Um recente estudo revela que houve uma queda considerável no registo de uso de inteligência artificial na criação de conteúdos para jogos.
Não deverá ser grande novidade que muitos produtores de videojogos não estão confortáveis ou disponíveis para recorrer a tecnologias novas como ferramentas de inteligência artificial generativa, na produção dos seus jogos. Desde as implicações criativas que impactam projetos, passando pela ética, moral e legalidade destes processos, culminando também na receção negativa do público face à possível existência de conteúdos gerados por IA nos seus jogos.
Por isso, também não deverá ser surpresa que a adoção de ferramentas de inteligência artificial generativa esteja a cair a pique, como revela um novo estudo da Game Developer Collective (informação de acesso pago).
Os dados apresentados pelo grupo de investigação mostram que essa adoção entrou em declínio rapidamente após um interesse alto e pontual na primeira metade de 2025. Desde então, esse interesse parece ter-se dissipado consideravelmente. Atualmente, em 2026, apenas 29% dos produtores inquiridos afirmam que usaram ferramentas de inteligência artificial generativa, um valor mais baixo que os 36%, que responderam de igual forma no mesmo período do ano passado.
Ainda assim, estes 29% ainda são superiores ao registado entre 2024 e 2025. Na primeira metade de 2024, 24% dos inquiridos afirmavam ter usado este tipo de ferramentas nos seus projetos, interesse que subiu rapidamente na primeira metade de 2025, mas que na segunda já mostrou novamente uma queda para os 32%.
Esta quebra acompanha também uma mudança na forma como muitos produtores encaram o impacto destas ferramentas na indústria. Num relatório divulgado no verão passado pelo portal GameDeveloper, cerca de 47% dos produtores inquiridos afirmavam estar preocupados com o impacto negativo que a inteligência artificial generativa poderá ter na qualidade dos jogos. Em contraste, apenas 11% acreditava que a tecnologia poderia ter um efeito positivo.
Essa perceção também parece refletir-se na forma como os produtores encaram os potenciais custos associados ao uso destas ferramentas. Na primeira metade de 2025, cerca de 27% dos inquiridos acreditavam que a inteligência artificial generativa poderia ajudar a reduzir custos de desenvolvimento. No início de 2026, esse valor desceu para 21%. Ao mesmo tempo, aumentou o número de produtores que acreditam que a adoção desta tecnologia poderá, na prática, acabar por aumentar os custos de produção.
Outros estudos apontam para conclusões semelhantes, embora com algumas variações. Outro inquérito realizado no GDC Festival of Gaming indica que cerca de um terço dos produtores utiliza ferramentas de inteligência artificial generativa, um valor próximo do registado pela Game Developer Collective. Ainda assim, metade dos inquiridos afirma acreditar que esta tecnologia poderá ter um impacto negativo na indústria.
A adoção destas ferramentas também varia consoante a região. Tanto o estudo da Game Developer Collective como o do GDC têm sobretudo respostas de produtores da América do Norte e da Europa. No Japão, dados divulgados pela Computer Entertainment Supplier’s Association – organização responsável pela Tokyo Game Show – indicam que cerca de 51% dos produtores afirmam utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa.
Existem, no entanto, relatórios que apresentam números bastante diferentes. Um inquérito conduzido em agosto de 2025 pela Google Cloud, em parceria com a Harris Poll, indicava que 87% dos produtores utilizavam algum tipo de agente de inteligência artificial nos seus fluxos de trabalho. Metade dos participantes referia que estas ferramentas ajudavam a acelerar tarefas como playtesting, equilíbrio de mecânicas, localização e tradução de conteúdos, ou geração de código e apoio na criação de scripts. Apesar destas diferenças entre estudos, um indicador que continua a crescer é o número de jogos lançados no Steam que assumem utilizar conteúdos gerados com recurso a inteligência artificial generativa.
Ao mesmo tempo, estas tecnologias continuam a ser alvo de críticas dentro da própria indústria. Entre as preocupações mais frequentemente apontadas estão o impacto ambiental associado aos sistemas de inteligência artificial, a possível utilização de obras protegidas por direitos de autor no treino dos modelos, a sustentabilidade financeira de várias empresas do setor e as consequências que estas ferramentas poderão ter no futuro do desenvolvimento de videojogos.
