Reigns: The Witcher atinge os seus limites rapidamente, mas até lá é um autêntico vício e uma delícia para os fãs de ambas as séries, evocando algumas das melhores coisas que The Witcher 3 tem para oferecer, num formato tão simples e fácil de experimentar.
Entrei em Reigns: The Witcher completamente às escuras. Apesar de ser um grande fã de The Witcher – em particular de The Witcher 3 -, Reigns já é uma completa novidade para mim, assim como este crossover recém-editado pela irreverente Devolver Digital. Por essas razões, não sabia mesmo o que esperar deste jogo independente, que se revelou estranhamente viciante (até certo ponto), com um nível de investimento pessoal e mental tão reduzido.
Jogos como este são um autêntico devorador de tempo. Fáceis de compreender, intuitivos de jogar e, quando damos por nós, são 3 da manhã e não produzimos nada ao longo do dia. Pura droga. Para quem não conhece o conceito de Reigns, desenvolvido pela britânica Nerial, a sua descrição pode ser extremamente simples. São jogos ao estilo de visual novels, baseados em diálogos de escolhas binárias, que resultam num viciante “choose your own adventure” com mecânicas de Tinder (swipe left ou swipe right), onde o objetivo passa por fazer o máximo de interações até o jogo nos apresentar uma barreira.

Já a adaptação para The Witcher é extremamente interessante, pois não só pega nos aspetos mais fortes dos jogos da CD Projekt RED, como insere também alguma da sua identidade, de uma forma tão bem combinada que Reigns: The Witcher funciona mesmo como um verdadeiro spin-off de The Witcher 3.
A premissa do jogo coloca Dandelion, o amigo bardo de Geralt, em frente às plateias a contar emocionantes histórias e aventuras do nosso protagonista caçador de monstros, com contos únicos e aleatórios, onde em cada sessão o jogador enfrenta um extenso leque de personagens que pedem ajuda ou conselhos a Geralt. São interações binárias, inspiradas nas conversas com NPCs que nos dão quests em The Witcher 3, que fazem um excelente trabalho ao evocar o mesmo nível de envolvimento e imersividade, com escolhas que recorrem a expressões e frases que conseguimos ouvir com a voz de Doug Cockle (mentalmente, porque o jogo não tem voice acting), ao mesmo tempo que nos fazem também encarnar a personagem.
Swipe à esquerda, swipe à direita, existe sempre uma coesão temática com as personagens que vamos encontrando, com cada sessão a testar a nossa capacidade diplomática de agradar a quatro fações, representadas por quatro ícones que se vão preenchendo. Essas métricas são importantes, pois agradar demasiado a uma fação ou agradar pouco a outra pode ditar o fim da aventura, que termina normalmente com Geralt morto e de formas quase sempre engraçadas.

Esta filosofia de “ver até onde se chega” não é o único aspeto que torna Reigns: The Witcher viciante. À medida que vamos jogando, vamos recebendo perks especiais em forma de cartas, de utilização passiva, que ajudam a manter esse equilíbrio, a chegar a mais conversas e até a usar em pequenos segmentos de combate, que são uma novidade nesta edição de Reigns.
Em certos momentos, há pequenas interações onde, numa espécie de jogo de Tetris, em que em vez de encaixar peças temos de estudar a cadência de ataques para nos desviarmos e, quando possível, usar cartas para derrotar os inimigos – normalmente inspiradas nos poderes de Geralt. Estes combates não são uma constante, mas ajudam a entregar pequenos twists aleatórios às histórias.
Para suportar toda esta experiência, há que destacar a incrível arte de Reigns: The Witcher, que mantém o registo artistico low-poly da série principal, aqui temático ao universo The Witcher, extremamente bem adaptado, ao mesmo tempo que se faz acompanhar da banda sonora de Marcin Przybyłowicz e Mikołaj Stroiński, com os temas medievais e folclóricos de The Witcher 3 a fazerem a cama das nossas aventuras.
Pela sua simplicidade, Reigns: The Witcher é um jogo difícil de descrever, mas fácil de compreender assim que se joga. E também é rapidamente fácil perceber porque é que estes dois mundos tão distantes um do outro, Reigns e The Witcher, funcionam tão bem fundidos. Reigns: The Witcher é, assim, uma experiência única e deliciosa. No entanto, poderá ser tudo isso apenas para quem for minimamente fã de The Witcher ou de jogos passivos como este. Porque este vício e a vontade de fazer mais aventuras também têm os seus limites, especialmente quando o objetivo final de Reigns: The Witcher é apenas a repetição constante.
Reigns: The Witcher está disponível para PC, iOS e Android.
Cópia para análise (versão PC) cedida pela Cosmocover.
