A The Pokémon Company convida-nos para voltar a Kanto em Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen agora para a Nintendo Switch e a Nintendo Switch 2, onde a magia da nostalgia se perde sem adições ou melhorias. São jogos Pokémon de 2004, no seu estado mais puro.
Jogos como Pokémon Red e Pokémon Blue são intemporais. Não só são lançamentos históricos, servindo de ponto de partida para uma das propriedades intelectuais mais valiosas da história, como são também importantes influências na indústria, mesmo 30 anos depois. A intemporalidade de jogos como estes, por vezes, não resiste ao avançar do tempo, pois tornam-se legalmente inacessíveis para a maioria dos jogadores e, claro, são registos muito únicos de uma época específica, que carecem de visões mais contemporâneas e que respondam aos interesses dos jogadores atuais.
A Nintendo e a The Pokémon Company têm isso presente e, em 2004, deram à Game Freak a tarefa de atualizar Pokémon Red e Pokémon Blue com Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen para a Nintendo Game Boy Advance. Na altura, estess apresentavam-se como remake completos, adaptados às capacidades da nova consola portátil, com visuais mais modernizados, música remasterizada, novos conteúdos para lá da campanha, um Pokédex mais extenso e, claro, muitas melhorias de qualidade de vida. Mas 2004 já foi há 22 anos e os jogos, tal como as criaturas titulares, também evoluíram, recebendo novas entradas emocionantes na série com melhorias iterativas que tornam até o remake da Nintendo Game Boy Advance numa espécie de fóssil.
Para os 30 anos da saga, a Nintendo e a The Pokémon Company repetem a dose e trazem Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen de regresso às consolas modernas, a Nintendo Switch e a Nintendo Switch 2, mas desta vez de uma forma diferente, menos arrojada e, para muitos, questionável. Em vez de um remake, temos um relançamento em forma de conversão, que até nem se pode qualificar como remaster, pois Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen são exatamente o mesmo jogo lançado na Nintendo Game Boy Advance.

Entre os jogos originais e os de 2004, faz sentido a Nintendo ter escolhido Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen como forma de trazer nostalgia e até apresentar um pouco da sua história a gerações de jogadores mais novas, mas não deixa de ser curioso quão quase imutáveis estas novas versões são. De acordo com a The Pokémon Company, o jogo será dotado do suporte do Pokémon Home em breve, que permitirá transferir criaturas entre jogos. Já jogadores muito dedicados e com um conhecimento avançado em todas as dimensões dos jogos referem que existem pequenas diferenças nestas novas versões. No entanto, nenhum destes cenários coloca Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen no patamar de novos jogos, já que as diferenças não são frontalmente claras.
Do lado mais positivo está na sua natureza, no facto de Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen serem, por si só, excelentes jogos. Autênticas pérolas, com uma premissa simples, mecânicas fáceis de compreender, arte adorável e extremamente fáceis de jogar, não ignorando os desafios e o grind por vezes necessário para combater um gym leader. Mas apesar de tudo o que Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen têm de bom, sinto que podia ser tão melhor. Aliás, ligeiramente mais moderno e adaptado à mentalidade de jogadores atuais. Mesmo sem necessitar de um remake como Let’s Go Pikachu e Let’s Go Eevee fizeram na revisitação da região de Kanto.
No ano passado rejoguei Pokémon FireRed numa Nintendo Game Boy Advance. Mas não foi bem a versão original, foi numa consola de emulação com uma versão ligeiramente adaptada, um chamado romhack, que incluía algumas melhorias e opções de acessibilidade que considero que alteram para melhor a experiência, como a opção de acelerar o jogo, alterações na forma como se progride e se adquire exp, na cadência de spawn de Pokémon durante a exploração (porque Zubats a cada três passos em aréas como Mt. Moon é muito irritante), equilíbrio de dificuldades, entre outras opções.
Opções e funcionalidades como estas não são estranhas a este tipo de jogos. Atualmente até a série Pokémon foi melhorando iterativamente algumas opções de qualidade de vida, jogo após jogo. Elementos como a partilha de exp por Pokémon já existe por defeito, a capacidade de podermos recuperar Pokébolas perdidas, de podemos evitar criaturas meramente por observa-las no ambiente, de podermos correr e acelerar o ritmo do jogo, entre outras características mais granulares que nos dão um maior controlo da experiência. Claro que tudo isso são adições a evolução faz-se ao longo do tempo. No entanto, existem soluções interessantes que a The Pokémon Company, ou neste caso a Game Freak, poderia ter adicionado a este relançamento. Exemplos claros disso são encontrados nos relançamentos de Final Fantasy da Square Enix, em particular nas recentes remasterizações e até na saga Remake de Final Fantasy VII, que contam com opções fantásticas para jogadores novatos e veteranos que querem apenas matar o bichinho da nostalgia ou avançar mais depressa nos jogos, com opções de modificação da velocidade de jogo, uso de habilidades no máximo, HP e energia sempre no máximo, entre outras.

Não pediria exatamente estas opções em Pokémon, como é obvio, mas servem apenas de exemplos mostrar o contrastaste que existe com Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen neste lançamento na Nintendo Switch e Nintendo Switch 2, ao não incluirem nada de realmente novo ou adicional. É a experiência pura encontrada na Nintendo Game Boy Advance.
Pessoalmente é lamentável e relembra, na verdade, os remasters de Star Wars da Aspyr, que variam de jogo para jogo, mas que recorrentemente são apenas relançamentos com melhores resoluções e frame rates mais satisfatórios, mas sem qualquer adaptação mecânica ou contemporânea que se possa dizer de valor. São autênticos anzóis de nostalgia, que no fim do dia acabam por revelar mais a mediocridade real desses títulos do que o “quão bons” eles pareciam ser na nossa mente mais jovem e inocente na altura em que foram lançados.
Esta mentalidade mais inocente também é importante ao olharmos para Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen. No verão do ano 2000, lembro-me de ter o meu primeiro contacto com a série de jogos Pokémon ao jogar Pokémon Yellow, na Nintendo Game Boy Color. Na altura os jogos eram, para mim, novidades, cada um drasticamente diferente do outro e o nível de acessibilidade era drasticamente diferente do que temos hoje. A capacidade de concentração a jogar um jogo destes – a sua sensação de novidade a cada nova batalha sem conhecer o que vinha a seguir ou sem ter presente o Pokédex -, tornavam esta viagem numa aventura longa, mas memorável. Problemas de ritmo, necessidade de grind, repetição de segmentos, tudo fazia parte de uma experiência que, na altura, não sabíamos que podia ser melhor. Hoje, a abordagem a estes jogos é bastante diferente e as resistências de outrora podem ser agora limites e barreiras para a nossa degustação e apreciação geral destes jogos. A preservação da experiência original é bem-vinda e uma necessidade para esta indústria e este hobby, mas o relançamento de um dos melhores jogos Pokémon à antiga, poderia ser algo mais.
A minha revisitação de 2026 concentrou-se em Pokémon LeafGreen na Nintendo Switch 2 e, apesar de toda esta minha observação, o jogo permanece fantástico e corre de forma incrível no novo hardware da Nintendo. A escala da resolução é pristina e a fluidez gráfica é deliciosa. Assistir a Pokémon LeafGreen em ação na Nintendo Switch 2 ou ligada a uma TV é uma experiência maravilhosa, que até com meios menos lícitos ainda não conseguem atingir este nível de fidelidade – pelo menos de que tenha conhecimento.

Contudo, não deixa de ter as suas quirks. Ao contrário de outros jogos da Nintendo Game Boy Advance disponíveis no Nintendo Switch Online Expansion Pack, Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen não incluem as opções adicionais do seu emulador, como a capacidade de fazer vários saves ou rebobinar. Mas outra falha que quero mencionar, diz respeito à escala da imagem nos ecrãs. No emulador da Nintendo Switch Online Expansion Pack, os jogos da Nintendo Game Boy Advance apresentam-se centrados e com uma moldura que preenche o resto do ecrã. Já Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen não ostentam nada disso, com a imagem do jogo verticalmente descentralizada, ajustada ao topo do ecrã e apresentando uma constante barra preta no fundo da imagem. Não é algo que estrague a experiência, mas é um daqueles pormenores técnicos que causam alguma comichão para quem procura jogar com o máximo de ecrã possivel, mantendo o aspect ratio original.
Dito tudo isto, para quem for para Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen à procura de novidades, o melhor é baixar as expectativas. Estes são exatamente os mesmos jogos de outrora, agora disponíveis em ecrãs maiores. Se por um lado a experiência original é preservada, a falta de melhorias, mesmo que opcionais, pode tornar a viagem mais enfadonha e pouco convidativa. Pokémon FireRed e Pokémon LeafGreen podem ser jogados na Nintendo Switch e Nintendo Switch 2, apenas em formato digital na Nintendo eShop, onde também é necessária atenção redobrada para escolher a versão com o idioma correto.
Cópia para análise (versão Nintendo Switch 2) cedida pela Nintendo Portugal.
