Entre o math rock dos Angine de Poitrine e os hinos de Robbie Williams, o MEO Kalorama 2026 provou que ter muitas mulheres no palco já devia ser norma.
Texto de: Maria João Cavadas
28 de agosto de 2026. Parque da Bela Vista, Lisboa. 16h34. A fila que se vem formando para entrar no recinto que acolhe mais uma edição do MEO Kalorama é assustadora. Mas talvez seja, também, um sinal de esperança. Afinal, os primeiros concertos começam às 17h e ver um mar de gente a chegar tão cedo enche-me o coração. E, devo acrescentar, sob um sol quase inesperado, depois de dias tão cinzentos.
Como em tantos festivais, vejo-me, infelizmente, obrigada a escolher entre concertos, por coincidência horária. Resolvi começar com A Sul, até porque sigo o seu trabalho e ainda não tinha tido a oportunidade de ver. Com o primeiro álbum, (QUER QUER QUER), lançado em fevereiro deste ano, é a música de Cláudia Sul que dá o toque de entrada para a 5ª edição do festival.
Às 17 em ponto, é precisamente “QUER QUER QUER”, tema que intitula o álbum apresentado neste concerto, que dá o mote para um espetáculo simples, mas energético. Àquela hora, o público é escasso, mas quem está é porque quer. Nota-se. Alguns espetadores dançam, ainda que tímidos. É normal. A artista descreve o disco como um “sobre o luto e sobre como isso é transformador”. Aos poucos, tanto fãs como mais ouvintes curiosos vão chegando. À balada “Vinho de Caixa” seguem-se “Metáforas” e “Gin”, cujos ritmos contagiantes transbordam para o público, que conta agora com muito mais pessoas do que inicialmente. Este foi um concerto que, apesar de muito curto (durou menos de meia hora) se mostrou divertido até no meio das canções tristes. A música portuguesa devia ter outro lugar nestes festivais. E com outro lugar quero mesmo dizer hora.
Minutos depois, as australianas Folk Bitch Trio estreavam o palco principal do festival, o Palco MEO. Na sua primeira vez em Lisboa, desabafam: só 1h antes do concerto tinham conseguido a sua bagagem no aeroporto e tiveram de apanhar três voos para ali estar. Ainda assim, estão muito felizes. No público, muitos aproveitam as zonas de relva inclinadas para se sentarem. Este é, de facto, um concerto bastante tranquilo. Seria difícil esperar mais do que isso, no melhor dos sentidos. Três vozes angelicais e guitarras. Nada mais e o suficiente.
Se Lisboa é a cidade das 7 Colinas, o Parque da Bela Vista deveria ser uma delas. É difícil não nos queixarmos nem um bocadinho cada vez que temos de caminhar ali. Mas lá fomos nós para mais uma escalada até ao Palco Sagres, onde Anna von Hausswolff, com álbum lançado há pouco menos de um ano, INOCOCLASTS, (2025) viria comprovar que nem só de pop se faz a boa música sueca. Talvez seja enviesada, mas usar a voz como instrumento desta forma não é fácil. Ficámos fãs. Os mil aplausos foram mais do que merecidos.

De volta ao palco principal do MEO Kalorama. 19h. Finalmente. Os tão esperados Angine de Poitrine. Bolinhas? Muitas. Triângulos? Também. Uma língua própria e diálogos incompreensíveis geram risos na plateia. É certo e sabido que o duo canadiano é descrito como bizarro, diferente e há até quem desgoste. São um nicho do nicho alternativo. O seu math rock misturado com microtonalidade, adicionados ao anonimato dos membros, são um bom exemplo de “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, para quem não tem o seu ouvido acostumado a este tipo de sonoridade. E nem me debruçarei sequer sobre a sua capacidade técnica. Mas ninguém pode negar que o fenómeno que são os Angine de Poitrine merece ser um estudo de caso. E o que se passou ontem no concerto no Kalorama é prova disso. “Isto é um culto”, ouve-se. E talvez seja, mas um dos bons.

Permitam-me fazer uma pausa para falar sobre o MEO Kalorama e um problema específico que este me parece ter sempre: as casas de banho. Se é natural que em festivais desta dimensão haja correrias à casa de banho à mesma hora (entre concertos), também seria de esperar que houvesse um cuidado maior da parte da organização para evitar o aglomerado de pessoas naquelas zonas. As filas eram intermináveis até durante os concertos. O recinto tem espaço para ter mais casas de banho (há dois anos, a última edição a que fui, havia um quarto palco que tinha casas de banho ao pé, que já não existem).
Sentados debaixo das árvores próximas do Palco Sagres: foi como escolhemos assistir a Melody’s Echo Chamber. Enquanto fãs de Tame Impala, não conseguimos desligar das semelhanças entre os dois projetos. O que faz todo o sentido, dado que a francesa Melody Prochet, a cabeça do projeto, contou com Kevin Parker para produzi-lo inicialmente, tendo lançado o homónimo MELODY’S ECHO CHAMBER em 2012. Este concerto foi uma boa ponte para o que se seguiria, já que, apesar do rock e do pop psicadélicos que nos transportam para um universo mais pesado, houve sempre uma certa leveza ali, contrastante com o que ouvimos imediatamente antes.

Pouco depois das 21h, voltámos ao palco principal, desta vez para ver MARO. Ali, cruzaram-se a intimidade e a humildade com a grandeza. A artista portuguesa dispensa grandes apresentações, principalmente depois de representar Portugal na Eurovisão, em 2022. No MEO Kalorama, lanternas de telemóveis, calmaria, fãs a debitar letras, sorrisos e mais sorrisos. Às vezes com toda a banda, às vezes apenas empunhando a sua guitarra. Este foi um concerto que poderia ter sido tirado de um Coliseu, em nome próprio, mas que que resultou muito bem num festival, num dia que estava tomado por outros géneros. Foi com “we’ve been loving in silence” de can you see me (2022) que encerrou o concerto. Confesso que é uma das minhas preferidas.
Em dia de lançamento de álbum (This Mirror Weighs a Ton), os nova-iorquinos Interpol decidiram manter-se fiéis aos temas já conhecidos e a si próprios. Exatamente como esperados. Simples. Pouco entusiasmados até. Interação quase a zeros, como seria de esperar. Estão a fazer aquilo que querem: a tocar. E não lhes exigimos mais. Se o público de festivais se tem vindo a tornar cada vez mais exigente? Talvez. Mas os fãs da banda sabem que esta é a sua postura habitual. Não nos caiu mal. A verdade é que o recinto do MEO Kalorama se manteve cheio do início ao fim do concerto, que começou precisamente com o primeiro tema do álbum lançado no próprio dia. A calmaria de “This Mirror Weighs a Ton” foi imediatamente quebrada por “All the Rage Back Home”, de El Pintor (2014). Ainda assim, o entusiasmo da própria plateia não era grande. Continuávamos a ver muitas pessoas sentadas e poucas cabeças a mexer, pelo menos fora das linhas da frente. Seguiam-se “C’mere” e “Evil” de Antics (2004) e começávamos a ver alguns sinais de empolgamento, que se foram mantendo, mas a verdade é que sentia algum distanciamento entre o público e a banda. Ainda assim, ficou claro que a nostalgia foi vencedora. O regresso aos temas do passado, como os já referidos de 2004 e “Obstacle” de Turn On The Bright Lights (2002) foram os momentos altos de um espetáculo que não superou as nossas expectativas, mas também não esteve abaixo delas.
A noite terminou da melhor forma. Robbie Williams, artista que muito ouvi durante a minha infância, deixou claro o que veio fazer a Lisboa: “Let Me Entertain You”. E entreteve mesmo. Começar um concerto daquela forma, com toda a gente a cantar e dançar aquele refrão, enquanto anuncia a palavra de ordem – entretenimento – foi inesperado, porque o risco de a energia baixar seria enorme depois daquela explosão. Mas o meu receio viria a desaparecer ao longo das quase duas horas de concerto.
Se no concerto anterior a música e a tecnicalidade desempenharam o papel principal, aqui foi a conexão que se sobrepôs. Desde desabafos acerca da vida familiar, do seu sucesso e da sua sede por este, misturados com um humor britânico que pode ser tido como narcisismo, o artista inglês conseguiu cativar todos a cada minuto que passava.
Passou por vários momentos da sua carreira, com “Rock DJ” de Sing When You’re Winning (2000), “Pretty Face”, tema do seu mais recente álbum, BRITPOP (lançado em janeiro deste ano), “Love My Life” de The Heavy Entertainment Show (2016) e “Candy” de Take The Crown (2012). Nenhum dos hits passou despercebido. À minha volta, sentia comunhão. Sentia um à-vontade de todos para abrirem a alma e soltarem a voz.
O artista confessou que tem estado doente e que teve oportunidade de cancelar o concerto no MEO Kalorama, mas que não quis fazê-lo. E nós agradecemos. No meio de brincadeiras, que incluiram uma surpresa de aniversário a uma fã, falou também sobre a doença do pai e recordou os momentos em que, juntos, cantavam “My Way”, cantando precisamente o tema. Nem precisava de cantar. Nós, a plateia, fizemo-lo por ele. E ele fez aquele concerto exatamente assim – his way.
A saída do palco trouxe alguma animosidade ao público, que, naturalmente, esperava pelos seus maiores hits. Não estando habituada a encores em concertos, pensei mesmo que sairia dali com alguma desilusão instalada. Mas não. Alguns minutos depois, ali estávamos, juntos, a explodir com “Feel” e “Angels”.
Foi um espetáculo magnífico e que não esquecerei durante muito tempo.
