Vodafone Paredes de Coura 2026, Dia 4 e Balanço – Mais Coura no Festival, o professor Patrick Watson e Thundercat tão rápido como o Sonic dourado

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Com 115.000 pessoas nesta edição, o festival Paredes de Coura destacou a ligação ao território, bem como possíveis obras estruturais para as próximas edições.

O tempo passa depressa quando nos estamos a divertir, e foi neste sábado, dia de Assunção de Nossa Senhora, a seguir ao almoço, que se realizou na zona VIP do festival a conferência de imprensa de conclusão do festival Paredes de Coura, com a presença de João Carvalho (diretor do festival), Catarina Soares (também da Ritmos), Leonor Marques (diretora de marca da Vodafone) e Tiago Cunha (presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura).

Desde logo, os números: por esta 32.ª edição (o número maior dos festivais do género em Portugal) passaram 115.000 pessoas, número que inclui os espetadores dos concertos gratuitos do festival satélite Sobe à Vila realizados nos dias anteriores.

O principal destaque vai para o presidente da Câmara, Tiago Cunha, que muito embora fosse há muito vereador, se estreou no papel de edil nas termas da música após as eleições autárquicas de 2025 em que substituiu o carismático Vítor Paulo Pereira. E muito embora esteja numa linha de evolução na continuidade, existem novidades no discurso, desde logo no esforço de integração do festival com o território (“Este ano procurámos ter mais Coura dentro do festival”), destacando o Coura Sem Paredes como marca e a associação dos pontos de campismo às diferentes freguesias do concelho, num esforço de descentralização. Desta forma, sinaliza-se uma preocupação em não cristalizar o público dentro do recinto, risco sobre o qual aliás escrevemos em balanços de edições passadas.

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Patrick Watson no Paredes de Coura 2026 – Foto: Emanuel Canoilas

Por último, a frase forte sobre a longevidade do festival: “Há 32 anos que este festival convive com o sucesso. Mas a pergunta é sempre a mesma: O que fazemos nós com o sucesso? Absolutamente nada. Começamos de novo.”.

João Carvalho falou de começar de novo numa situação muito particular: a zona de restauração. Das quatro atuais, revelou o desejo de poder criar uma mais confortável com 3 ou 4 mil pessoas de capacidade. Importante também a pista deixada sobre a criação de um backstage que não utilize a rampa de acesso ao campismo, mas por um acesso alternativo pelo lado oposto do recinto. Alteração cirúrgica, mas que poderia dar acesso a camiões de porte maior. O que implica não é promessa, mas mais uma possibilidade com cautela: “poderia ser que trouxéssemos mais bandas grandes”. Aguardemos.

E música? Coube a Patrick Watson brilhar num formato despido: piano e voz, no anfiteatro natural do Taboão, avistamento de tipo raro do artista canadiano, mais associado a produções de câmara com banda completa. E resultou muito, com Wilson particularmente animado na interação com o público, muitos sorrisos levantados na colina cheia de gente sentada ao sol da tarde.

Destaca-se “Ode to Vivian”, peça instrumental de apenas 1 minuto e 30 segundos que dedica à fotógrafa americana Vivian Maier, figura que descreveu como uma heroína pessoal e que trabalhou trabalhou durante décadas como ama (aparentemente mean) e empregada doméstica em Chicago e Nova Iorque, fotografando secretamente as ruas sem nunca publicar o seu trabalho em vida. Uma peça de ritornello que vem de Better in the Shade (2022). Mais à frente a entrada de November Ultra, sensação viral de nome real Mélanie Pereira, francesa luso-descendente, para cantar “Silencio” (faixa de abertura do mais recente Uh Oh, de 2025) foi um dos momentos mais inesperados do concerto, com Patrick Watson a dizer que é simplesmente a sua cantora favorita.

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Meute no Paredes de Coura 2026 – Foto: Emanuel Canoilas

Quebequense francófono, “Je te laisserai des mots” foi outro momento belo, e “Peter and the Wolf” também de Uh Oh teve direito a uma explicação da origem: uma caminhada noturna pelas ruas de Nova Orleães que desembocou num pântano escuro e um carro antigo a deslizar silenciosamente ao fundo. Muito amor por Portugal a que chama segunda casa (em tempos gravou “A Mermaid in Lisbon” com Teresa Salgueiro), a seguir “Big Bird in a Small Cage” inspirado por conversas com o seu barbeiro (e que cabelo notável tem o artista), “Here Comes the River” num momento de entrega coletiva, e após votação final do público fecha-se com “The Great Escape”, do vencedor do prémio Polaris Close to Paradise (2006). Lição catedrática de música bonita.

Mais à hora do lusco-fusco uma coisa completamente diferente, ao melhor nível Monty Python: Os Meute, onze músicos em fato vermelho de banda de música com detalhes dourados e azuis, metais em força e no centro de tudo aquilo que raramente se vê num festival: uma marimba – primo mais grave e de som mais cheio do xilofone (com a curiosidade técnica aqui das duas baquetas na mão direita de André Wittmann) e que foi uma das estrelas desta festa do chamado techno marching, fundada em 2015 no famoso bairro de St. Pauli, em Hamburgo. O seu manifesto é claro: “Just drums and brass, no computers involved”. Um OVNI que aterrou em Coura, num concerto inserido na celebração de uma década de trabalho reunida na compilação Jubel lançada em 2025. Nada parecido.

Thundercat é outra coisa, mas também não lhe falta iconografia: Los Angeles, desenhos animados – a inspiração nos clássicos oitenteiros ThunderCats é óbvia, desde logo no símbolo em pano de fundo, anime, jazz de Compton, heavy metal adolescente e funk cósmico, com calças de fato de treino do clássico filme The Crow. Stephen Lee Bruner é filho de músicos e cresceu num caldo de cultura em que todos tocam instrumentos. Aos 15 anos entrou numa boys band, aos 16 fazia digressões no Japão, e depois entrou como baixista dos Suicidal Tendencies, banda de heavy metal de Los Angeles onde fica quase uma década. Erykah Badu inspirou-o a procurar o seu caminho próprio e o amigo Flying Lotus ajudou-o a lançar o primeiro disco a solo em 2011 (The Golden Age of Apocalypse). Como CV, não se pode dizer que é habitual.

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Thundercat no Paredes de Coura 2026 – Foto: Emanuel Canoilas

Vindo do festival de jazz de Newport no início deste mês e apresentando-se em modo power trio com Justin Brown na bateria e capacete de bola de espelhos a levantar logo comparações com os Daft Punk (ou o chapéu de coco brilhante de Grace Jones) e Dennis Hamm nos teclados. Um festival de velocidade e mestria no baixo de seis cordas com um Sonic dourado bem visível, referências a Tame Impala (colaboradores em “No More Lies” e no mais recente álbum lançado este ano, Distracted), e “Funny Thing” leva a multidão à alegria de quem sabe apreciar o esforço das coisas que dão trabalho a fazer e têm muitas influências a montante. Belo fecho.

E datas para 2027? A organização já anunciou: de 18 a 21 de agosto.

Bruno Rocha Ferreira
Bruno Rocha Ferreira
Apaixonado por vinhos e boa música, o Bruno Rocha Ferreira cobre eventos vinícos, concertos e festivais de música. Também gosta de stand up comedy de qualidade.
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