A Ver Tavira: a viagem gastronómica que eleva Tavira à alta cozinha

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Fomos ao A Ver Tavira provar o menu Toda a Viagem, uma experiência de alta gastronomia que cruza tradição algarvia, técnica contemporânea e produto local.

Numa cidade marcada pela relação com o rio Gilão e por uma forte identidade gastronómica, Tavira tem vindo a afirmar-se como um dos destinos relevantes da restauração no Algarve. Entre os projetos que contribuem para esse posicionamento está o restaurante A Ver Tavira, um espaço que cruza cozinha contemporânea, produto local e um percurso consolidado no panorama da alta gastronomia em Portugal.

O A Ver Tavira, inaugurado em 2006 na cidade de Tavira, no Algarve, afirma-se como um dos projetos de referência na restauração contemporânea em Portugal. Localizado na zona histórica, com vista direta sobre o rio Gilão, o espaço combina uma proposta gastronómica de fine dining com uma forte ligação à identidade cultural algarvia.

Sob a liderança do chef Luís Brito, o restaurante desenvolve uma cozinha contemporânea portuguesa que cruza produtos locais com influências internacionais. À frente do A Ver Tavira, Luís Brito consolidou o restaurante como um dos destinos gastronómicos de Tavira e do Algarve, tendo acumulado várias distinções. Entre elas destacam-se o Certificado de Excelência do TripAdvisor em 2018, recomendações no Guia Michelin e no guia Boa Cama Boa Mesa entre 2019 e 2021, e a atribuição de uma estrela Michelin, que posiciona o espaço entre os restaurantes de excelência em Portugal.

O A Ver Tavira tem sido também reconhecido a nível internacional, nomeadamente com a atribuição de três prémios nos World Luxury Restaurant Awards, distinção que avalia critérios como qualidade gastronómica, serviço e experiência global. Em 2025, o restaurante recebeu ainda o Global Recognition Award, que destaca o desempenho na área da restauração gourmet, incluindo dimensões como inovação, liderança e práticas sustentáveis.

Entre as práticas adotadas, destaca-se a utilização de cerâmica tradicional algarvia na apresentação dos pratos, contribuindo para a valorização de produtores locais e para a integração de elementos culturais na experiência gastronómica. A articulação entre gastronomia, território e património é um dos eixos centrais do conceito do restaurante.

A oferta gastronómica do restaurante assenta em menus de degustação, centrados em produtos locais e nacionais, numa abordagem que privilegia o respeito pela matéria-prima e a intervenção técnica controlada. A cozinha procura equilibrar tradição e inovação, apresentando pratos que refletem a identidade da região de Tavira e do Algarve, ao mesmo tempo que incorporam técnicas contemporâneas.

Já a componente de sala e vinhos é liderada por Cláudia Abrantes, maitre sommelier do restaurante. Natural de Manteigas, iniciou a sua carreira nas Pousadas de Portugal em 1990, tendo desenvolvido experiência em diversos hotéis e restaurantes, tanto em território nacional como internacional. Destaca-se a passagem pela Princess Cruises, onde desempenhou funções de subchefe de sala e bar, numa experiência que contribuiu para o contacto com diferentes culturas e práticas de serviço.

Mas vamos então ao que interessa: a comida. Ainda que o A Ver Tavira tenha efetivamente um menu a la carte, é nos já mencionados menus de degustação que o restaurante cria arte. E o Echo Boomer teve oportunidade de experienciar um deles ao jantar, neste caso o mais completo, chamado Toda a Viagem, com um custo de 225€/pessoa (e neste caso com direito a harmonização de vinhos, cujo preço é de 135€).

Logo nos momentos inaugurais, as boas-vindas do chef assentam numa apresentação que remete para a estética dos azulejos portugueses do século XV. É no centro desta peça recriada que surge a salada montanheira, onde pimentos e cebola se assumem como protagonistas, sendo este conjunto ladeado por pão de tomate. A equipa sugere que o pão seja passado na salada, absorvendo, assim, a essência do prato.

A valorização das raízes tradicionais prossegue com a empada de galinha, com o formato de miolos, que chega à mesa ladeada por um caldo de galinha aromatizado com hortelã. Este primeiro ato do repasto inclui ainda um crocante servido sobre madeira de urze, acompanhado por foie gras, um ovo cozinhado a baixa temperatura e caviar. A estética desta secção é também marcada pela presença decorativa de estátuas denominadas de Guardiões.

Terminadas as boas vindas, começámos efetivamente a nossa viagem no A Ver Tavira. O percurso transita para o oceano com o litão, um peixe seco indissociável da cultura algarvia e, particularmente, de Olhão. O momento de mar salgado prossegue com a ostra Angulata, nativa de Portugal e que estabelece aqui uma ligação simbólica a Cacela Velha. Este bivalve, portador de uma elevada salinidade, encontra equilíbrio num arroz crocante e num refrescante sorbet de maçã verde, sendo tudo finalizado com um inusitado molho de litão fermentado, que aprofunda a intensidade do prato.

A vertente do pão também merece um destaque próprio por evocar as origens do chef. O serviço dispõe na mesa um pão fatiado elaborado à base do antigo trigo de barbela e um pão de bolota, sendo que ambos partilham um exaustivo processo de fermentação de massa mãe ao longo de 24 horas. Este conjunto é enaltecido pela presença de manteiga de vaca dos Açores, sal proveniente das salinas de Tavira e do azeite de Santa Catarina, extraído da variedade de azeitona maçanilha, que lhe confere um perfil inequivocamente frutado e ligeiramente picante.

A jornada estendeu-se geograficamente até aos Açores com a entrada em cena do peixe-lírio, confecionado num rigoroso equilíbrio, acompanhado por pera, um molho de couve fermentada e, no topo, um crocante de candelabro feito de ervas e amêndoas, criando uma complexa conjugação de texturas. Pouco depois, o Peixe de linha, neste caso Robalo, com sementes de mostarda, molho de peixe e poejo.

O apogeu da secção marítima manifesta-se no lavagante azul, também conhecido como lavagante europeu, envolvido no molho do próprio crustáceo e guarnecido com batata-doce roxa e caviar. Depois, a terminar os pratos de mar, chegou o Tesouro de Santa Luzia, isto é, polvo trabalhado a dois tempos, sendo primeiro cozido e depois grelhado, e ainda glaceado. Numa alusão direta a Santa Luzia, o prato é guarnecido com salada algarvia de cenoura e goma de caracol.

A transição para os sabores da terra faz-se com o peito de codorniz – ave migratória que abunda na região entre os meses de março e outubro -, acompanhado por sementes de quinoa, gomos de toranja, molho de beterraba e mel, sendo servido em simultâneo com um arroz da própria ave.

Depois, como a anteceder as sobremesas, pudemos desconstruir uma chaminé algarvia. Trata-se de uma experiência interativa onde os clientes são convidados a desmontar a estrutura cerâmica, cujos componentes encaixam como se fossem peças de LEGO. Esse processo de desmontagem revela a existência de uma parte comestível integrada no conjunto – no caso Ananás dos Açores e Pistácia Lentiscus (uma flor) – servindo de transição concetual imediata antes da introdução da secção de doçaria. No fundo, retira-se o topo e come-se como se fosse um espetinho.

O epílogo da experiência debruça-se sobre a história arquitetónica de Tavira. O impacto visual é assegurado pela exibição da Mão de Fátima, um símbolo que representa a sorte, energia e força, ladeado por uma réplica das tradicionais portas de reixa da cidade, que permitiam a ventilação e a observação das ruas sem expor os moradores.

Esta Mão de Fátima é, na verdade, um bolo de bolacha, combinando o amargo do café de São Tomé, creme de manteiga e a bolacha Maria, numa homenagem à receita de Maria Neto, uma cliente local de 85 anos e que se já se tornou parte da família. É, provavelmente, o prato com mais história de todo o menu de degustação do A Ver Tavira.

A complexidade atinge o expoente na apresentação do Vaso de Tavira, uma reprodução de um artefacto arqueológico do século XI e XII, correspondente ao período islâmico da região. Neste caso, algumas das figuras no topo eram comestíveis, com sabores como o tão típico Dom Rodrigo.

No final de tudo, é absolutamente impossível não recomendar esta experiência. Pode não ser para todas as carteiras, é certo, mas é daqueles momentos que se deve experienciar pelo menos uma vez na vida. Até porque se trata de uma experiência gastronómica imersiva, onde cada prato conta uma história da região.

Alexandre Lopes
Alexandre Lopes
Licenciado em Comunicação Social e Educação Multimédia no Instituto Politécnico de Leiria, sou um dos fundadores do Echo Boomer. Aficcionado por novas tecnologias, amante de boa gastronomia - e de viagens inesquecíveis! - e apaixonado pelo mundo da música.
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