Organização de adeptos denuncia preços elevados, falta de transparência e decisões que afetaram a experiência no Mundial.
O encerramento do Campeonato do Mundo de 2026, assinalado no passado dia 19 de julho, motivou uma reação crítica por parte da Football Supporters Europe (FSE), que apela à responsabilização da FIFA e à implementação de reformas estruturais na governação do futebol internacional. A organização defende a devolução do poder de decisão aos órgãos formais, como o Conselho e o Congresso da FIFA, bem como a inclusão efetiva de clubes, ligas, jogadores e adeptos nos processos de consulta.
Segundo a FSE, a edição de 2026 deveria ter representado uma celebração do futebol e dos adeptos, mas acabou por evidenciar problemas estruturais profundos na forma como o desporto é atualmente gerido. Desde o início, os adeptos foram instados a confiar na organização, mas, na prática, a FIFA terá privilegiado o espetáculo e a componente comercial em detrimento da experiência nos estádios, alterando elementos considerados essenciais à identidade do jogo. Ao longo da competição, a entidade aponta uma crescente influência de decisões associadas à liderança de Gianni Infantino e ao contexto político nos Estados Unidos.
Entre as principais críticas está a política de bilhética, descrita como exploratória. Os preços atingiram níveis historicamente elevados, com sistemas de preços dinâmicos que, na prática, transformaram a compra de bilhetes num processo semelhante a um leilão. Para além disso, a existência de uma plataforma oficial de revenda sem restrições terá criado um mercado paralelo legitimado pela própria organização. A situação afetou também adeptos com deficiência, que não tiveram acesso a bilhetes de acompanhante gratuitos, enquanto os lugares adaptados foram adquiridos por intermediários e revendidos com lucro. A FSE considera que este grupo não foi devidamente tido em conta no planeamento do torneio, resultando num ambiente pouco inclusivo.
A estes fatores juntaram-se os custos elevados de transporte nas cidades anfitriãs, com operadores a aumentarem preços para quem se deslocava aos jogos, sem intervenção por parte da FIFA. Promessas iniciais de acessibilidade económica, tanto em bilhetes como em mobilidade, não se concretizaram durante a competição.
A ideia promovida de um “Mundial para todos” também é contestada. A FSE, em conjunto com parceiros da Sport and Rights Alliance, denuncia situações de exclusão e discriminação associadas às políticas de vistos dos Estados Unidos. Adeptos, jornalistas, dirigentes e familiares oriundos de vários países não conseguiram entrar no país durante o torneio. Adicionalmente, muitos adeptos LGBT+ optaram por não viajar, alegando falta de garantias quanto à sua segurança.
A nível da organização do torneio, a FSE identifica diversos episódios controversos. Entre eles, a atribuição de um alegado Prémio da Paz com conotação política, alterações às regras e ao formato do jogo, e interferência governamental em matérias desportivas. A introdução de pausas com fins publicitários disfarçadas de intervalos para hidratação, a substituição do tradicional intervalo de 15 minutos por um espetáculo musical, restrições impostas à seleção do Irão fora dos dias de jogo e o caso envolvendo Balogun são apontados como exemplos de decisões que fragilizaram a credibilidade da competição. No entender da organização, o impacto acumulado destas situações comprometeu seriamente a reputação da FIFA junto dos adeptos.
A leitura que a FSE faz deste torneio é clara: considera que a atual estrutura de governação não responde adequadamente às necessidades do futebol global, acusando a liderança de privilegiar interesses financeiros e políticos em detrimento do desenvolvimento sustentável do jogo.
Com o foco já direcionado para o Mundial de 2030, que será organizado por Espanha, Portugal, Marrocos, Argentina, Paraguai e Uruguai, a organização sublinha a necessidade de colocar os adeptos no centro do planeamento desde o início. No caso específico de Espanha e Portugal, são identificadas preocupações relacionadas com segurança, policiamento e qualidade dos serviços prestados nos estádios. Há relatos recorrentes de atuação policial considerada desproporcionada, uso de força excessiva, revistas intrusivas, falhas de comunicação e serviços inadequados ao público.
