Com 44 salas de cinema em risco, o Governo vai mudar o processo de desafetação e avançar com um estudo sobre públicos e formação de programadores.
Os pedidos de desafetação de salas de cinema em Portugal aumentaram de forma acentuada em 2025 e continuam a subir este ano, somando agora 44, segundo o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto. Face a este cenário, a tutela anunciou alterações ao processo de avaliação desses pedidos e acolheu quatro recomendações do grupo de trabalho criado para estudar a crise na exibição cinematográfica, com implementação prevista para a segunda metade do ano.
Diz o Público (acesso pago) que, entre as mudanças anunciadas, está a passagem do processo de desafatação a um modelo mais alargado, que deixa de depender apenas da Inspecção-Geral das Actividades Culturais e passa a envolver também os municípios, o Instituto do Cinema e do Audiovisual, a Direcção-Geral das Artes e a Cinemateca Portuguesa. A alteração implica mexidas na Lei do Cinema e no Decreto-Lei n.º 23/2014, que regula o procedimento de desafectação de recintos de exibição cinematográfica.
O relatório do grupo de trabalho mostra que os pedidos de desafetação nunca tinham sido tão numerosos desde 1991 como em 2025. Já em 2024 se tinha sentido uma tendência de subida, com cinco pedidos apresentados por multiplexes que, no total, têm 29 ecrãs, mas em 2025 a vaga tornou-se mais expressiva. Dos processos referidos, apenas dois foram autorizados até agora, ficando os restantes em fase de instrução ou pendentes.
O preço dos bilhetes surge também como dado relevante na leitura da evolução do mercado. Entre 2014 e 2025, o custo médio de uma entrada no cinema passou de 4,19 para 6,47€, num contexto em que os portugueses perderam poder de compra. Ao mesmo tempo, o número de salas continua a diminuir, embora o total exacto dependa da fase em que se encontrem os processos de desafetação em curso. O relatório menciona ainda casos como o dos Cinemas Alvaláxia, em Lisboa, fechados no final do ano passado, e que ilustram a redução da oferta em zonas urbanas com maior visibilidade pública.
O grupo de trabalho propôs ainda outras medidas que, para já, não foram acolhidas pela tutela, incluindo a criação de salas multiponto, a introdução de um selo de proximidade ou de autor para certificação de qualidade e inovação, a exibição de filmes portugueses já digitalizados em espaços da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses e em teatros municipais, e a criação de um Passe Nacional de Cinema Independente, inspirado no modelo neerlandês Cineville. O documento propõe também um levantamento de equipamentos com potencial para acolher cineclubes.
