O Proibido Déjà Vu, de Márcio Lopes, aposta em castas resistentes para responder às alterações climáticas no Douro e preservar frescura.
A região do Douro enfrenta um contexto de crescente pressão climática, marcado pelo aumento das temperaturas médias e por maior irregularidade meteorológica, fatores que começam a refletir-se de forma direta na viticultura.
Nos últimos anos, produtores e enólogos têm vindo a adaptar práticas e a reavaliar castas, procurando preservar o equilíbrio e a identidade dos vinhos da região. É neste enquadramento que surge o Proibido Déjà Vu, um vinho desenvolvido por Márcio Lopes com foco na adaptação às alterações climáticas.
A terceira edição do Proibido Déjà Vu, correspondente à colheita de 2023, tem lançamento previsto até ao final do ano e mantém a mesma abordagem das anteriores. O projeto parte de uma seleção de castas consideradas mais resilientes a cenários de aquecimento global, com o objetivo de garantir frescura, acidez e capacidade de envelhecimento em condições mais exigentes.
O lote integra castas de ciclo longo, nomeadamente Tinta da Barca, Alvarelhão, Touriga Nacional e Tinta Roriz, sendo que esta última provém de uma vinha com cerca de 90 anos. Estas variedades caracterizam-se por uma maturação mais lenta, permitindo preservar níveis de acidez e equilíbrio de pH, dois fatores determinantes para a longevidade dos vinhos do Douro.
Segundo Márcio Lopes, a evolução de um vinho em garrafa depende sobretudo da acidez e do equilíbrio entre os seus componentes, mais do que do teor alcoólico. Nesse sentido, as castas de ciclo longo tendem a manter frescura e estrutura mesmo em verões mais quentes, reduzindo a necessidade de intervenções corretivas em adega.
Em sentido contrário, algumas castas tradicionalmente associadas ao Douro, como Tinta Roriz, Touriga Franca e Tinta Barroca, apresentam maior tendência para perder acidez em contextos de calor intenso ou elevada amplitude térmica. Este comportamento levanta dúvidas quanto à sua adaptação futura em determinadas zonas da região.
Perante este cenário, o projeto tem vindo a apostar na identificação de vinhas velhas e na plantação de castas mais resistentes, numa tentativa de antecipar as condições que poderão vir a marcar o Douro nas próximas décadas.
A produção do Proibido Déjà Vu segue práticas de intervenção reduzida. A vindima é manual, com transporte em pequenas caixas, e a fermentação decorre de forma lenta. O estágio é feito em barricas usadas, opção que procura limitar a influência da madeira e preservar a expressão do terroir.
As uvas provêm de diferentes subzonas do Douro – Foz Côa, Nagozelo do Douro e Vale de Mendiz – e de altitudes entre os 150 e os 550 metros. Esta diversidade contribui para a complexidade do vinho, combinando diferentes condições de solo, exposição solar e variações térmicas.
O resultado é um vinho estruturado, mas marcado pela frescura e pelo equilíbrio, características que o produtor considera essenciais para a adaptação da região às alterações climáticas. A abordagem não assenta em tendências de mercado, mas na construção de um perfil consistente face às mudanças em curso.
Embora já existam edições anteriores no mercado, incluindo a colheita de 2022, o foco do projeto não está na novidade de cada lançamento, mas na continuidade de uma estratégia de adaptação. A edição de 2023 do Proibido Déjà Vu surge, assim, como mais um desenvolvimento dentro dessa linha de trabalho.
