A antiga fábrica de cortiça Mundet renasceu como o Upon Harbor, um hotel de quatro estrelas com vista para a Baía do Seixal e Lisboa.
O Upon Harbor abriu oficialmente na Baía do Seixal, no concelho de Setúbal, instalando-se no histórico complexo industrial da antiga fábrica de cortiça Mundet. Após um período de cerca de três meses em soft opening, iniciado a 13 de fevereiro, a nova unidade turística de quatro estrelas encontra-se em plena operação, marcando a conclusão da reconversão de um dos mais relevantes símbolos da industrialização da Margem Sul do Tejo.
O Upon Harbor resulta da reabilitação da unidade fabril fundada em 1905 e encerrada em 1988, uma estrutura que se tornou a maior exportadora mundial de cortiça durante a primeira metade do século XX. A partir do Seixal, a fábrica abastecia maioritariamente o mercado norte-americano, destino onde parte da família Mundet se fixou, mantendo ligações à unidade portuguesa. No seu período de maior atividade, o complexo empregava mais de 2.500 trabalhadores, predominantemente mulheres, destacando-se pela implementação de regalias sociais pioneiras à época, incluindo refeitório, creche e jardim de infância para os filhos dos operários. O espaço fabril, focado originalmente na produção industrial, deu assim lugar a uma infraestrutura de acolhimento e lazer situada a cerca de 20 minutos de Lisboa e a 16 minutos de travessia de ferry da capital.
A entrada em funcionamento do Upon Harbor consolida a estratégia de expansão hoteleira do grupo StayUpon Hotels & Resorts, reforçando a sua implantação no distrito de Setúbal. O grupo operava já na região desde 2017 através do Praia do Sal Resort, em Alcochete, ao qual juntou posteriormente o Upon Vila. Com esta nova abertura no Seixal, o grupo ultrapassa os 250 quartos em exploração na margem sul do Tejo. A trajetória de crescimento da empresa iniciou-se há cerca de uma década com o lançamento do Casas da Baixa, integrando igualmente no seu portefólio os ativos Upon Angels e Upon Lisbon, ambos localizados na área urbana de Lisboa.
A estrutura de financiamento associada ao Upon Harbor assinala uma alteração no perfil de captação de investimento do grupo em comparação com projetos anteriores. Enquanto em empreendimentos como o Upon Lisbon a percentagem de capital estrangeiro atingiu cerca de 80%, a nova propriedade no Seixal conta com uma participação de capital nacional estimada em 85%. O modelo atrai investidores privados portugueses e membros da comunidade emigrante com ligações familiares e históricas ao concelho do Seixal. Estruturado juridicamente como empreendimento turístico, o Upon Harbor possibilita a aquisição de apartamentos em regime de propriedade plena com integração obrigatória numa gestão hoteleira centralizada. A exploração diária, a manutenção contínua e a comercialização do programa de reservas estão a cargo da StayUpon, num formato que permite aos proprietários a utilização temporária das frações ao longo do ano em articulação com a afetação dos imóveis à atividade turística.
O ciclo global de desenvolvimento do Upon Harbor decorreu ao longo de um período de cinco a seis anos, abrangendo os estudos de impacte e conceção arquitetónica, a execução da fase de fundações e a edificação das estruturas. Ou seja, o calendário sofreu ajustamentos e interrupções temporárias motivadas pelo período da pandemia de COVID-19. O projeto de arquitetura tem a assinatura do arquiteto Tiago Palmela, do gabinete TIP, que concebeu uma reinterpretação contemporânea desenhada para salvaguardar o património edificado. A intervenção preservou os elementos estruturais e materiais da antiga corticeira, como a cortiça, o ferro, o vidro e a fachada industrial tardoz, promovendo a conversão de uma antiga zona de produção fora dos itinerários hoteleiros habituais num novo polo de atração turística e económica. A procura acolhida pelo hotel nesta fase de arranque é liderada maioritariamente pelo mercado interno, que representa cerca de 80% do volume total de reservas, sendo a percentagem restante preenchida por visitantes provenientes de mercados europeus de proximidade, designadamente Espanha, Reino Unido e Alemanha.
A gestão operacional do Upon Harbor está a cargo da diretora-geral Mónica Pereira, profissional com percurso acumulado noutros ativos do grupo, no âmbito de uma estrutura corporativa que contabiliza 170 colaboradores afetos à operação hoteleira e à prestação de serviços aos clientes. O Upon Harbor dispõe de 102 apartamentos distribuídos por 11 tipologias distintas, compreendidas entre o T0 e o T3. A oferta foi desenhada para responder a estadias de curta duração ou a permanências prolongadas, integrando políticas de aceitação de animais de companhia (pet friendly). O catálogo de alojamento inclui lofts e unidades duplex com pé-direito amplo, concebidos para potenciar a entrada de iluminação natural. Com o objetivo de otimizar a eficiência hoteleira e a manutenção, os apartamentos de tipologia T1 seguem uma linha concetual e mobiliária padronizada, enquanto os duplexes mantêm traços da arquitetura dos antigos blocos fabris, tirando partido dos vãos de janela orientados para a paisagem ribeirinha.
O desenho de interiores e o projeto das áreas comuns foram desenvolvidos pelo Atelier Catarina, cuja proposta combina o carácter robusto da edificação industrial com a utilização expressiva da cortiça em superfícies, mesas e sistemas de iluminação. Parte dos candeeiros foi produzida manualmente por artesãos locais a partir de secções das camadas exteriores da casca do sobreiro, num processo de seleção de matéria-prima no terreno. Já a memória quotidiana dos antigos operários é preservada através da exposição de acervo original recolhido nas instalações da fábrica e em feiras de antiguidades, do qual fazem parte máquinas de escrever, carimbos de madeira, relógios de ponto, máquinas de picar, mapas de férias, fotografias de época e ficheiros de papel com registos de pessoal do século XX.
Por sua vez, a vertente artística integra um programa de curadoria com obras de arte contemporânea da autoria do artista Ticiano Rottenstein, elaboradas a partir do reaproveitamento de materiais e refugos recolhidos nas antigas instalações, designadamente rolhas de cortiça e componentes metálicos de maquinaria desativada. Adicionalmente, a fachada exterior do edifício e diversas zonas de circulação interna exibem um mural de grandes dimensões executado pela artista Júlia Benetti. A composição pictórica retrata a figura do operário, os cravos, as folhas de cortiça e referências à atividade sindical e à luta histórica pelos direitos das mulheres no complexo industrial da Mundet.
A nível de restauração, a operação é assegurada pelo Ebulição, sob a liderança do chef Diogo Seixas – que estava à frente do Omaggio, restaurante do Praia do Sal Resort, e que abraça aqui um novo desafio do mesmo grupo -, que apresenta uma carta focada na cozinha portuguesa contemporânea. A denominação do restaurante inspira-se no processo industrial de fervura a que as pranchas de cortiça eram submetidas nas caldeiras da fábrica para tratamento do material. O restaurante encontra-se aberto ao público em geral e vale muito a pena, contando com propostas arrojadas como o Diz o Roto ao Nú (Ovos rotos de camarão), Marcha Que Nem Lulas (Lulas crocantes com salada de manga e cebola roxa e aioli de lima), Zé Polvinho (Tentáculo de polvo caramelizado em pão brioche, salada de chalota e ovo, maionese de anchova e pimento assado), À Grande e à Francesa (Francesinha de lagosta, Bife de alcatra, Lagosta, linguiça e salsicha fresca) ou o Até te Espumas (Pão de Ló com espuma de queijo de Azeitão).
Instalado junto à Baía do Seixal, uma zona classificada como Reserva Ecológica Nacional que se carateriza pelo seu valor ambiental e biodiversidade no estuário do Tejo, o Upon Harbor inclui no topo do edifício um rooftop composto por bar e piscina panorâmica de água salgada, oferecendo uma vista sobre o plano de água, a linha do horizonte de Lisboa e a Ponte 25 de Abril. Devem mesmo aproveitar durante a vossa estadia, sendo um serão extremamente agradável.
Como cereja no topo do bolo, a oferta de serviços do Upon Harbor inclui um programa de transporte e passeios fluviais em lancha privativa, viabilizado através de uma parceria com a empresa Sea View. O serviço assegura o transbordo direto de hóspedes e bagagens entre o Cais de Santo Amaro, na capital, e a frente ribeirinha do Seixal, promovendo igualmente a articulação turística com o circuito cultural dos vários núcleos do Ecomuseu Municipal do Seixal.
