South of Midnight sente-se como uma pérola perdida de outra geração, com um fantástico foco numa narrativa comovente e ressonante, acompanhada por um registo visual único e cheio de charme.
Como podemos definir um jogo à antiga (old-school)? Pelos visuais retro associados à pixel art? Pela banda sonora chiptune? Ou pela simplicidade gráfica e mecânica? E em que ponto um jogo se torna “old-school”? No fim de contas, nesta indústria com décadas de história, já faltam dedos das mãos para contar as gerações de jogadores que deram os primeiros passos neste meio interativo. Sinto cada vez mais que a definição de jogo à antiga é, portanto, subjetiva, refletindo-se através de tons, de vibes e de visões restritas por regras determinadas e por decisões artísticas que remetem para outros tempos.
South of Midnight, que nos chega agora ao PC e à Xbox Series X|S pelas mãos da Compulsion Games, é um desses jogos que, apesar de moderno, não se enquadra propriamente em algo muito comum nos dias de hoje, mas que é extremamente bem-vindo. Linear, sem excessos, com um foco bem definido e acompanhado por uma apresentação forte em contrastes, colorida e estilística, South of Midnight pode não ser um remake ou remaster de um jogo “antigo”, mas faz-se sentir como uma daquelas pérolas de culto da era Xbox 360.
Em South of Midnight, conhecemos Hazel, uma jovem adolescente que vive com a mãe no sul profundo dos Estados Unidos da América e que, numa noite de tempestade, vê a sua casa ser levada pelas cheias, juntamente com a mãe. Esse momento, que coincide com a descoberta de habilidades especiais, lança-a numa jornada para salvar a mãe, ao mesmo tempo que mergulha num mundo de fantasia em busca de respostas sobre o seu passado e as histórias da pequena região de Prospero.
Com uma duração simbólica de 10-11 horas, South of Midnight é mais um jogo que prova que menos é mais, com foco e fluidez narrativa que nos mantém investidos pelo tempo necessário para contar o que quer, ao ritmo certo, terminando com aquela sensação de satisfação quase perfeita – ainda que conte com alguns elementos que poderiam ser melhor trabalhados.
Ao longo da sua história, dividida por uma dúzia de capítulos, viajamos por pântanos, florestas, montanhas, vilas abandonadas e outros ambientes sempre bem distintos, tanto a nível visual como no design contextual às habilidades ao nosso dispor e à sua narrativa.
Inspirado em histórias como Alice no País das Maravilhas, Hazel também mergulha num mundo fantástico, paralelo à sua realidade, onde almas deambulam desesperadas, presas em traumas e à procura de paz, infligindo dor e angústia a quem habita no mundo real. Com as suas habilidades, Hazel é confrontada ao longo da missão com criaturas mágicas e personagens caricatas, conhecendo os seus traumas e tentando ajudá-las, restabelecendo o tão desejado equilíbrio, não só natural, mas também emocional.
É uma viagem de crescimento necessária para Hazel, bastante ressonante para qualquer jogador, abordando temas pesados como luto, abuso, violência e outras questões sociais, mas sempre contados de forma cuidadosa, sem recorrer ao choque, quase como se fossem desabafos humanos. O resultado é uma jornada tão emocional como comovente, onde nem todas as histórias encontram um final feliz.
Com um excelente ritmo, South of Midnight apresenta cada história ao longo de vários capítulos, como pequenas arcs de uma série que me mantiveram investido em desvendar mais sobre o mundo e as suas personagens, ao mesmo tempo que alimentava a minha curiosidade para juntar todas as peças. Sem dúvida alguma, South of Midnight ata todas as linhas da sua tapeçaria. Contudo, o seu final poderia beneficiar de um pouco mais de sumo e recheio, talvez com um epílogo dedicado ao seu mundo e a algumas das suas histórias e personagens, que são aparentemente abandonadas ao terminarmos os seus níveis. Se há algo a criticar na sua narrativa, é mesmo aquele pecado capital – também de outras eras de jogos – de ter um final fechado, mas relativamente abrupto. Algo que me deixou definitivamente com um buraco no peito após tantas horas com Hazel e companhia.
South of Midnight é um jogo de ação e aventura na terceira pessoa, altamente inspirado em jogos de plataformas, daqueles que evoluíram do formato collectathon para puzzlers, num ótimo equilíbrio entre exploração e resolução de obstáculos ambientais. É relativamente linear no seu ritmo, mas convida-nos a explorar todos os cantos dos níveis, não só para recolher pedaços de informação sobre o seu lore e notas dedicadas às histórias daquele mundo, mas também pelos pontos colecionáveis que podem ser trocados por evoluções na árvore de habilidades de Hazel. Assim, a exploração não é apenas passageira – é quase uma necessidade. Algo que se faz particularmente bem, dado que os níveis são de fácil leitura, divertidos de navegar e nunca nos deixam perdidos, revelando que este formato pré-open-world funciona extraordinariamente bem.
Também fora das tendências modernas, não registei nenhum tipo de entulho artificial ou mecânicas de retenção de atenção tão comuns nos jogos atuais. Até a árvore de habilidades de Hazel é extremamente simples, permitindo alguma escolha e gestão de pontos conforme as habilidades favoritas, mas sem ser tão profunda ou complexa ao ponto de exigir cálculos e avaliações percentuais de dano dado e recebido. É simples.
Simples é também o combate e, no meio de toda a simplicidade do jogo, este acaba por ser o aspeto que, por vezes, mais deixa a desejar. South of Midnight é claramente um jogo de plataformas “primeiro” e de combate “depois”. Isso fica evidente nas suas opções de acessibilidade, que permitem ignorar os combates para quem não aprecia essa vertente. Além disso, nota-se na sua base de desafio, que é bastante acessível, mas que, quando se eleva, expõe algumas falhas. Nessas alturas, prevalecem o caos e a descoordenação, resultado de um sistema de lock-on desregulado e alguns controlos imprecisos. Não é algo imediatamente aparente, mas torna-se óbvio à medida que avançamos e os encontros se tornam mais exigentes, com múltiplos inimigos em ecrã.
Totalmente equipada, Hazel tem habilidades básicas de ataque e desvio, além de ações que gastam energia, como puxar, empurrar ou paralisar inimigos, que rapidamente se recarregam. Os combates são, assim, uma dança estratégica, mas superficial. Seria um ótimo elemento do jogo se houvesse mais habilidades disponíveis, mas, acima de tudo, mais variedade – tanto nos confrontos como nos inimigos. Com exceção dos encontros com bosses, que apresentam criaturas impressionantes e abordagens variadas que vão além do mero combate, os restantes confrontos decorrem sempre em zonas fechadas, num formato repetitivo de duas ondas de inimigos e com apenas meia dúzia de monstros diferentes. Há uma tentativa de evolução, com a introdução de novas criaturas em alguns momentos, mas não se sente uma real novidade ao longo da aventura. E, mais uma vez, o final sofre com esta decisão, ao descartar um “derradeiro boss” em favor de mais um conjunto de combates idênticos.
South of Midnight destaca-se, no entanto, pela sua apresentação e fantástica direção artística. Desde o seu anúncio, esta aposta da Compulsion Games gerou alguma tração nas listas de jogos mais antecipados, e acredito que o seu estilo visual tenha sido um dos principais fatores. Com uma direção inspirada em ambientes e personagens góticas, focada no folclore sulista americano e com a curiosa decisão de recorrer a animação stop-motion, todos os ingredientes pareciam alinhados para uma experiência única. E o jogo entrega. A direção artística é sólida, com personagens de traços excêntricos e exagerados, criaturas sombrias e ambientes tão belos quanto assombrosos, onde cada área parece digna de uma ilustração de concept art. Até é pena que não exista um photo mode oficial.
Com contrastes carregados e linhas bem vincadas, o jogo constrói uma identidade visual bastante própria, apesar de serem óbvias as inspirações em obras de Tim Burton, algo ainda mais evidente graças ao stop-motion. Esta escolha é interessante, já que não é comum nos videojogos e, por um lado, funciona muito bem, sendo convincente em cinemáticas ou quando algo de grande escala se move no ecrã. Para atingir o efeito desejado, as cinemáticas estão bloqueadas a 30FPS tanto no PC como na consola. Já a jogabilidade mantém uma fluidez superior – essencial para a exploração e combate –, o que dilui um pouco esse efeito característico do stop-motion. Durante o jogo, as animações de Hazel seguem o mesmo estilo, mas de forma menos evidente e, pelo menos no início, podem causar alguma estranheza. Para quem não se adaptar, há a opção de desativar o stop-motion nos menus de acessibilidade, embora este continue ativo nas cinemáticas.
A experiência de South of Midnight é ainda enriquecida por uma envolvente banda sonora. Para além das composições orquestrais e tradicionais, que misturam ação épica com batidas enérgicas, o jogo inclui temas originais, na sua maioria canções que exploram o rock, folk e outras sonoridades emocionais. Estes temas acompanham os segmentos de plataformas de forma narrativa, com cânticos que servem tanto como instruções como exposição da história. Alguns destes momentos, aliados ao que acontece no ecrã, são extremamente emotivos – daquelas experiências que só um videojogo é capaz de proporcionar.
South of Midnight é claramente um fruto de carinho e dedicação, uma aventura que aposta na sua identidade visual forte e na ligação emocional com o jogador através de histórias ressonantes de uma protagonista tão forte como débil. O seu registo artístico inspirado no folclore sulista americano e na animação stop-motion invulgar em videojogos destacam a sua apresentação distinta, e a sua banda sonora, rica em temas orquestrais e composições vocais envolventes, reforça ainda mais peso emocional à jornada. A simplicidade da jogabilidade, com um combate funcional, mas pouco variado, pode deixar algo a desejar, mas nunca compromete a essência da experiência. No final, é um jogo que não procura apelar às massas, mas que oferece uma viagem memorável, carregada de momentos marcantes e de uma atmosfera única, num registo que merece ser mais explorado na indústria.
South of Midnight tem lançamento oficial no dia 8 de abril e fica disponível no Xbox Game Pass Ultimate e PC Game Pass no mesmo dia.
Cópia para análise cedida pela Xbox Portugal.