O Coura que só acontece aqui: Terraplana em shoegaze, Sérgio Godinho com quase 81 anos e uma noite com Bloc Party e a francesa Vendredi Sur Mer.
Desta vez foram os Terraplana, banda brasileira originária de Curitiba e que pela primeira vez se aventura na Europa, que tocaram na Vodafone Music Session do dia, no recinto da Festa em Honra de Nossa Senhora de Fátima e do Padroeiro São Pedro de Castanheira.
À sua volta juntaram-se não só festivaleiros escolhidos aleatoriamente para assistir à sessão, mas também habitantes locais de várias gerações, do balcão do bar aos miúdos a jogar à bola no terreiro, enquanto se ouvia um shoegaze e indie com os campos de milho em fundo. Somos suspeitos, mas tentando fazer uma reflexão com alguma profundidade a conclusão é sempre a mesma – só aqui.
Poucas horas mais tarde, pelas 18h40, chegou a grande homenagem a Sérgio de Barros Godinho. Oitenta primaveras bem celebradas (no final do mês serão oitenta e uma) com uma colina cheia de gente nova a querer celebrar uma das grandes carreiras da música portuguesa – receberam o memo e perceberam a missão, e vieram em massa. O portuense leão de ouro veio acompanhado pelos seus Assessores e desfilou convidados, desde a clássica Manuela Azevedo, passando pela inspirada Ana Lua Caiano (a imagem a tocar adufe ficará para a história), Samuel Úria, Capicua, Milhanas e Garota Não. Ao topo, um letreiro a letras vermelhas com simplesmente “Sérgio”.

Destaques? Muitos, desde “Cuidado com as Imitações” a levantar o coro do povo, à participação de Samuel Úria em “Maré Alta”, e claro a “Espectáculo” com Manuela Azevedo, colaboradora chave que parece desde sempre, desde o disco Afinidades lá longe em 2001 feito em colaboração com os Clã ao último concerto que vimos do Sérgio em 2019 no Coliseu dos Recreios. Depois, homenagem a Alexandre O’Neill, o grande poeta que disse a melhor frase de sempre sobre a população deste retângulo: “o sonho do português acaba na pastelaria”. Milhanas e A Garota Não duetaram na “Balada da Rita”, com Carolina a destacar-se bem – há aqui voz e sensibilidade para perceber o repertório dos outros.
Mais perto do fim, “Com um Brilhozinho nos Olhos” resulta inevitável, tal como “Liberdade” e o grito pela paz, o pão e a habitação, até chegar a “O Primeiro Dia” e as imagens entretanto divulgadas por muitos círculos além do estritamente musicais com o presidente da república António José Seguro em pano de fundo nas abas do palco, sem querer aparecer à frente de público e transformar o momento noutra coisa, mas as câmaras presentes em todo o lado não deixaram passar o momento. Desta vez, até se deve dizer “e bem”. Como todo este momento que vai durar na memória e perdurar na memória.

Mais tarde, e após Benjamin Clementine ter segundo as crónicas ouvidas mantido o seu romance com as termas da música em particular e com Portugal no geral (4º país no ranking de concertos do Setlist ex équo com Itália, só atrás dos Estados Unidos, Reino Unido e França!), os Bloc Party dão um concerto, sejamos sinceros, meio desenxabido. Não que Kele Okereke tenha ido mal, mas só aqueles clássicos de Silent Alarm repercutiram com um público que até foi simpático, mas com a sensação de mais por elegância que por entusiasmo.
Já Vendredi Sur Mer, que é como quem diz Charline Mignot, deu um concerto bem interessante no Coura sem Paredes, já após a meia-noite que permitiu assistir ao espetáculo da artista suíça em condições razoáveis para quem aparece depois do início. Um synth pop com charme francófono, sintetizadores oitenteiros com produção atmosférica – “histoires douces, mélancolie et sincérité”. Quase cinematográficos, há uma coerência total entre música e imagem que a torna única. A comparação comum com La Femme que também já por cá passou há uns anos a revelar-se lógica.
Num mês em que por Coura a segunda língua mais ouvida pelas aldeias é o francês, calha bem.
