Alcochete: uma escapadinha completa entre cultura, natureza e bem-estar

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A evolução de Alcochete enquanto destino turístico inclui natureza, história e unidades hoteleiras como o Praia do Sal Resort.

Alcochete tem vindo a afirmar-se como um destino de curta duração nas imediações de Lisboa, beneficiando da proximidade à capital e de um contexto marcado pela relação histórica com o estuário do Tejo. A vila preserva um ambiente relativamente tranquilo, com uma identidade assente na tradição, na paisagem ribeirinha e num conjunto de referências patrimoniais e culturais que têm sustentado o aumento da procura turística nos últimos anos. Mas para conhecermos bem a sua história, é preciso recuar no tempo.

A ocupação humana em Alcochete remonta ao Paleolítico Médio (há cerca de 28.000 anos), com destaque para os achados de seixos talhados no sítio da Conceição. No Neolítico, há cerca de 7000 anos, comunidades agrícolas e recolectoras estabeleceram-se na Quinta da Praia (Samouco), deixando milhares de artefactos líticos perto das salinas. Durante a ocupação romana (séculos I a V d.C.), a região tornou-se um polo industrial com o complexo oleiro de Porto dos Cacos (Sítio de Interesse Público), especializado no fabrico de ânforas para exportar conservas de peixe pelo Império. Embora não haja provas arqueológicas da presença árabe, a herança sobrevive no topónimo “Alcochete”, que significa “o forno”.

Com a Reconquista Cristã, o território passou para a Ordem de Santiago (Riba Tejo). No século XIII, os povoados focavam-se no sal e no vinho, destacando-se o polo paroquial de Santa Maria de Sabonha (atual freguesia de São Francisco). A autonomia administrativa consolidou-se na primeira metade do século XV, sob o patrocínio do Infante D. João, elevando Alcochete a Vila, e o clima e a caça transformaram a terra na estância de repouso preferida da corte: ali nasceu, em 1469, o futuro rei D. Manuel I, que lhe concedeu foral em 1515. Já nos séculos XVI e XVII, a vila expandiu-se como entreposto de abastecimento de sal, lenha e carvão para Lisboa.

A estabilidade administrativa sofreu um revés em 1895, quando o município perdeu a autonomia para Aldeia Galega, recuperando-a após forte contestação popular a 15 de janeiro de 1898. A nível social e agrícola, destacaram-se as ações filantrópicas do 3.º Barão de Samora Correia e as experiências de fomento agrário de Jácome Ratton (século XVIII) e José Maria dos Santos (século XIX).

A transição para a modernidade trouxe o declínio das rotas fluviais tradicionais, mas a economia reinventou-se: primeiro com a indústria da seca do bacalhau (tornando-se o maior centro do país) e, a partir de 1958, com a industrialização (fábrica de pneus Firestone, cortiça e alumínio). Hoje, a Ponte Vasco da Gama integra o concelho nos principais eixos de investimento de Lisboa.

Atualmente, a região de Alcochete concentra um conjunto de atividades de cariz natural, cultural e náutico, fortemente associadas à sua localização geográfica na margem do Estuário do Tejo. O património natural e a identidade cultural continuam ligados à geografia do território. A Reserva Natural do Estuário do Tejo estende-se até Vila Franca de Xira e constitui a zona húmida mais importante de Portugal. O estatuto de conservação decorre do acolhimento de mais de 120.000 aves aquáticas nos períodos migratórios e de inverno, servindo de abrigo a cerca de 75% da população europeia invernante de alfaiates (Recurvirostra avoseta), além de fixar uma comunidade permanente de flamingos.

A exploração pedestre da fauna e da flora locais é viabilizada por uma rede estruturada de trilhos e percursos que circundam a área protegida. Estes caminhos ligam diferentes pontos de observação e cobrem zonas de sapal e salgueirais, expondo as variações sazonais da vegetação ribeirinha e permitindo a visualização direta do ecossistema estuarino a partir de locais estratégicos predefinidos. É também de ressalvar que a zona de lezírias inserida na reserva é aproveitada para a criação de toiros e cavalos destinados à lide tauromáquica.

Já a vertente náutica e a memória da navegação fluvial no Tejo são asseguradas pelo Bote Leão, uma embarcação tradicional recuperada e gerida pela Câmara Municipal de Alcochete. Este barco opera rotas fluviais regulares na época compreendida entre os meses de maio e outubro, incluindo o mês de agosto, permitindo a observação da linha de costa, sapais, salinas e margens a partir do leito do rio.

A atividade económica tradicional está de igual forma representada nas Salinas do Samouco, um complexo salineiro que mantém operacional a extração artesanal de sal baseada em métodos históricos de evaporação da água do estuário. Para além da componente produtiva conduzida pelos salineiros, as bacias de água destas salinas funcionam como zonas de alimentação e refúgio permanente para a avifauna local, registando-se a presença frequente de flamingos e garças-brancas ao longo de todo o ano.

Quanto à prática de desportos aquáticos, encontra-se centralizada na Praia dos Moinhos, uma zona costeira do estuário que reúne condições físicas e de vento para modalidades específicas como o paddle surf (stand-up paddle), o windsurf e o kayak, permitindo a navegação recreativa e desportiva com visibilidade direcionada para a linha de horizonte da cidade de Lisboa.

E claro, há também que referir a oferta do setor equestre, dividida por duas estruturas principais. No Picadeiro Quinta da Horta, o foco operacional centra-se nas aulas de iniciação à equitação destinadas a novos praticantes. Por sua vez, o Pátio do Tejo direciona a sua atividade para a realização de passeios a cavalo programados, cujo itinerário principal se desenvolve ao longo da Praia do Rosário, ligando a vertente equestre às margens do rio Tejo.

Quanto à tradição tauromáquica, com a qual nem todos concordam, assume relevância na matriz cultural de Alcochete. A prática da arte de pegar toiros é mantida localmente pelo Grupo de Forcados Amadores do Aposento do Barrete Verde e pelo Grupo de Forcados Amadores de Alcochete, perpetuando uma tradição com perto de dois séculos. Face a este enquadramento histórico e social, a Tauromaquia foi declarada Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal em 2012.

A nível de eventos, celebrações e festividades, as comemorações do ano arrancam a 15 de janeiro com as comemorações da Restauração do Concelho, marcadas por uma sessão solene, desfiles filarmónicos e a entrega de medalhas municipais em parceria com a Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898. Entre novembro e março, o foco vira-se para a natureza com o pico da rota migratória dos flamingos, atraindo observadores às margens do estuário. Logo a seguir, no período da Páscoa (entre março e abril), realiza-se o secular Círio dos Marítimos, uma festa com mais de 500 anos que enche as ruas com desfiles de mulheres montadas em burros, o som do grupo “Chininá” e o tradicional leilão de fogaças e bandeiras na Atalaia. Na transição para a primavera, as comemorações cívicas do 25 de Abril e do 1.º de Maio mobilizam a comunidade com torneios desportivos, atividades infantis e exposições.

O mês de junho traz as Festas em Honra de São João Batista (feriado municipal a 24 de junho), caracterizadas por procissões, bênção de barcos no rio e fogueiras aromáticas na noite de dia 23. Por esta altura, as escolas locais organizam a Feira Quinhentista, recriando com rigor a época de D. Manuel I através de trajes, ofícios e teatro de rua. No final de junho ou início de julho, a Praia dos Moinhos acolhe o espetacular Festival Internacional de Papagaios (FIPA), que atrai equipas e estruturas gigantes de todo o mundo, sendo antecedido pelo festival escolar FEPA.

No início do verão, as Festas de Confraternização Camponesa de São Francisco celebram as tradições rurais com folclore, gastronomia e largadas de touros. Na segunda quinzena de julho, o calendário duplica-se: o Samouco enche-se de música, fado e pirotecnia nas Festas de Nossa Senhora do Carmo, enquanto o núcleo antigo de Alcochete recebe o festival de artes de rua “Julho + Quente” e a animada Noite Branca no último sábado do mês. Por fim, o segundo fim de semana de agosto é dedicado às grandiosas Festas do Barrete Verde e das Salinas, que homenageiam os campinos, forcados e salineiros com largadas de touros, a Noite da Sardinha Assada e a icónica procissão por terra e mar no Tejo.

Mas há um aspeto sobre o qual ainda não falei: a oferta de alojamento. E entre os projetos mais recentes encontram-se duas unidades geridas pelo grupo StayUpon: o Upon Vila e o Praia do Sal Resort. No primeiro caso, trata-se de um hotel de quatro estrelas construído de raiz no local onde existia o antigo Hotel Alfoz, contando com um total de 89 quartos.

Já o Praia do Sal Resort, onde ficámos alojados recentemente, abriu em janeiro de 2020 na área do Estuário do Tejo e em terrenos onde existiu um antigo estaleiro associado à seca do bacalhau. Desde então, passou a captar um público mais amplo, incluindo hóspedes da região, visitantes em escapadas curtas e também estadias de maior duração, algumas delas de vários dias ou mesmo de uma semana.

O empreendimento, localizado a cerca de 20 minutos de Lisboa, foi desenvolvido em duas fases e organiza-se em 11 edifícios. Um deles concentra a receção, parte do alojamento, o spa e o restaurante Omaggio, enquanto os restantes dez blocos são destinados a alojamento. No fundo, trata-se de um projeto de hospitalidade integrada, conceito que se observa tanto na organização dos espaços como na forma como articula alojamento, spa, restaurante e áreas exteriores.

A oferta de alojamento abrange tipologias que vão do T0 ao T4 e funciona num modelo misto, combinando unidades em exploração turística com outras pertencentes a proprietários privados. No total, o resort tem 164 apartamentos, embora cerca de 90 estejam em exploração de forma contínua.

As unidades seguem uma linguagem contemporânea e funcional, contando com camas de dimensão king size – muitas almofadas e roupa de cama de algodão! -, kitchenette e zona de trabalho, além de varanda em vários casos, o que faz prolongar a estadia para fora do quarto, reforçando a relação com a vila e com o rio, tornando-se uma parte importante da experiência sobretudo pela amplitude visual e pela ligação direta à paisagem.

A designação Praia do Sal relaciona-se tanto com essa memória histórica como com a sua localização na Praia dos Moinhos. Aliás, a própria identidade do espaço remete para a envolvente natural e para a tradição local ligada ao sal e ao rio. Um dos elementos mais distintivos da unidade é a piscina “infinita” exterior orientada para o Tejo. A piscina tem tratamento salino, o que significa que a água apresenta características semelhantes às da água do mar, e o acesso é feito de forma progressiva, sem escadas, numa entrada suave e contínua.

Também o SPA é uma das áreas centrais do Praia do Sal Resort. A aposta passa não apenas pelos espaços físicos, mas também pela formação das terapeutas, pela qualidade dos protocolos aplicados e pela seleção dos produtos utilizados. A unidade investiu na construção de uma oferta de bem-estar que combina tratamentos, rituais e um circuito de águas, com o objetivo de criar uma experiência completa para o hóspede. A piscina interior aquecida – cerca de 28º -, o jacuzzi, a sauna e o banho turco integram essa lógica de utilização do spa como prolongamento da estadia, sobretudo em períodos em que o exterior não convida tanto ao uso da piscina ao ar livre.

A experiência no SPA inclui tratamentos que combinam massagem, calor e uso de produtos específicos, como os da marca Cinq Mondes. O foco está na descompressão e no relaxamento, com uma sequência de procedimentos que tenta reduzir o ritmo da estadia e criar uma sensação de pausa. A utilização da água, do calor e da massagem surge como núcleo desse percurso, numa abordagem em que o bem-estar é construído através da repetição de rituais e da criação de condições sensoriais favoráveis.

E claro, não podíamos terminar sem mencionar o magnífico restaurante do hotel, o Omaggio, que segue uma linha de cozinha italiana e funciona como espaço de restauração associado ao resort, mas também aberto a outros clientes. A proposta assenta nas bases clássicas da gastronomia italiana, com massas frescas feitas na casa, molhos preparados internamente e recurso a forno a lenha para as pizzas de inspiração napolitana. Ao mesmo tempo, o restaurante integra produtos da região, como a salicórnia e as amêijoas, numa tentativa de aproximar a cozinha italiana do contexto local.

O Omaggio tem ainda uma dimensão de restauração mais dinâmica, com música ao vivo em determinados momentos, o que faz com que o espaço tenha procura não apenas de hóspedes, mas também de pessoas que se deslocam até Alcochete especificamente para jantar. É, de facto, um restaurante com vocação para grupos e convívios, e recomenda-se, porque efetivamente tivemos por lá uma belíssima refeição. Ah, é também importante referir que o pequeno-almoço é servido precisamente no Omaggio.

No final de tudo, o Praia do Sal Resort apresenta-se como um projeto turístico com forte dependência da sua localização e da paisagem em que se insere, até porque a relação com o Tejo, com as salinas e com a história local é central na forma como a unidade se posiciona. Procura funcionar como espaço de estadia, de restauração e de bem-estar num território marcado por condicionantes ambientais e por uma identidade própria, e a verdade é que fá-lo com distinção.

Alexandre Lopes
Alexandre Lopes
Licenciado em Comunicação Social e Educação Multimédia no Instituto Politécnico de Leiria, sou um dos fundadores do Echo Boomer. Aficcionado por novas tecnologias, amante de boa gastronomia - e de viagens inesquecíveis! - e apaixonado pelo mundo da música.
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