Mixtape Review: O desejo por um encore

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Mixtape é uma surpresa inesperada, breve e emocionalmente forte que celebra a adolescência sem a romantizar, com fantásticas vinhetas acompanhadas de uma incrível banda sonora.

Mixtape é o mais recente jogo da Beethoven & Dinosaur, criadora do aclamado The Artful Escape e distribuído pela Annapurna Interactive. Lançado no dia 7 de maio, o jogo tomou uma natureza algo viral, pelas suas surpreendentes notas da crítica especializada, saltando rapidamente para o topo dos melhores jogos do ano, atingindo 92 pontos no OpenCritic e 85 pontos no Metacritic.

Apesar de ter deixado escapar o jogo anterior do estúdio, a minha ligação a jogos de coming-of-age com temáticas nostálgicas, como Life is Strange tão bem cimentou nos videojogos, são a minha perdição, por isso com o jogo lançado no Xbox Game Pass a porta para o experimentar e perceber o sururu em torno de Mixtape tornou-se mais fácil.

Entrei em Mixtape à espera de, como já mencionei, um Life is Strange, ou até de um Lost Records: Bloom & Rage, lançado no ano passado. Um jogo passado ali entre o fim dos anos 90 e início dos anos 2000, reminiscente da era em que eu próprio cresci, com um teor dramático e elementos fantásticos e sobrenaturais. Não que os trailers deixassem antever isso, mas como são jogos normalmente suportados pelo mistério, era o que antevia. No entanto não podia estar mais enganado, pois Mixtape está longe de ser um drama pesado, com histórias de abusos, bullying, conspirações, traumas e relações complicadas, que tanto são romantizadas no género aprofundar as personagens e criar intrigas, sendo em vez disso algo mais querido, doce e celebratório de uma fase da vida que muitos de nós nos podemos relacionar, a saída da zona de conforto e o adeus.

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Mixtape (Beethoven & Dinosaur)

Em Mixtape acompanhamos um grupo de três adolescentes, Stacy, Van e Cassandra, naquela fase da rebeldia que com o aproximar do fim da escola e o início da vida adulta, planeiam uma última grande celebração, antes de Stacy sair da pequena cidade de Blue Moon. Ainda que tenham outros planos para se juntar no futuro. É um momento importante para a vida dos três jovens que se conhecem desde muito cedo e que de um momento para o outro terão de viver vidas separadas e distantes, um cenário ressonante e que alimenta ansiedades. Mas Stacy tem tudo controlado e para viver aquela última noite com os seus amigos, preparou uma playlist.

A música é tudo para Stacy, que se quer tornar na maior Supervisora Musical do mundo, escolhendo as melhores músicas para os diferentes cenários e situações, com contextos e temas apropriados. Com este conceito, Stacy é a nossa protagonista num jogo relativamente curto, com cerca de três horas no máximo, aproximando-se de um filme animado e interativo, composto por um conjunto de vinhetas e, claro, uma playlist apropriada, com músicas licenciadas de bandas e artistas como Devo, Smashing Pumpkins, Iggy Pop, Joy Division, Portishead e muitos mais.

Mixtape aproxima-se também de um musical. Ao longo do jogo, quase passado em tempo real antes da partida de Stacy, a nossa heroína quebra a quarta parede para apresentar os vários temas que tem planeados e, quando as coisas não correm bem, para adicionar algo inesperado, mas sempre apropriado. A relação entre situações e música é algo que ressoou particularmente comigo, porque também eu, naquela idade, com o meu discman ou leitor MP3 procurava nas minhas playlists o som perfeito. Mas foi a relação dos três personagens e a sua ambição em despedirem-se em grande que mexeu particularmente comigo.

Stacy e Van são os amigos mais antigos, com um laço e cumplicidade forte, com muito carinho e contornos quase românticos que não chegam a ser concretizados. Há certamente uma tensão que nunca chega a ser a prioridade do jogo, demonstrando uma amizade real. Já Cassandra, o elemento mais novo, introduz alguma bagagem à dinâmica do grupo, sendo filha de um polícia mais restrito e tentando abrir o trio a um grupo de amigos mais vasto, causando algumas ansiedades a Stacy sobre a sua amizade quando estiver longe. Esta última cerimónia torna-se assim num teste de resistência à dinâmica do grupo, com situações emocionais, mas sem nunca cair no pico dramático de outros jogos semelhantes. Em vez disso o jogo opta por uma escrita mais cómica, tola e fantasiosa.

Tal como a música se torna na banda sonora dos momentos dentro da história, também há uma componente visual muito forte, com momentos exagerados inspirados na realidade, como uma viagem a um parque de dinossauros abandonado que termina com o trio montado num brachiosaurus, uma fuga de skate intensa onde a protagonista imagina carros a explodir, ou uma trip de carro com amigos que eventualmente levantam voo. Nada disto é real, tudo é metafórico, num suporte narrativo com elementos interativos apenas possíveis num videojogo.

Mixtape não é, no entanto, um jogo particularmente profundo mecanicamente. É, como já mencionei, uma experiência interativa. Existe alguma interação, na exploração dos espaços, com itens para recolher, coisas para ler e ativações para o momento seguinte, assim como alguns mini-jogos descontraídos. Mas tudo muito linear, relaxado e benevolente. O jogo conta com alguns momentos mais intensos, com controlos baseados em timings, mas mesmo as falhas não resultam num gameover. Não considero nada disto particularmente negativo, pois torna esta experiência acessível a qualquer jogador e a qualquer dispositivo, sendo um jogo particularmente conveniente de se jogar via streaming.

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Mixtape (Beethoven & Dinosaur)

Visualmente, Mixtape também merece grandes elogios. Apesar de já termos visto este registo visual semelhante noutras produções, a riqueza visual dos ambientes, a caracterização das personagens, as animações e a fidelidade visual, aliada a uma cinematografia de excelência, tornam Mixtape num fantástico deleite multimédia. Também se destaca a escolha da animação com frame-rate baixo, em contraste com a fluidez do restante jogo, reminiscente de produções como os filmes Spider-Verse, que acentuam a natureza indie e fora da caixa da produção.

Para além destes elogios e apontamentos, foram as emoções que acabaram por cimentar Mixtape como um verdadeiro Jogo do Ano, daqueles mesmo inesperados. Perto do fim desta pequena aventura, mesmo não me relacionando a 100% com estas personagens, recordei-me da minha adolescência, de vários episódios e situações caricatas que também mereciam a sua banda sonora. Recordei-me também das amizades que fui fazendo, dos grupos a que pertenci, daqueles que tive a felicidade de manter e dos que, naturalmente, se distanciaram ou deixei distanciar para vários cantos do universo, sem ter tido uma última oportunidade de celebrar e encerrar esses capítulos de forma significativa (excluindo, obviamente, os que terminaram em separações e outro tipo de catarses). Mixtape fez-me desejar voltar atrás, a alguns desses momentos, das últimas conversas, dos últimos “até amanhã”, das últimas mensagens que ficaram por responder, para imaginar como seria um último grande momento com esses amigos. Momentos esses que perderam a sua oportunidade e que serão impossíveis de replicar com pequenas reuniões circunstanciais, porque na vida real, às vezes, não há espaço para Encores.

Mixtape está disponível no PC, na PlayStation 5, na Xbox Series X|S e na Nintendo Switch 2 e pode ser jogado via Xbox Game Pass.

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David Fialho
David Fialho
Licenciado em Comunicação e Multimédia, considero-me um apaixonado por tecnologias e novas formas de entretenimento. Sou editor de tecnologia e entretenimento no Echo Boomer, com um foco especial na área dos videojogos.
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