Com uma garrafeira exclusiva e matérias-primas de excelência, o restaurante Authentic afirma-se na Quinta do Lago como o refúgio ideal para quem procura gastronomia de conforto com rigor internacional.
O Algarve, mais especificamente a zona da Quinta do Lago, conta, desde junho de 2024, com mais um integrante no setor da restauração de luxo. Falamos do Authentic, que passou a integrar pela primeira vez este ano a lista de estabelecimentos recomendados pelo Guia Michelin.
A distinção incide sobre o trabalho desenvolvido pelo chef Ricardo Luz e sobre a consistência da proposta gastronómica apresentada pelo espaço, assente numa abordagem contemporânea à cozinha portuguesa. E nós, claro, tivemos de ir conhecer.
Tudo foi idealizado por Miguel Sequeira, empresário ligado à construção civil que canalizou um investimento superior a cinco milhões de euros para erguer o espaço, naquele que foi um projeto de cariz profundamente pessoal. Ao fim de dois anos de atividade, o balanço traduz-se na afirmação de um conceito focado na “comida de conforto” e na já mencionada inclusão do estabelecimento nas recomendações do prestigiado Guia Michelin, um percurso que superou as expectativas iniciais do proprietário e gerou um impacto mediático com o qual não contava.
A génese do Authentic prende-se com o percurso de Miguel Sequeira, cuja ligação à restauração remonta à juventude, período em que começou a trabalhar no setor no Algarve. Mais tarde, expandiu a atividade com a abertura de espaços próprios na região algarvia e também no Brasil, antes de se focar no ramo da construção civil, onde consolidou a sua principal fonte de rendimento. A decisão de regressar ao setor gastronómico foi motivada pelo desejo de apresentar um conceito diferenciado, assumindo o restaurante como um passatempo pessoal. A infraestrutura foi erguida a partir de uma ruína que outrora albergava uma quinta de laranjeiras, tendo a edificação sido integralmente executada pela empresa de construção do proprietário, sem recurso a terceiros.
O desenvolvimento do Authentic estendeu-se por um período de cinco anos. Destes, dois anos e meio foram consumidos pelos trâmites burocráticos necessários à obtenção das licenças de construção. No que respeita ao design de interiores, Miguel contratou um decorador, contudo, a seleção estética final foi da sua inteira responsabilidade, tendo viajado para cidades como Londres, Paris e Madrid para adquirir peças e buscar inspiração na hotelaria clássica, com particular foco no Hotel Ritz. O ambiente do Authentic reflete essa matriz, integrando peças decorativas e mobiliário de marcas como Versace, Dolce & Gabbana e Roberto Cavalli. O nível de detalhe estendeu-se às casas de banho, revestidas com materiais da Versace e equipadas com sanitários da Armani, cuja importação a partir de Itália exigiu um processo de negociação com a Roca que demorou cerca de oito meses a concretizar-se.
A opção por estas insígnias de luxo decorreu do gosto pessoal do empresário por combinações de preto e dourado, com o intuito de conferir ao espaço uma identidade singular. E ainda antes da abertura oficial das portas, o empresário foi alvo de uma proposta de aquisição – “ofereceram-me 15 milhões de euros”, disse – que visava a entrega imediata da chave do estabelecimento, a qual recusou por pretender ver o projeto em funcionamento. Miguel nota, contudo, que o valor de mercado atual do espaço já supera amplamente o investimento realizado, permanecendo a alienação como um cenário apenas equacionável perante uma proposta excecional.
A liderança da cozinha foi entregue ao chef Ricardo Luz, recrutado após indicações coincidentes de nomes conceituados do panorama gastronómico, e que aceitou o convite sob a condição expressa de que o restaurante não seria estruturado em função da ambição de obter uma estrela Michelin.
O menu, esse, embora delineado com total autonomia técnica pelo chefe no espaço da cozinha, segue a diretriz de disponibilizar pratos estruturados e de matriz tradicional. Ou seja, aqui não há menus de degustação fixos, mas sim propostas culinárias de conforto e partilha.
A carta do Authentic é estruturada com um foco claro na matéria-prima e na reinterpretação de clássicos da gastronomia. À mesa, a equipa de sala destacou-nos logo o Brioche de focaccia, servido como uma das opções de pão. O alinhamento de entradas e acompanhamentos da casa inclui ainda a Focaccia de alecrim, o Pastel de bacalhau – servido com um molho de tártaro que acompanha a preferência do cliente -, os Croquetes De Bochecha De Porco Com Maionese De Mostarda Antiga Trufada E Chalota Frita e um fabuloso Tártaro de Atum Servido com Maracujá, Cebolinho e Cebolinhas em Pickel.
A abordagem aos pratos principais reflete a filosofia de conforto definida para o projeto, com especial destaque para a secção de peixes e mariscos. Por exemplo, o topo das opções é ocupado pelo Lavagante Azul Da Nossa Costa Algarvia, além do Arroz De Ervas Finas de Bivalves com Peixe Corado e a Cataplana Authentic.
No segmento das carnes, o Beef Wellington Clássico com Purê De Batata Trufado e Jus Mourilles – é realmente um regalo para os olhos… e para o estômago – assume o papel principal, sendo uma das especialidades mais complexas do menu, motivando uma avaliação comparativa por parte do proprietário face a versões executadas em Londres por Gordon Ramsay. Miguel Sequeira defende a superioridade da confeção apresentada no seu espaço com base no rigor na seleção do bife e no tempo de maturação e confeção empregues na cozinha do Authentic – demora aproximadamente 45 minutos a chegar à mesa.
Já na secção de sobremesas, o Crepe Suzette é muitas vezes a escolha para encerrar a refeição com uma componente cénica, sendo finalizado diretamente junto à mesa dos clientes com a utilização exclusiva de licores e ingredientes originais. À nossa mesa, porém, enquanto víamos um elemento do staff a finalizar esse mesmo Crepe Suzette à frente dos clientes, chegaram-nos propostas como o Créme Brullée de Baunilha de Madagascar, conhecida pelas suas nuances doces, ricas e levemente picantes; o Cheesecake de Caramelo Salgado, com uma apresentação que nunca vimos até então, surgindo em formato de um pilar grego; e o Chocolate 24K que, como o nome indica, se apresenta como uma barra de ouro… com um delicioso gelado de pistachio a acompanhar. É daquelas sobremesas que até “custa” comer, mas a verdade é que o estômago agradeceu. E muito.
Há também que falar na composição da garrafeira, com referências que começam nos 30€ e vão até aos 40.000€, onde se incluem vinhos de prestígio como o Barca Velha e edições selecionadas de Petrus e Romanée-Conti. A coleção de bebidas espirituosas integra raridades como o Cognac Remy Martin LOUIS XIII e uma garrafa de coleção da destilaria Macallan, desenvolvida em parceria com a marca automóvel Bentley, cujo custo de aquisição se fixou em 52.000€. A inclusão destas peças exclusivas na carta é justificada por Miguel como uma ferramenta de posicionamento internacional, assegurando que o espaço se mune de referências comparáveis às dos mercados mais competitivos do mundo, como o Dubai.
O perfil dos clientes que frequentam o espaço divide-se maioritariamente entre cidadãos de nacionalidade portuguesa e britânica, registando-se uma fidelização crescente da comunidade residente na Quinta do Lago. Esta estabilização do público local é atribuída ao reconhecimento da qualidade do produto e do serviço face ao valor cobrado. A nível de pessoal, o Authentic não sentiu os constrangimentos de recrutamento que afetam o setor na região, circunstância que Miguel imputa à política laboral implementada: o restaurante opera apenas ao jantar, garante duas folgas semanais fixas, disponibiliza remunerações competitivas, assegura períodos de férias regulares e oferece alojamento aos colaboradores, beneficiando do património imobiliário que o proprietário detém via construção civil.
A nível operacional diário, o funcionamento do Authentic é condicionado pela cadeia de abastecimento de peixe fresco e pelo impacto dos custos de exploração, com destaque para a flutuação do preço dos combustíveis. A gerência recusa o uso de peixe de aquacultura, optando em exclusivo por produto selvagem proveniente do mar, o que determina uma gestão rigorosa para assegurar a textura e frescura exigidas – o chef Ricardo Luz tem mesmo “carta verde” para comprar a melhor matéria-prima e ingredientes que encontrar.
Portanto, e com uma proposta gastronómica assente na seleção criteriosa de ingredientes, com origem maioritariamente nacional – adquiridos em mercados locais ou provenientes de hortas próprias, garantindo frescura diária – e com uma cozinha aberta, permitindo aos clientes observar o processo de confeção – foi refrescante ver o quão fluida era a operação, num ambiente de quase total silêncio vindo de lá -, o Authentic distingue-se não só por uma identidade visual marcada por elementos associados ao luxo contemporâneo, mas também com uma carta cuja abordagem adotada assenta na reinterpretação de receitas conhecidas, introduzindo variações que procuram surpreender sem afastar-se das bases tradicionais.
E tendo isto em conta, era impossível o sucesso não estar garantido.
