O Steam Controller é mais um dos pilares do plano da Valve para trazer a experiência da Steam Deck para a secretária, com um comando completo, personalizável, mas com um “problema” quase fatal.
Sempre achei que a Steam Deck era muito mais do que uma consola portátil. E nem é, sequer, uma opinião. A própria Valve chama-lhe um PC para jogos, capaz de alternar entre um modo de consola e um ambiente de trabalho familiar, completo para quem quiser dar-lhe uma utilização mais versátil. Para conseguir isso, a Valve não se limitou apenas a oferecer “modos”. O próprio design, a ergonomia e as funções de utilização obrigaram a Valve a estudar novos métodos de input, como é o caso dos seus extraordinários trackpads. Por isso, lançou-se a questão: com uma solução tão bem desenhada e conseguida na Steam Deck, porque não adaptá-la a um comando? Quiçá, um companheiro para a sua recém-lançada Steam Machine? E assim nasceu o Steam Controller.
O novo Steam Controller – que na verdade é a segunda geração do comando da Valve – pode ser descrito quase como uma Steam Deck sem ecrã e sem computador ou, simplesmente, o comando da Steam Deck isolado. Desde a disposição dos controlos e dos botões, passando pela ergonomia e pela linguagem de design, é quase como se o ecrã da Steam Deck tivesse desaparecido e ambos os lados se tivessem juntado, com pequenos ajustes, é claro. Esses ajustes são tanto visuais como ergonómicos. Os botões Steam e Quick Menu passaram das zonas inferiores para o centro, os analógicos baixaram um pouco face aos botões e ao D-Pad, os botões traseiros ganharam uma nova forma e um posicionamento mais satisfatório e os trackpads apresentam-se com um ligeiro ângulo, alinhado com as pegas do comando. Todas estas alterações mantêm o comando com uma dimensão significativa, um pouco maior do que os concorrentes da PlayStation e da XBOX, mas com uma sensação de manuseamento extraordinariamente confortável. Caso para dizer que assenta muito bem nas mãos.
Apesar do excelente tato, é interessante ver como as opiniões se dividem no que toca à categoria do produto. E acho que percebo porquê. É premium e, ao mesmo tempo, não parece ser. Os materiais usados são semelhantes aos da Steam Deck, mas talvez um pouco mais ásperos ao toque. Há uma sensação constante de plástico e outra de que, por dentro, é algo vazio. Em contraste, a sua construção é sólida, não há chocalhos e tem um peso que, apesar de reduzido, lhe confere uma agradável sensação de robustez.

A experiência de utilização do Steam Controller em relação à Steam Deck é, novamente, algo muito familiar, mas sente-se uma ligeira evolução e um maior cuidado tanto na construção como nas características. O grande destaque vai para os analógicos magnéticos com tecnologia TMR, que conferem uma maior sensação de resposta e são mais duradouros, sem risco de stick drift. A suavidade de utilização faz-se sentir particularmente bem em FPS e jogos de corrida. Ainda assim, não estão livres de calibrações e ajustes adicionais. Mas, por defeito, funcionam divinalmente. Outro aspeto bastante interessante é a vibração de alta definição, com um ótimo feedback háptico. Não chega ao nível do DualSense, tão pouco tem suporte para o sistema de vibração dos seus gatilhos adaptativos ou dos motores de impulso dos comandos XBOX. No fundo, é um meio-termo, com uma experiência muito mais semelhante à existente no Pro Controller da Nintendo. Por fim, temos o suporte para movimentos através do giroscópio, por defeito ativo através do toque capacitivo nos punhos, algo que na Steam Deck estava limitado à face dos analógicos.
Para quem ainda não conhece a experiência Valve, para mim os grandes heróis do comando são mesmo os trackpads, que multiplicam as possibilidades de utilização. Na Steam Deck surgiram, em parte, para responder à necessidade de jogar títulos tradicionalmente pensados para teclado e rato através de um comando, como jogos de estratégia. E, em grande medida, resultou. Agora, num PC mais convencional, o uso dos trackpads para navegar em menus ou utilizar o ambiente de trabalho é simplesmente maravilhoso, natural e intuitivo. O trackpad da direita controla o rato e o da esquerda pode ser usado como wheel para scroll. Por defeito, funcionam até como um rato de esfera, com uma incrível precisão, embalo e feedback tátil, mas tudo pode ser alterado, modificado e editado de forma intuitiva. E, recuperando novamente funcionalidades da Steam Deck, com a aplicação Steam aberta em segundo plano, é possível ativar um teclado virtual muito intuitivo de utilizar, substituindo quase por completo o teclado e o rato. Esta utilização é particularmente útil para um PC de sala, como a Steam Machine. No meu caso, passo boa parte do tempo a fazer streaming da minha torre para um Apple TV 4K através do Moonlight e a experiência é praticamente idêntica à solução original da Valve.
Por 99€, espera-se que o Steam Controller seja um comando verdadeiramente Pro e, por esse preço, faz justiça, especialmente quando comparado com o XBOX Elite, o DualSense Edge ou o SCUF Omega, soluções que facilmente ultrapassam os 150€ ou 200€. Para além de todos estes extras, há ainda os botões traseiros, mas, para mim, é na personalização completa, nas afinações e na componente da comunidade que o Steam Controller realmente ganha pontos.

Quando o DualSense Edge me chegou às mãos, apesar de adorar o comando e de ser o meu comando principal para a PlayStation 5, lembro-me de ficar frustrado com o facto de, apesar de permitir muita personalização, este ser um processo muito individual, que nas mãos dos utilizadores menos aventureiros acabaria por ser demasiado complexo. Na altura até comparei essa experiência com as possibilidades oferecidas pela Steam Deck, onde, para além das edições pessoais, tínhamos acesso a uma biblioteca de perfis de jogo ajustados por outros utilizadores e, por vezes, pelos próprios programadores. Ajustes que vão desde alterações de comandos à ativação de sensores e afinações muito específicas. Felizmente, o Steam Controller chega com este suporte completo e, porque a sua natureza é tão semelhante à da Steam Deck, a mesma biblioteca de perfis está imediatamente disponível para usar, editar e partilhar. É tão fantástico que me incentivou a rejogar vários títulos só para perceber como o Steam Controller se comportava em diferentes géneros.
Outro aspeto que diferencia o Steam Controller da restante concorrência é a sua incrível bateria, que promete 90 horas de utilização. Noventa horas equivalem a pouco mais de três dias e meio de utilização ininterrupta ou, se preferirem, cerca de dez vezes a autonomia de um DualSense. Literalmente. Na prática, isso significou que deixei simplesmente de pensar em carregamentos e em vez de ligar o comando todos os dias, ou de dois em dois dias, deparei-me com uma bateria que durou confortavelmente mais de 20 dias antes do primeiro carregamento – após o tirar da caixa. Uma longevidade particularmente impressionante, considerando a quantidade de sensores presentes no comando.
E, por falar em carregamento, convém mencionar o pequeno puck de ligação. Uma espécie de dongle ligado por USB-C que permite uma ligação sem fios de latência praticamente nula. Este é magnético e serve simultaneamente de base para carregar o Steam Controller ou utilizá-lo com cabo, evitando ligações diretas à porta USB-C do comando.

Mencionei no início um problema fatal. Dramático, eu sei, mas é um pequeno (grande) nitpick que me impede, literalmente, de utilizar o comando em determinados cenários. O Steam Controller não suporta XInput, limitando significativamente a sua utilização fora do ecossistema Steam. O caso mais grave diz respeito aos jogos do PC Game Pass, ou seja, da Microsoft Store, que simplesmente não respondem corretamente ao comando, num cenário semelhante ao do DualSense. O culpado? Provavelmente tanto a Microsoft como a Valve, por ainda não terem encontrado um meio-termo. Existem ferramentas que permitem emular o Steam Controller nesses ambientes, mas a sua utilização está longe de ser user friendly e nem sempre funciona em todos os jogos. Acabo, por isso, por recorrer ao comando XBOX sempre que jogo algo instalado através da aplicação XBOX.
Tirando este último apontamento, o Steam Controller pode muito bem ser o meu comando favorito da atual geração, reunindo algumas das melhores tecnologias disponíveis e um nível de versatilidade na personalização praticamente imbatível. Os 99€ continuam a ser difíceis de justificar, especialmente quando o comando XBOX tradicional continua a apresentar-se como a solução mais compatível dentro do ecossistema Windows, Linux e SteamOS. Ainda assim, para quem gosta de explorar, experimentar e tem uma boa relação com a Steam é, muito provavelmente, a melhor forma de jogar no PC.

