Com estátuas de 1925, uma atmosfera que respira os loucos anos 20 e um menu executivo que desafia a zona turística, fomos conhecer o novo Café de São Bento, nascido entre as paredes históricas do edifício da Fundação Benfica, na Rua das Portas de Santo Antão.
Ao entrar no novo espaço do Café de São Bento, situado no número 7 da Rua do Jardim do Regedor, com o Coliseu e o Teatro Politeama ali bem perto, respira-se uma atmosfera que oscila entre o conforto clássico e a imponência museológica. O restaurante, que abriu a 15 de janeiro, é o resultado de um processo iniciado há cerca de dois anos e meio, quando a operadora Feels Like Home venceu o concurso para a exploração hoteleira do edifício, propriedade da Fundação Benfica (e onde atuamente existe o 1904 Benfica Hotel). O desafio lançado à marca foi claro: criar um restaurante que mantivesse a identidade do original, mas que se adaptasse a uma escala e localização diferentes.
O local escolhido carrega um peso histórico assinalável. Onde hoje se ouve o ruído dos talheres e o verter do vinho nos copos, funcionou, na década de 1920, o Bristol Club. Este antigo espaço de lazer, famoso pelos seus concertos e salas de jogo – numa época em que o jogo era uma constante na zona antes da proibição do Estado Novo -, deixou marcas que a nova gerência fez questão de preservar. O destaque maior vai para as duas estátuas monumentais que ladeiam a sala, da autoria de Leopoldo de Almeida, o escultor responsável pelas figuras do Padrão dos Descobrimentos. Datadas de 1925, estas peças de arte, que chegaram a ser equacionadas para o espólio da Gulbenkian, permaneceram no edifício, tornando-se agora as guardiãs silenciosas das refeições dos novos clientes.
Miguel Garcia, o responsável pelo espaço, é perentório ao explicar a filosofia desta expansão. “Isto não é um franchise tipo pipocas”, afirma, rejeitando a massificação da marca. O objetivo foi criar um restaurante com “vida própria”, que, embora inserido numa unidade hoteleira, funcione de forma totalmente independente, com entrada direta pela rua e sem o estigma de ser apenas “o restaurante do hotel” onde se servem pequenos-almoços. A decoração segue fielmente a linha da casa-mãe: as cadeiras, as mesas, o uso extensivo de mogno e os veludos recriam aquele “conforto penumbroso” que faz parte do ADN do Café de São Bento há mais de 40 anos.
Mas se a decoração respeita o passado, a cozinha, liderada pelo Chef João Santos, aproveita as novas condições para inovar. Ao contrário da cozinha exígua do restaurante original, que limita a operação a cerca de 50 lugares e a uma carta mais reduzida, a nova infraestrutura do Café de São Bento na Baixa permitiu alargar a oferta gastronómica, com uma cozinha de maiores dimensões capaz de servir refeições para um máximo de 70 pessoas, incluindo lugares ao balcão – está prevista a instalação de uma estrutura para apoiar essa zona e dar-lhe maior presença visual.
A nossa refeição no Café de São Bento arrancou, claro, com as entradas. Chegaram à mesa os Peixinhos da Horta, provavelmente dos melhores que comemos nos últimos anos. E muito graças à sua textura – não estando moles, como aqueles que dobram -, com uma polme estaladiça e o feijão verde al dente, numa tempura muito bem executada com maionese de citrinos. Seguiram-se as Ameijoas à Bulhão Pato, cujo molho de vinho branco, azeite, alho e coentros estava tão delicioso que demos por nós a molhar várias fatias de pão… Ah, e não nos podemos esquecer dos sempre obrigatórios Croquetes de Novilho (recomenda-se vivamente que usem e abusem da mostarda que vem no prato).
Há também outra entrada obrigatória, o Steak Tartare, que é basicamente lombo de novilho picado, temperado como manda a tradição – e com um nível de picante bem interessante! -, e servido com tostas. Caso para dizer que tão rápido chegou à mesa como desapareceu.
O incontornável Bife à Café de São Bento, com o seu molho secreto criado em 1982 – descrito ironicamente pelo chef como “o segredo é não ter segredos, é fazer o básico bem feito” -, continua a ser o ex-líbris. Para quem não sabe, a genealogia de um dos pratos mais emblemáticos de Lisboa remonta ao final do século XVIII, com a chegada do napolitano António Marrare à capital. Foi nos seus históricos cafés, no início do século XIX, que nasceu a receita do bife que se tornaria uma instituição alfacinha.
Séculos mais tarde, em 1982, os fundadores do Café de São Bento recuperaram essa herança. Após um processo inicial de afinação da receita original, a fórmula estabilizou e permanece inalterada até hoje. Há mais de quatro décadas que a casa serve aquele que é frequentemente aclamado pela crítica e pelo público como o melhor bife de Lisboa. O segredo do sucesso reside numa combinação guardada a sete chaves: a qualidade do corte, a técnica de confeção e, claro, o inconfundível molho que atravessa gerações.
Para além do famoso bife, a carta apresenta novidades exclusivas desenhadas para esta localização. Destaca-se a reinterpretação do Bife à Marrare, um clássico lisboeta que estava a cair no esquecimento, aqui servido com um molho enriquecido com cogumelos e natas. Há ainda o Bife à Portuguesa, servido com alho, louro e batatas fritas às rodelas, e o imponente Chateaubriand para duas pessoas, sendo trinchado na sala em frente aos clientes.
A grande “rutura” com a tradição da casa-mãe do Café de São Bento surge, contudo, na introdução de pratos de peixe, pensados para responder à diversidade de clientes da zona turística. As opções incluem Filetes de Peixe-Galo, que provámos, surgindo no prato acompanhados por um arroz de tomate e molho tártaro, que imediatamente nos remetem para os pratos de conforto – o limão em cima dos filetes é opcional, tal como disse o chef, e é por isso que vem à parte. Outro prato de peixe é também o inconfundível Bacalhau à Brás. A lógica é clara: evitar twists gratuitos que comprometam o sabor e a memória.
Para terminar em beleza, demos umas colheradas na Tarte de Lima, bem fresca e docinha, e no Soufflé de avelã com gelado de baunilha, sobremesa exclusiva desta morada do Café de São Bento, com um travo bem evidenciado ao famoso fruto seco. Atenção que, neste último caso, têm de esperar uns 15 minutos, uma vez que é confecionado na hora.
Consciente da realidade empresarial da Baixa Lisboeta, o Café de São Bento lançou um Menu Executivo, disponível aos dias úteis (de segunda a sexta-feira) exclusivamente ao almoço. Com o preço fixo de 29€, esta opção foi desenhada para ser competitiva e completa, incluindo couvert, bebida e café. O cliente tem a liberdade de escolher a composição da refeição: pode optar por uma Entrada e um Prato Principal, ou, em alternativa, um Prato Principal e uma Sobremesa. As opções de prato principal neste menu variam entre um dos bifes da casa ou um dos pratos de peixe, garantindo que a qualidade não é comprometida pelo formato mais económico.
No fim de tudo, fica a certeza de que o novo Café de São Bento na Baixa não se limita a replicar uma fórmula de sucesso. Assume-se como um tributo à história da cidade, ao mesmo tempo que adapta a sua oferta gastronómica aos tempos modernos.
