O XXL tem demonstrado uma grande capacidade de contrariar a sazonalidade que historicamente afeta o turismo e a restauração no Algarve.
A gastronomia portuguesa vive um momento de efervescência, onde a reinterpretação de clássicos e a valorização da identidade local ditam as regras do sucesso. Um desses casos é o XXL, sediado no Wyndham Grand Algarve – que no passado operou sob a designação de Dourado, uma fórmula que não prosperou. O ponto de viragem assentou numa estratégia clara: apostar numa marca sólida, de créditos firmados, trazendo para o sul do país o conceito do icónico XL, uma referência outrora firmada em Lisboa, célebre pelos seus suflés.
A história do XXL tem origem no antigo XL, restaurante inaugurado em 1994 por Vasco Gallego, em Lisboa, mesmo em frente à Assembleia da República. Desde cedo, o espaço ficou associado a uma clientela restrita e mediática, incluindo figuras da política, das artes e do desporto. Ao longo dos anos, ganhou notoriedade pela sua cozinha e, em particular, pelos suflés, tornando-se uma referência rara na cidade para este tipo de prato.
Em 2021, após um período de forte impacto provocado pela pandemia, o XL acabou por encerrar. Pouco tempo depois, o espaço foi adquirido pelo empresário da restauração Olivier da Costa, que já manifestava interesse em assumir o projeto. A reabertura surgiu com uma nova identidade, sob o nome XXL, mantendo parte do conceito original, mas com alterações ao nível da imagem e da proposta gastronómica. A mudança de designação refletiu essa transição, funcionando como uma continuidade reinterpretada do restaurante anterior.
Desde então, o conceito foi sendo desenvolvido e expandido para outras regiões do país. Além de Lisboa, o XXL passou a estar presente no Porto, com abertura no final de 2024, e no Algarve, onde iniciou atividade durante o verão de 2023. Foi precisamente esta última unidade, integrada no Wyndham Grand Algarve, que revisitámos recentemente.
A presença do XXL no Algarve insere-se na estratégia do grupo de reforçar a sua operação na região, após a introdução de outros conceitos. A escolha teve em conta tanto a procura turística internacional, frequentemente interessada em interpretações contemporâneas da cozinha portuguesa, como a afluência sazonal de público nacional. O resultado traduz-se num espaço que replica, em grande medida, a base da carta de Lisboa, com ligeiros ajustes.
A proposta mantém-se próxima de um bistrô contemporâneo, focado em pratos tradicionais portugueses reinterpretados. A abordagem privilegia receitas reconhecíveis, apresentadas com combinações de sabores mais trabalhadas, mas sem afastar a base clássica. Ou seja, a dinâmica do menu foi desenhada para que os clientes, idealmente em grupos, possam partilhar entradas e saborear uma viagem gastronómica que tem como base inamovível a cozinha tradicional portuguesa, ainda que enriquecida com um toque contemporâneo. Portanto, e apesar de incluir influências e referências colhidas noutras paragens, a matriz identitária permanece profundamente lusa.
As novidades na carta são evidentes, a começar pelas entradas, onde se destaca o Carpaccio de salmão fumado, uma proposta fresca que promete conquistar os paladares mais exigentes. A par desta novidade, a Terrine de foie gras mantém-se como uma opção de eleição, gerando a habitual divisão de opiniões que caracteriza esta iguaria – ou se adora, ou se detesta -, mas afirmando-se pelo seu sabor equilibrado e textura suave, longe de intensidades excessivas. O couvert, que antes se centrava exclusivamente no pão, foi enriquecido com um suplemento de pasta de atum e uma aplaudida manteiga trufada.
Para melhorar o que já estava ótimo, são depois servidos os ex-libris da casa: o icónico Bife XXL com molho Olivier, à base de natas e demi-glace; a Picanha Wagyu – com uma textura macia e um elevado nível de marmoreio, contribuindo para uma sensação mais untuosa – acompanhada de linguini trufado, uma combinação que funde na perfeição dois elementos de topo; e a Picanha de Tamboril, naquela que é uma interpretação menos comum deste peixe, apresentado em fatias e servido com molho beurre blanc. Trata-se de uma abordagem distinta, que se afasta das preparações tradicionais mais frequentes do tamboril. Como seria de esperar, assume também um papel de relevo na carta do XXL.
Para acompanhar, o Arroz Rico, enriquecido com espargos e tâmara, colhe elogios unânimes dos clientes, surpreendendo pelo contraste adocicado. No capítulo das sobremesas, a grande novidade é o Dom Rodrigo Desconstruído, uma abordagem inovadora ao doce típico algarvio, acompanhado por um crumble de amêndoa e uma base de suspiro, que encerra a refeição com uma nota de originalidade.
Toda a operação da cozinha e da sala funciona sob o selo de garantia do criador do conceito. A equipa recebeu formação direta e intensiva com o chef, assegurando que cada prato que sai para as mesas ostenta a sua assinatura e rigor. O menu mantém-se estável, sendo realizadas pequenas alterações e apontamentos anuais, introduzindo pratos específicos para a temporada de inverno, embora a tendência recente tenha sido de adição e não de substituição, face à excelente aceitação por parte do público.
O XXL tem demonstrado uma grande capacidade de contrariar a sazonalidade que historicamente afeta o turismo e a restauração no Algarve. Com uma taxa de ocupação média anual que ronda os 72%, o restaurante mantém uma atividade vibrante mesmo fora dos meses de verão. O período de menor afluência restringe-se habitualmente à semana que antecede o Natal, em dezembro, registando ainda assim taxas de ocupação na ordem dos 20% a 30%, impulsionadas por reservas de última hora. Fora este breve hiato, o fluxo de clientes é contínuo, transformando o espaço num verdadeiro corrupio diário. Este fenómeno é sustentado, em grande parte, pelos proprietários locais, um público fiel que aprecia a estabilidade e a qualidade da oferta.
