O Farol Hotel, em Cascais, respira um ar de renovação. O icónico espaço Coconuts está de volta à gestão direta do hotel, prometendo alterar o mercado de eventos na região, enquanto o restaurante da casa, o The Mix, apresenta um novo rumo focado na comida de conforto com um twist.
Situado na deslumbrante costa de Cascais, com uma vista privilegiada sobre o Atlântico, o The Mix, restaurante do Farol Hotel, tem vindo a ser alvo de mudanças. Regressámos a este spot nos últimos meses por variadas vezes – e ainda bem! – e, no passado mês de fevereiro, voltámos ao sítio do costume. Desta vez para descobrir a nova experiência gastronómica. Mas já lá vamos.
Antes do jantar tivemos direito a beber alguns cocktails no bar On The Rocks, sendo que nos deliciámos com um dos mais recentes cocktails do espaço, o Coconuts (Bacardi carta blanca, Malibu, maracujá e baunilha), uma proposta bem docinha e que vai certamente fazer sucesso para os meses quentes que se avizinham, mesmo para quem não é fã de baunilha. À nossa espera estava Bruna Seixas Mendes, Sales Manager do Farol Hotel, que aproveitou para nos falar mais um pouco da recente reabertura do emblemático Coconuts.
Após vários anos sob a concessão exclusiva da empresa de catering Casa do Marquês, o espaço – que marcou gerações com as míticas festas da espuma e noites de discoteca – reposiciona-se no mercado com um novo fôlego. O plano estende-se agora muito além da habitual época de casamentos de verão, apontando baterias à captação do segmento corporativo, que regista forte procura em meses estratégicos como maio e setembro.
Para suportar esta ambição, as infraestruturas do Coconuts estão a ser alvo de uma autêntica “lavagem de cara”. A sala principal e a área de entrada encontram-se em obras de modernização, um processo contínuo com conclusão prevista para um prazo de três a quatro meses. O espaço assume-se como um dos maiores e mais flexíveis da região, destacando-se por uma lotação máxima de 400 pessoas em pé, uma dimensão rara na linha de Cascais. No interior, a herança visual do edifício cruza-se com a renovação. A antiga sala VIP, conhecida como a mítica sala de karaoke, sobreviveu à transformação, mantendo a sua estética original marcada pelas características paredes de pedra azul e quadros da época, assumindo-se como um espaço de nostalgia. Em termos práticos e logísticos, o complexo assegura aos clientes uma vantagem competitiva de peso: o acesso a um parque de estacionamento próprio e gratuito, solucionando um dos maiores constrangimentos de quem visita a vila e contrastando fortemente com as tarifas elevadas cobradas nas zonas vizinhas.
A imponência da estrutura prolonga-se para o exterior, onde a proximidade imediata com o oceano dita a atmosfera dos eventos. O Coconuts dispõe de áreas ao ar livre privilegiadas, incluindo um terraço situado nas traseiras e um outro e imponente terraço principal que se ergue diretamente sobre as águas do que costuma ser um plácido lago azul. Nos dias de tempestade, o cenário ganha dramatismo com as ondas a baterem violentamente contra as rochas, onde se encontram esculpidos bancos naturais de pedra que complementam a paisagem. Esta área exterior, fisicamente separada da sala principal, apresenta-se como o palco ideal para cerimónias ao pôr do sol, momentos icónicos como o corte do bolo de noivos e cocktails de receção. A própria arquitetura do complexo permite colocar bandas a tocar ao vivo em planos superiores, animando as zonas de convívio ao ar livre. Já no interior, a dinâmica dita que, durante os jantares de verão, todo o espaço permaneça aberto, estabelecendo uma ligação fluida entre a área de refeições e a pista de dança.
No plano comercial, a direção operou uma mudança radical ao abolir a exclusividade. O hotel abre as portas a qualquer agência de eventos ou wedding planner, concedendo total liberdade para a contratação de fornecedores externos, desde o catering à decoração. Em simultâneo, a estrutura garante o acompanhamento interno das infraestruturas e propõe os serviços do seu próprio hotel, que são sustentados por uma nova visão gastronómica em franca expansão no restaurante do complexo.
Mas a nossa ida ao Farol Hotel não estava relacionada com o Coconuts, antes com o restaurante The Mix, que está a atravessar uma reformulação estrutural e conceptual. A gestão decidiu afastar-se da rigidez associada à alta cozinha e à perseguição de estrelas Michelin, optando por um modelo de luxo descontraído. O objetivo central é oferecer comida de conforto com um toque de autor, num ambiente partilhado e informal. A cozinha é comandada pelo chef Sebastian Fritye, de nacionalidade romena, que imprime no menu as suas memórias de infância e influências recolhidas em viagens.
A nova carta do The Mix é o reflexo direto desta fusão cultural e da aposta em produtos específicos. Entre as propostas apresentadas, destaca-se um Rolo Thai de Manga, nascido de uma viagem do chef à Tailândia, que combina harmoniosamente manga, arroz de sushi e especiarias orientais – portanto, um prato vegan -, e que foi, para nós, a melhor entrada da noite. Outra entrada que chegou à mesa foi o Choco grelhado com vinagrete de tinta – ou seja, marinado – e polenta, acompanhamento muito consumido na Roménia.
A fechar este capítulo em beleza, deliciámo-nos com o Enchido caseiro de porco preto, ciabatta, azeitona e concassé de tomate. Aqui, a particularidade é que o hotel adquire a carne e, depois, é a própria equipa do restaurante que a marina e transforma em linguiça, finalizando-a com os temperos de autor do chef Sebastian Fritye. Na verdade, este é um processo reflete uma adaptação do chef aos costumes locais: enquanto na Roménia o hábito passa por fazer enchidos com carne muito picada – uma memória que partilha com o pai -, a receita apresentada no restaurante respeita a preferência portuguesa por pedaços de carne mais inteiros.
Já nos pratos principais, a herança da Roménia ganha particular destaque na reinterpretação de um clássico algarvio: o xarém de lingueirão com robalo. Numa fusão de culturas, o chef foi buscar inspiração à mămăligă — uma polenta cremosa profundamente enraizada na tradição romena e habitualmente consumida com natas frescas e queijo. O resultado é um xarém de lingueirão enriquecido com creme fraîche e queijo, garantindo uma nova textura e complexidade ao prato nacional.
Também muito criativa foi a apresentação do Magret de pato grelhado com risoto de cogumelos, que chega não dividido em fatias, como é habitual, mas sim em forma de… espetada. No mínimo, original. E apesar de não haver grande história aqui, a carne estava sublime.
Para terminar a refeição em beleza no The Mix, as sobremesas variaram entre a entre a riqueza de um Parfait de mousse de chocolate de Madagáscar – cujo formato apresentado me fez logo lembrar do mítico Rol da Olá – com trufa e bolo com rum, o super-classíco Crème brûlée e o Cannelloni de queijo creme e abóbora, sendo que este último nos conquistou o estômago.
No final de tudo, nota-se que há inovação, criatividade e a constante recuperação de memórias de infância para a criação de pratos do The Mix – e ainda bem.
