores receiam que a crescente presença de produções pouco trabalhadas acabe por prejudicar também os pequenos estúdios independentes, cujos projetos acabam por disputar a mesma visibilidade com milhares de outros títulos.
