A direção do Benfica voltou a defender o projeto Benfica District, avaliado em cerca de 220 milhões de euros, garantindo que é autossustentado e não compromete o investimento desportivo.
A direção do Benfica voltou esta sexta-feira a colocar o Benfica District no centro do debate associativo, numa conferência de imprensa realizada no Estádio da Luz, a poucas horas da Assembleia Geral Extraordinária em que os sócios irão decidir se o projeto avança.
O Benfica District representa um investimento global estimado em cerca de 220 milhões de euros e prevê uma profunda requalificação da zona envolvente ao Estádio da Luz, bem como intervenções significativas no próprio recinto. O plano inclui a construção de três novos pavilhões, um deles com capacidade para aproximadamente 10.000 espetadores, uma piscina comunitária, um teatro, espaços comerciais, um hotel e zonas verdes, além de alterações ao sistema de acessos, estacionamento e transportes públicos. Está ainda prevista a expansão da lotação do estádio para cerca de 80.000 lugares, através do rebaixamento do relvado, sem necessidade de encerramento do recinto durante as obras.
Nuno Catarino, vice-presidente e responsável pela área financeira, sublinhou que o Benfica District foi desenhado para ser financeiramente autossustentado, garantindo que são as receitas geradas pelo próprio complexo que asseguram o pagamento do financiamento associado. De acordo com os números apresentados, a expectativa é de uma receita bruta anual a rondar os 37 milhões de euros, que, depois de descontados os custos operacionais, resultaria numa contribuição líquida próxima dos 24 milhões. O plano de financiamento está estruturado para um horizonte de 15 anos, prazo que, segundo a direção, oferece margem suficiente para acomodar eventuais derrapagens sem colocar em causa as contas do clube.
Catarino insistiu que o avanço do Benfica District não limita nem condiciona o investimento no futebol profissional ou nas modalidades. Ainda assim, o próprio dirigente reconheceu que se trata de um empreendimento complexo, admitindo que não existem todas as respostas nesta fase e que há um caminho técnico e administrativo significativo a percorrer antes do início efetivo das obras.
A meta apontada pela direção é ter o projeto aprovado pelas entidades competentes a tempo do Mundial 2030, embora o risco de incumprimento de prazos seja assumido como inerente a iniciativas desta dimensão. Para reforçar a confiança, Catarino recordou a experiência do Benfica na construção do atual Estádio da Luz, concluído num prazo considerado curto para a escala da obra, usando esse precedente como argumento de credibilidade.
José Gandarez, também vice-presidente, centrou a sua intervenção no impacto do Benfica District na experiência dos adeptos e no modelo de receitas do clube. O dirigente defendeu que o projeto permitirá criar uma centralidade diária de atividade em torno da Luz, transformando uma zona tradicionalmente ativa apenas em dias de jogo num espaço permanentemente vivido.
É neste contexto que surge o pavilhão de 10.000 lugares, uma das infraestruturas mais mediáticas do projeto. Gandarez explicou que esta dimensão cumpre os requisitos mínimos ao nível de infraestrutura para acolher uma eventual NBA Europa, no âmbito da anunciada expansão da liga norte-americana para o continente europeu. Ainda assim, fez questão de sublinhar que os critérios financeiros exigidos pela NBA são elevados e que não é certo que o Benfica os consiga cumprir no futuro, relativizando expectativas e apresentando essa possibilidade como um cenário potencial, não como um objetivo estratégico imediato.
Manuel Brito, outro vice-presidente, trouxe para a conferência a vertente ambiental e de sustentabilidade, uma das áreas que mais preocupações tem gerado entre os sócios. O projeto prevê áreas verdes significativas, instalação de painéis fotovoltaicos e reutilização de recursos hídricos, numa tentativa de responder às exigências ambientais atuais e de enquadrar o Benfica District como uma intervenção urbana responsável. A piscina comunitária e os espaços de uso público são apresentados como forma de integrar o complexo na malha da cidade, indo além da lógica estritamente clubística.
São muitas as dúvidas sobre o Benfica District
O Benfica District tem suscitado críticas consistentes, centradas sobretudo na ausência de definição, na fragilidade financeira e na falta de estudos que sustentem a sua viabilidade. Desde logo, a própria direção do clube reconheceu que a proposta ainda não está fechada, assumindo tratar-se de um conceito preliminar, com um nível de detalhe muito aquém do que seria exigível numa fase de aprovação. Não existe um verdadeiro estudo prévio, mas apenas um esboço genérico, o que compromete qualquer avaliação séria.
A incerteza estende-se ao orçamento. Os valores avançados variam de forma significativa, admitindo-se um custo que tanto pode ficar pelos 220 milhões de euros como atingir um montante várias vezes superior. A dimensão e diversidade das infraestruturas anunciadas não parecem compatíveis com o orçamento base divulgado, sobretudo num contexto em que o conceito não está suficientemente detalhado.
Também a questão do Estádio da Luz levanta dúvidas. A expansão do recinto não fazia parte do anúncio inicial, tendo surgido apenas mais tarde, após pressão externa, com a direção a referir a encomenda de um estudo autónomo. Essa eventual ampliação colide com o desenho original do Benfica District e introduz novas incógnitas, cujas consequências não foram explicadas. O processo já incluiu alterações relevantes, como a introdução de zonas de safe standing, sem que exista uma visão consolidada do conjunto.
No plano financeiro, os problemas agravam-se pela inexistência de um modelo de financiamento definido. A direção admite não ter ainda um plano estabilizado, o que é coerente com a incerteza sobre o custo final, mas torna irrelevante qualquer projeção financeira apresentada nesta fase.
A viabilidade económica dos diferentes componentes do projeto permanece igualmente por demonstrar. No caso da área comercial, levanta-se a dúvida sobre a capacidade do mercado para absorver um novo centro comercial localizado em frente ao maior do país, atualmente em processo de remodelação e expansão.
O mesmo se aplica ao pavilhão multiusos previsto. O clube regista assistências reduzidas nas modalidades, o que coloca em causa a necessidade e a sustentabilidade de uma estrutura deste género, que pode até, se chegar a existir, a fazer concorrência direta com a MEO Arena.
Quanto às áreas destinadas a hotelaria e escritórios, não é claro se os rendimentos esperados justificam o investimento e a ocupação de espaço numa zona estratégica como a Luz. Coloca-se a questão de saber se faz sentido o clube abdicar de terreno valioso para este tipo de exploração, quais os custos associados e que retorno efectivo poderá ser garantido.
Outro ponto crítico prende-se com a inexistência de uma análise de risco. Num investimento desta dimensão, seria essencial conhecer os cenários negativos, o impacto de um eventual insucesso e os planos de contingência. Nada disso foi apresentado, mantendo-se em aberto o risco de infraestruturas subutilizadas ou mesmo inúteis, com prejuízo direto para o clube ou para a SAD.
Por fim, permanece pouco claro quem suportará efetivamente o investimento. O estádio pertence ao clube, que tem dificuldades reconhecidas em regularizar a dívida à SAD, enquanto muitos adeptos assumem que será esta última a financiar as obras. A repartição de responsabilidades financeiras não está definida, acrescentando mais uma camada de incerteza ao projeto.
