Novas tendências nas viagens dos casais
Nos últimos anos, viajar sem parceiros tornou-se uma escolha cada vez mais comum entre casais do Ocidente. Esta tendência não é causada por crises conjugais, mas sim pelo desejo crescente por realização pessoal e independência. E reflete as mudanças nos valores sociais e a procura de um equilíbrio entre a vida a dois e os interesses individuais.
Em entrevistas publicadas na imprensa europeia e norte-americana, vários entrevistados explicam os motivos que os levam a preferir férias em separado. Um homem conta que, tendo alguns dias de folga enquanto a esposa não podia se ausentar, decidiu viajar com amigos para esquiar. Já uma mulher explica que, enquanto o marido prefere trilhos e montanhas, ela gosta da tranquilidade junto ao mar – assim, cada um reserva uma semana por ano para viajar com o respetivo grupo de amigos.
Entre autonomia e vida a dois
O New York Times abordou a questão num artigo publicado em maio, destacando como o tempo passado em separado pode beneficiar até relações sólidas. O jornal norte-americano refere que passar férias sem o parceiro não é necessariamente um sinal de afastamento afetivo, mas uma forma de descansar, dedicar tempo aos próprios interesses e fortalecer a relação no reencontro.
Ainda assim, esta tendência continua a dividir opiniões. Camille, consultora de 35 anos, não consegue imaginar-se a viajar sem o marido. Afirmando que, para ela, as férias são momentos de descoberta conjunta, de descanso e de reforçar a intimidade do casal: “Não é uma questão de tradição, só não vejo sentido em viajar sem o Jérôme!“, afirma.
Para algumas pessoas, passar férias em separado tem um significado ainda mais profundo, como é o caso de Yasmine, enfermeira e sobrevivente de cancro, que viaja todos os anos com amigas que passaram pelo mesmo processo de recuperação. Durante esse período, ela é capaz de encontrar um acolhimento e um descanso que raramente tem no dia a dia, onde é responsável pela organização das viagens da família. “Entre amigas, consigo finalmente descansar, sem a carga mental habitual“, relata.
Porque é que este conceito continua a gerar controvérsia?
Há quem veja nesta prática um risco para a solidez da relação. O padre François Potez, que se dedicava à preparação para o casamento, defendia no seu último livro que a ideia de viajar em separado é impensável para um casal, argumentando que estar juntos deve ser a prioridade, salvo em situações inevitáveis.
Especialistas em terapia de casal, como Adélaïde e Michel Sion, também consideram que esta prática deve ser adotada no momento certo, pois para eles, o início do casamento é uma fase crucial para fortalecer a relação. Viver experiências e criar memórias em conjunto é uma parte fundamental da construção de uma vida em comum.
Em sentido contrário, há quem defenda a importância de preservar interesses próprios mesmo numa relação, como indica Christelle, consultora parisiense, que acredita que cultivar passatempos e atividades em separado só enriquece a relação, desde que exista equilíbrio e tempo de qualidade em conjunto.
Os riscos de passar férias em separado
O debate também levanta questões sobre a possibilidade de períodos prolongados de separação física enfraquecerem a relação, uma preocupação partilhada tanto por perspetivas religiosas como por especialistas. Períodos de afastamento prolongado são frequentemente apontados como um fator de instabilidade, especialmente se não existir um diálogo aberto sobre preocupações e dificuldades.
Ainda assim, há exemplos históricos de casais que conseguiram manter uma relação sólida apesar da distância. Frédéric e Amélie Ozanam, separados por questões de saúde e trabalho no verão de 1842, trocaram cartas que testemunham uma relação suficientemente forte para superar a distância física. “A ausência pode nos separar, mas não nos desunir“, escreveu Frédéric à esposa.
O que revela esta tendência?
O crescimento das férias em separado entre casais reflete as transformações nas relações atuais. Esta tendência levanta a questão de saber até que ponto a autonomia pode coexistir com uma relação sólida e de que forma a individualidade pode coexistir com a construção de uma vida em comum. Entre tradições, expectativas e novas formas de viver a relação, os casais continuam à procura da melhor forma para equilibrar a realização pessoal com o projeto de vida em comum num equilíbrio que continua a evoluir de geração em geração.
