Nova empresa mantém dois estúdios, promete pelo menos 30 filmes por ano e integra serviços de streaming como Paramount+, HBO Max e Pluto.
A Paramount Skydance Corporation e a Warner Bros. Discovery chegaram a acordo para uma fusão que dará origem a um novo grupo global de media e entretenimento, já depois da saída de cena da Netflix.
A Paramount irá adquirir 100% do capital da WBD, pagando 31 dólares em numerário por cada ação, num negócio que avalia a dona da HBO e da CNN em 81 mil milhões de dólares de valor de capital e 110 mil milhões de valor empresarial, com a operação a assentar numa combinação de novo capital próprio e dívida. A transação foi aprovada por unanimidade pelos conselhos de administração das duas empresas e deverá ficar concluída no terceiro trimestre de 2026, ainda sujeita às aprovações regulatórias habituais e ao voto dos acionistas da WBD, previsto para o início da primavera. Caso a transação não esteja fechada até 30 de setembro de 2026, os investidores da WBD passam a ter direito a um “ticking fee” de 25 cêntimos por ação, pago por cada trimestre completo até ao fecho.
O futuro grupo quer posicionar‑se como “empresa de próxima geração” na confluência entre tecnologia e narrativa audiovisual, apostando numa combinação de estúdios de cinema e televisão, plataformas de streaming e canais lineares. O plano passa por manter em operação os dois grandes estúdios, reforçar a capacidade de atrair e reter talento de topo e garantir uma produção anual mínima de 30 longas‑metragens para cinema, ou seja, 15 por cada estúdio. A empresa compromete‑se a assegurar estreia em sala para todos os filmes, com um período exclusivo de pelo menos 45 dias a nível global antes da disponibilização em vídeo on demand pago, apontando, sempre que possível, para janelas de 60 a 90 dias nos títulos de maior sucesso. A partir daí, os filmes seguem a lógica de lançamento de sempre, incluindo VOD, e, por fim, serviços de streaming por subscrição, respeitando ainda os regimes específicos de alguns mercados, como o francês.
No streaming, o objetivo é combinar as ofertas Paramount+ (cujos conteúdos em Portugal estão disponíveis através da SkyShowtime), HBO Max e Pluto (não disponível em Portugal) numa operação direta ao consumidor com maior escala, alcance e capacidade de monetização, apresentada pelas empresas como um novo concorrente de peso num mercado dominado por alguns grandes serviços. A fusão é também justificada com argumentos “pro‑concorrência”: os responsáveis sublinham que a integração permitirá alargar a escolha para o público e criar mais oportunidades para criadores e trabalhadores do setor, ao mesmo tempo que mantém uma forte presença num “ecossistema” aberto de licenciamento e de compra de conteúdos a terceiros. Apesar do foco no digital, o grupo insiste que continuará a investir em redes de cabo e canais em sinal aberto, agregando um portefólio alargado de canais de entretenimento, desporto e informação, com a promessa de maior eficiência financeira e de uma oferta publicitária integrada para os anunciantes.
Em termos de catálogo, o novo gigante passará a controlar uma biblioteca de mais de 15.000 filmes e milhares de horas de televisão, bem como algumas das franquias mais rentáveis e reconhecidas da indústria, entre as quais Harry Potter, Missão Impossível, O Senhor dos Anéis, Game of Thrones, o universo DC, Teenage Mutant Ninja Turtles, Transformers, Star Trek e SpongeBob SquarePants. A isto soma‑se um conjunto vasto de direitos desportivos, incluindo campeonatos norte‑americanos como a NFL, NHL e competições universitárias, ligas como a Big Ten e a Big 12, a PGA Tour, o UFC e eventos de relevo mundial como os Jogos Olímpicos e a Liga dos Campeões, com a empresa a salientar a possibilidade de reunir estas transmissões em várias plataformas sob a mesma “casa”, ainda que tudo dependa depois de licenças a nível local. A dimensão internacional é outro dos trunfos que os grupos reclamam: a rede combinada estende‑se a mais de 200 países e territórios, com canais de cabo e generalistas, o que, defendem, facilitará a circulação global de conteúdos produzidos localmente e a resposta às preferências de públicos distintos.
A operação, que não depende de condições de financiamento, levou à retirada da anterior oferta pública de aquisição em numerário que a Paramount tinha em cima da mesa para a WBD. Em declarações incluídas no anúncio, David Ellison, presidente e CEO da Paramount, sublinha a ambição de “honrar o legado” de duas empresas icónicas e, ao mesmo tempo, acelerar a construção de um grupo virado para o futuro, enquanto David Zaslav, presidente e CEO da Warner Bros. Discovery, fala numa transação que maximiza o valor de ativos “icónicos” e de um estúdio com um século de história, oferecendo, diz, o maior grau possível de certeza aos investidores.
O timing deste acordo não deixa, no entanto, de ser curioso, dado que, no passado dia 17 de fevereiro, a WBD tinha anunciado a convocação de uma assembleia especial de acionistas para 20 de março, com o objetivo de aprovar a transação com a Netflix. Por sua vez, a gigante do streaming desistiu do negócio na passada quinta-feira, dia 26 de fevereiro, argumentando que o preço exigido tornava o acordo financeiramente inviável. A empresa destacou que continuará a crescer organicamente, prevendo investir cerca de 20.000 milhões de dólares em filmes e séries durante 2026, além de retomar o seu programa de recompra de ações.
