Em 2025, o sistema financeiro processou 35 mil milhões de euros em créditos, com 612.000 pessoas a recorrerem a empréstimos pessoais.
O paradigma do crédito em Portugal sofreu uma alteração estrutural profunda, transitando de um instrumento financeiro de investimento para um mecanismo de sobrevivência diária. A escalada do custo de vida e a inflação consolidaram a figura do trabalhador pobre, um perfil demográfico composto por cidadãos com contratos de trabalho estáveis que, perante a erosão do poder de compra, dependem de empréstimos e cartões de crédito para garantir o acesso a bens essenciais. De acordo com o Diário de Notícias (acesso pago), dados do Gabinete de Proteção Financeira da Deco refletem esta realidade alarmante sobre o endividamento das famílias portuguesas: apenas durante o ano de 2025, a associação contabilizou cerca de 30.000 pedidos de auxílio motivados por situações de sobre-endividamento crónico. A desadequação entre os rendimentos auferidos e as despesas correntes eliminou as almofadas financeiras, empurrando a população para uma espiral de dívida cujo travão se afigura complexo.
Este cenário de asfixia financeira e endividamento crescente resulta de uma sucessão de choques macroeconómicos. A pressão inflacionista agravou-se no biénio de 2025/2026 devido a novos vetores de instabilidade, desde fenómenos climáticos extremos, que destruíram infraestruturas em fevereiro, a tensões geopolíticas no Médio Oriente, que mantêm os preços da energia e dos bens alimentares em patamares críticos. Desde o início do mais recente choque petrolífero, os combustíveis encareceram perto de 30%. Simultaneamente, o custo do cabaz alimentar essencial fixou um novo máximo histórico em Portugal. A informação divulgada pela Deco Proteste indica que um conjunto de 63 produtos básicos representa agora uma despesa de 254,99€, o que traduz um encarecimento superior a 35% face a 2022, com flutuações semanais severas em bens específicos que destroem qualquer planeamento orçamental doméstico.
A resposta direta a este desfasamento entre o custo de vida e os salários médios reflete-se na acumulação de passivos bancários. As análises da Deco demonstram que as famílias portuguesas que recorrem à instituição gerem, em média, cinco responsabilidades de crédito em simultâneo. Este portefólio de dívida integra, habitualmente, um crédito à habitação, dois créditos pessoais e dois cartões de crédito. O agravamento do risco financeiro manifesta-se na utilização frequente destas soluções onerosas para liquidar despesas correntes do dia a dia. O estudo do European Consumer Payment Report de 2025 corrobora esta prática, revelando que 46% dos inquiridos em Portugal admitiram ter recorrido ao cartão de crédito no semestre anterior especificamente para pagar contas da casa e despesas de supermercado. A armadilha do pagamento mínimo, utilizada para libertar limite provisório, alimenta juros compostos que transformam o recurso ao crédito ao consumo numa dependência financeira estrutural, forçando a contração de novos empréstimos rápidos para cobrir as obrigações anteriores.
O panorama macroeconómico validado pelos indicadores do Banco de Portugal ilustra com precisão a dimensão deste fenómeno no país. Durante 2025, o sistema financeiro processou 2,2 milhões de novos contratos de crédito, mobilizando um montante global na ordem dos 35 mil milhões de euros. O crédito pessoal assumiu um peso expressivo neste bolo, representando cerca de 17% do volume total e abrangendo 612.000 pessoas, sendo que metade destes consumidores solicitou montantes de baixo valor, iguais ou inferiores a 4.000€. Cerca de 9% destes contratos foram estabelecidos com cidadãos estrangeiros. O regulador financeiro emitiu alertas claros indicando que, embora não exista um descontrolo sistémico generalizado, a retoma acentuada do crescimento do crédito ao consumo constitui um sinal de fragilidade económica, incidindo com particular gravidade sobre os agregados familiares de menores rendimentos.
