Durante anos, foi um desejo adiado. Agora, a empresária Viviane Rocha, que deixou a sua marca na Vela Latina ou na Confraria, recupera um ícone de Cascais onde se perderam fortunas ao jogo, transformando-o na Casa do Largo.
Quem atravessa o Largo da Assunção, no centro histórico de Cascais, encontra no número 6 uma fachada discreta, típica da traça da vila. Mas o interior guarda memórias de um passado agitado. “Havia aqui uma sala de jogos clandestina no piso superior, onde se perderam fortunas e carros”, conta Viviane Rocha. A empresária, rosto conhecido da restauração local, recupera agora este espaço mítico, concretizando um desejo antigo: há quase duas décadas que tentava adquirir a gestão desta casa.
Depois de um percurso marcado pela passagem pela Confraria e pela sociedade no grupo Vela Latina (onde esteve ligada a marcas como o Nikkei ou o Forest), a Casa do Largo marca a “alforria” de Viviane. É o seu primeiro projeto a solo, nascido da vontade de criar um espaço que não fosse apenas um restaurante, mas uma extensão de casa, sendo a concretização de um sonho antigo. “É uma responsabilidade enorme intervir num edifício tão emblemática e com tanta história”, admite. “Toda a gente sabe onde é a Casa do Largo”, sendo, por isso, um local que quase dispensa apresentações para quem vive em Cascais.
A reabilitação do imóvel foi profunda e exigente. O objetivo era manter a identidade original, adaptando-a ao conforto contemporâneo. A intervenção mais radical aconteceu nas traseiras: o que Viviane descreve como uma antiga “espécie de garagem” foi demolido para dar lugar a um luminoso jardim interior.
Esta alteração permitiu transformar a dinâmica do restaurante, duplicando a capacidade de 48 para cerca de 96 lugares nos meses de verão. O projeto de interiores, assinado em colaboração com a designer Rita Valadão, trouxe para o espaço a luz de Cascais, apostando em madeiras, tons quentes e uma lareira que domina a sala principal. A antiga zona de jogo, na mezzanine, deu lugar a um espaço mais intimista, vocacionado para jantares privados onde a privacidade é prioritária.
À mesa, a filosofia da Casa do Largo é uma declaração de intenções contra o excesso de processamento. “A ideia foi não inventar muito. A carne é carne, o peixe é peixe”, resume a proprietária. A aposta recai sobre a qualidade absoluta da matéria-prima, trabalhada numa cozinha de conforto portuguesa com apontamentos mediterrânicos.
A liderança dos fogões faz-se a duas vozes. A chefia executiva diária pertence a Daisy Anjos, um jovem talento que assume aqui o seu primeiro grande desafio de comando. A suportá-la está a experiência de 35 anos do Chef Benjamin Vilaça, consultor do projeto e responsável pelo desenho da carta.
Desta sinergia entre gerações resulta uma ementa segura. Nas entradas, o destaque vai para o Carpaccio com Queijo da Ilha ou o Pica-Pau do Lombo. Nos pratos principais, a tradição impõe-se com o Bife à Marrare e as Plumas de porco preto com arroz de morcela, sem esquecer o mar, presente na Garoupa braseada, nas Vieiras com molho de açafrão, nas Gambas Tigre com Arroz de alho ou, até, no Sashimi de Atum braseado.
Já nas sobremesas, podem escolher entre a Delícia de Chocolate, o Mil Folhas com Creme e Frutos Vermelhos e a Torta de Ananás com Gelado de Coco.
O ambiente da Casa do Largo reflete uma gestão vincadamente feminina, focada nos detalhes e na arte de bem receber. Com horário contínuo do meio-dia à meia-noite, a Casa do Largo posiciona-se em contraciclo com a pressa dos dias de hoje, convidando a almoços tardios que se prolongam pela tarde. “Fácil de chegar, mas difícil de sair” é o mote de uma casa que quer recuperar o estatuto de ponto de encontro da sociedade cascaense.
Aberto em soft opening desde o final de dezembro, a Casa do Largo aposta também na dinamização cultural. A agenda de eventos arrancou em janeiro com jantares temáticos – o primeiro dedicado a Espanha, com sevilhanas -, prometendo cruzar regularmente a gastronomia com a música e o entretenimento ao longo do ano.
