Denshattack! Review: Ação ferroviária

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Denshattack! desliza para o PC e consolas como uma das premissas mais improváveis dos últimos ao levar stunts radicais, “drifts” e ação para uma linha ferroviária.

Quando experimentei a demo de Denshattack!, uma das primeiras coisas que me saltou a atenção, tanto para o bem como para o mal, foi a quantidade de influências que a Undercoders reuniu e injetou no seu mirabolante projeto. Porque enquanto referências, easter-eggs e piscar de olhos são giros para criar uma ligação familiar para com os jogadores, estes podem ser em demasia ao ponto de descaracterizar a identidade de um novo jogo. E o mesmo se aplica às mecânicas de jogabilidade e escolhas de design de jogo, pois quando se misturam demasiados ingredientes no mesmo tacho, o sabor fica demasiado intenso para o palato de todos. Para o bem ou para mal, Denshattack! faz um esforço notório em equilibrar isso tudo, com picos de frustrações, mas no geral com muita diversão.

Denshattack! é daqueles jogos que menos gosto de descrever, porque é impossível dizer o que ele é sem tecer ou referir outros jogos. E não por se tratar de um sinal de pouca originalidade, antes pelo contrário, porque com tudo o que mistura, Denshattack! é único. Para quem estiver fora do loop, Denshattack! é um jogo de “comboios radicais”, um jogo em que controlamos uma carruagem de comboio e fazemos truques. Para funcionar, este conceito tem que sair da jaula da realidade, entra no mundo anime e vai beber de uma série de experiências diferentes, como endless runners ao estilo de Subway Surfers, jogos de ritmo como Thumper, desvios de obstáculos como nas sequencias 3D de jogos Sonic modernos, e, claro, truques e combinações reminiscentes de Tony Hawk’s Pro Skater.

denshattack review echo boomer 2

É um jogo francamente complexo, apesar de em teoria parecer simples. É um jogo relativamente linear, que se passa “numa linha” de comboio, onde começamos em A e terminamos em B ou C. Tal como um comboio sem travões, Denshattack! arranca a toda a velocidade para nos familiarizar com as suas mecânicas. Uma vez fora dos níveis e tutoriais, atira-nos quase todo o tipo de obstáculos e objetivos que vão compondo e reaparecendo em níveis seguintes. Não se trata de um jogo cujo desafio e dificuldade vão aumentando progressivamente, mas sim de um jogo que nos incentiva a afinar os reflexos e habilidades constantemente.

Entre trocas de linhas, saltos por obstáculos, quedas controladas, drifts, escolhas de caminhos alternativos, recolha de colecionáveis e outros twists mecânicos que nos tiram das linhas, chegar ao fim de cada nível nem sempre é o suficiente, porque tal como nos jogos arcade em que se inspira, também as altas pontuações atingidas através de um extenso sistema de combos é algo a ter em atenção constante.

Por essas razões Denshattack! requer um nível de concentração particularmente elevado, por vezes mais do que destreza nas habilidades por si só. É um jogo que nos pede para estar constantemente com as antenas no ar, completamente locked in na ação, de forma a equilibrar os melhores combos com os objetivos de cada nível. Quando entramos nessa “zona”, é de uma satisfação brutal, onde quase tudo flui com cores, energia e uma banda sonora pulsante. Mas quando os erros começam a acumular, a experiência descarrila e a vontade de voltar à pista não é propriamente a melhor.

denshattack review echo boomer 3

A variedade de níveis é bastante extensa, com muitas localizações, várias surpresas, boss fights e um nível de personalização relativamente interessante, para podermos dar a nossa identidade às carruagens. No entanto dei por mim a cair no buraco negro do colecionismo, na repetição dos níveis para apanhar os vários colecionáveis, como as latas de tinta e cassetes, que obrigaram repetições e restarts pelas vezes em que falhava os caminhos específicos para os apanhar. Um aspeto que evoca a replayability do jogo, mas que para mim se tornou numa barreira para avançar na sua história. No geral posso dizer que apesar das suas virtudes e natureza divertida, Denshattack! não se tornou no vício ou no jogo que quero largar o trabalho para jogar, mas algo que volta e meia me lembro que existe e faço mais um nível. E apesar de não me ter convencido tanto como queria, já outras coisas que merecem elogios.

Também a direção de arte e estética vive de referências e influencias. E aqui é onde a originalidade se perde um pouco, apesar de conseguir ter uma identidade bem vincada. Passado num Japão futurista onde antigas linhas ferroviárias passaram a servir de palco para um estranho desporto de alta velocidade, Denshattack! adota, como seria de esperar, uma estética anime, acentuada pelo design de personagens, nos painéis narrativos e diálogos, juntamente com uma direção 3D reminiscente de jogos da era SEGA Dreamcast, com modelos low-poly, cores vibrantes e animações fluidas. Mas o grande destaque vai para a banda sonora de Tee Lopes, compositor da fama de jogos como Sonic Mania, TMNT: Shredder’s Revenge, que acompanha o ritmo acelerado da ação do início ao fim.

Caindo num cliché, Denshattack! dificilmente será um jogo para todos. Os controlos exigem um nível de foco elevado, a velocidade nem sempre dá margem para respirar e a aposta na repetição (ainda que opcional) pode afastar quem apenas procura terminar a campanha. No entanto, poucas vezes uma ideia tão absurda resulta tão bem, e a Undercoders conseguiu transformar uma carruagem de comboio numa das experiências peculiares e divertidas dos últimos tempos, sem nunca deixar que o seu conceito se sobreponha à jogabilidade. Neste momento, só tenho pena que a demo de Denshattack! tenha desaparecido da maioria das plataformas (está apenas disponível na Nintendo eShop), já que continua a ser a melhor forma de perceber se este é não o jogo certo para ocupar as tardes quentes deste verão.

Denshattack! tem lançamento no PC (Steam), PlayStation 5 e Nintendo Switch 2.

Cópia para análise (versão PC) cedida pela JF Games.

David Fialho
David Fialho
Licenciado em Comunicação e Multimédia, considero-me um apaixonado por tecnologias e novas formas de entretenimento. Sou editor de tecnologia e entretenimento no Echo Boomer, com um foco especial na área dos videojogos.
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