Primavera Sound Porto 2026, Dia 1 – Do Sol para a sombra com Nation of Language, Big Thief e The xx, e os telemóveis a voar de Texas Is The Reason

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Entre o sol escaldante e a madrugada quente, o Primavera Sound Porto arrancou com Nation of Language, Big Thief e The xx, num dia de contrastes e energia imprevisível.

O Primavera Sound Porto é aquele festival onde é sempre inevitável falar do tempo, tal a multitude de cenários climatéricos a que já assistimos desde a edição inaugural na Invicta em 2012. Desta vez, temos dia de canícula forte e até se diz que madrugada adentro a temperatura ainda andará pelos 22º.

É  neste cenário de calor escaldante e com muitos bonés à vista que o trio Nation of Language chega, o público bem enquadrado debaixo da sombra projetada pelo maior palco do festival com o sol ainda bem alto. “This Fractured Mind” dá o tom ao concerto, sintetizadores bem anos 80 artilhados com a voz de Ian Richard Devaney. O vocalista agradece ao público, diz que é bom estar de volta (estiveram neste mesmo festival há três aninhos), que é o primeiro concerto de uma nova tournée de 60 datas e que a família até veio de propósito da América.

Música soalheira para ligar a este dia, “Weak In Your Light” faz o público bater o pezinho enquanto Aidan Noell nos sintetizadores baila na sua própria festa privada, e “A Different Kind of Life” faz particularmente lembrar os a-Ha e o peculiar falsete de Morten Harket.

Já os Sensible Soccers dão-nos um avistamento desse OVNI que é um concerto de artistas a horas de gente grande num festival, já perto das 20h. Os crescendos instrumentais misturados com várias batidas (a certa altura os pauliteiros de Miranda chegam-nos à mente) e guitarras com o seu quê de psicadélico deram ali bom ambiente para estar sentadinho na colina. Já tínhamos saudades desde o seu cine-concerto para Manoel de Oliveira na Culturgest.

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Sensible Soccers no Primavera Sound Porto 2026 – Foto: Emanuel Canoilas

Junho dá-nos a benesse do sol parecer não se querer pôr e ainda vai forte quando os Big Thief, um dos nomes de letra maior do cartaz, aparecem em cena. Um concerto qual “Cavalo à Solta” de Ary dos Santos, qual laranja amarga e doce, poema feito de gumes, tudo ou nada.

Assim, temos um início em que a Adrianne Lenker lidera um grupo que faz juz às suas raízes que vão muito por um folk do imaginário da chamada América profunda, com “Born for Loving You” ou “Vampire Empire”. Música que poderia estar a ser interpretada num saloon com uma bateria num ritmo lânguido de um plácido Domingo. A meio, pausa para pedir assistência médica a alguém do público, e pouco mais tarde começa um concerto bem mais musculado, com o baterista James Krivchenia a ficar progressivamente possuído. “Mr Man” é um exemplo recente de poesia descritivo/palavrosa (“Emptiness gleans in globular eyes / A horse, wolf, beaver, demon, bat flies”), e a clássica “Not” vai também em roupagem elétrica (que nem é a mais extrema, anda pelo éter uma versão que roça o metaleiro).

A sensação que os Big Thief dão é uma caixa de areia onde Lenker pode brincar à vontade (boa parte do repertório do concerto até vem da carreira a solo), e é certo que muitas palavras gentis são ditas, desde “obrigado” ser a palavra de agradecimento mais bonita de entre as línguas que conhece, ou que canta e toca guitarra tantas vezes de olhos fechadas para poder imaginar que o público, tão distante, possa estar mais perto (em “Incomprehensible”).

Mais uma voltinha no carrossel de estilos que é o Primavera Sound Porto, para o estaladão que foi o concerto dos Texas is the Reason. E não foi preciso chamar Ivete Sangalo para levantar poeira, naquele que foi o concerto mais xamânico do festival, verdadeira festa tribal com muito mosh e telemóveis perdidos que faz o videógrafo do concerto descer até ao terreiro filmar o fenómeno, que a certa altura redunda em danças telúricas em circulo.

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Big Thief no Primavera Sound Porto 2026 – Foto: Emanuel Canoilas

Em palco, uma performance impecável do pós-hardcore dos nova-iorquinos, Garrett Klahn sem pestanejar perante a cena à sua frente, a sua altura a dizer a agradecer o tesouro que é poder partilhar a sua música. Chris Daly faz vibrar a bateria até nós qual ligação sónica, sapiência de vários anos a tocar ao vivo, muitos hiatos para participar noutros projetos a passar a ideia que aqui não há o enjoo de estar apenas a ganhar a vida roboticamente. No fundo, os duros do pelotão abraçam-se por terem naquele sítio àquela hora.

Para o fim estava guardado aquele que é um dos regressos mais falados dos últimos anos, os primeiros concertos em oito anos dos The xx. É num nevoeiro que rodeia o cenário a preto com uma grande cruz com luzes por cima de Romy Madley Croft, Jamie xx e Oliver Sim que o concerto arranca. Quem tem “Crystalised” no cardápio para arrancar já parte na frente, mas rapidamente se percebe que se andou a escavar a obra gravada, muito mais batida em cima do intimismo que tanto caracterizou o grupo de Londres. Mais rasgo eletrónico de Jamie xx, vocalizações a procurar outras paragens de Croft – claramente estão mais espevitados.

Para quem estava à procura da pureza inicial pode ter sido um certo choque, mas o facto é que esta evolução na continuidade nos agrada, até porque “Angels” é uma âncora no coração que se mantêm tal como em Coexist, outra face da moeda das camadas extra em cima de “Sunset” ou “Shelter”. O terceiro mosqueteiro Oliver Sim agradece a presença em massa do público, que jura não dar por garantido e que significa mais do que se pode dizer por palavras – também se vão cantar os parabéns ao moço que faz anos em breve.

No fim o princípio, qual história sem fim: “Intro” fecha um concerto enxuto que mostra os The xx em boa forma e muito dentro do prazo para voltarem a fazer coisas juntos.

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The XX no Primavera Sound Porto 2026 – Foto: Emanuel Canoilas
Bruno Rocha Ferreira
Bruno Rocha Ferreira
Apaixonado por vinhos e boa música, o Bruno Rocha Ferreira cobre eventos vinícos, concertos e festivais de música. Também gosta de stand up comedy de qualidade.
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