Astória, a estória de um célebre restaurante com a cabeça no presente

Regressámos ao Astória para conhecermos todas as novidades pós-confinamento. E mais uma vez foi incrível.

Astoria
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Após um período desafiante para todos, onde a restauração o sentiu de forma mais intensificada, o célebre restaurante Astória, localizado no Hotel InterContinental – Porto (no Palácio das Cardosas), reabre as portas ao público completamente renovado a nível de decoração, menus e ambiente, sem descurar do rigor e qualidade que tão bem o caracterizam.

Há mais de um século instalado no Palácio das Cardosas, o restaurante Astória sempre primou pela localização privilegiada (em pela zona dos Aliados), pelo modernismo e criatividade na cozinha e pela exigência no que toca à qualidade dos produtos, tipicamente Portugueses. Neste regresso, o intuito foi evidenciar ainda mais a identidade e características da cozinha, ao comando do chef Paulo Leite.

Neste regresso, a cozinha do restaurante vai oferecer duas cartas distintas que se adaptam a qualquer hora do dia: Brunch e Jantar. O intuito desta mudança passou sobretudo por adaptar a oferta à procura, tornando o restaurante menos formal, logo mais descontraído, de forma a poder desfrutar de uma boa refeição com conforto.

O Echo Boomer foi novamente convidado a conhecer as novidades e, no jantar que degustámos, e a experiência não podia ter sido melhor.

O espaço usado pelo Astória destinado a receber os clientes mudou, mas sem sair das instalações do Palácio. A fachada virada para os Aliados foi trocada pela parte interior, virada para o terraço central. A meu ver foi uma decisão acertada, fazendo com que seja possível usufruir de um jantar calmo e tranquilo, isolado do ruído das pessoas e do trânsito que se faz sentir nessa zona.

Ainda relativamente ao espaço, é justo dizer que é bastante agradável, com uma decoração moderna e cuidada. Os tons predominantes são o bege e castanho, complementados pelo verde das plantas espalhadas pela sala e do jardim suspenso, que conferem a este novo espaço um ambiente mais tropical. A exposição à luz natural é a cereja no topo do bolo, em contraste com os candeeiros de luz amarelada.

Calhou ir jantar num dia de imenso calor (as temperaturas chegavam aos 36 graus) e a climatização no interior do restaurante estava perfeita. Complementando este setup perfeito, ainda há direito a música, pelas mãos de um DJ. As sonoridades passam muito por uma seleção que compreende música ambiente, chill out e house soft.

O serviço foi irrepreensível do início ao fim. À entrada do hotel, há uma garantia de que as condições de higiene e segurança implementadas pela DGS são cumpridas, com dispensador de álcool-gel por sensor de presença e medição de temperatura com um dispositivo próprio.

Quando chegámos ao local, foi-nos indicado onde fica o espaço onde opera atualmente o restaurante e, à entrada, existe também dispensador de álcool-gel, em paralelo com uma receção com simpatia e boa disposição. Antes de passar para a mesa de jantar, há a possibilidade de relaxar um bocado acompanhado de um cocktail refrescante, numa mesa mais informal para o efeito.

Na hora de começar a jantar, é com um couvert simples que se começa a acalmar o estômago. A seleção feita conta com um cesto de três qualidades de pão fresco, manteiga de mistura de três leites (vaca, ovelha e cabra) e uma terrina de azeite Cartola – de salientar que tanto os pães como a manteiga são feitos na cozinha do próprio Astória.

De entradas, a carta dispunha de 10 opções bastante distintas, servindo para todos os gostos. As nossas escolhas foram duas: Salada de polvo, agrião e requeijão de cabra (com amêndoa laminada) e Queijo de ovelha Brulée, Presunto Bísaro e Chutney de Tomate, que foi servido com uma terrina de tostas. O segredo nestas duas entradas, bem como nas oito restantes, é a simbiose a nível de sabor da mistura de ingredientes. Podemos dizer que começámos bem, muito bem até.

Para prato principal, grande parte da carta tem como o foco a cozinha no forno a carvão, tanto de peixe como de carne. Os pratos escolhidos foram também dois… e recaíram ambos na carne.

Lombo de Black Angus (ponto médio) com puré de batata e trufa foi um deles, tendo sido uma escolha algo ousada por dois motivos: Nunca consegui apreciar lombo, porque dificilmente o ponto em que é cozinhado ou o tempero é do meu agrado, e porque sou um grande apreciador de puré. Dito isto foi uma escolha “teste”, por assim dizer.

Fui bastante surpreendido, tenho a dizer. Nunca havia provado um lombo tão delicioso e agradável de mastigar. Quase que posso dizer que a minha aversão a carne do lombo foi substituída pelo fanatismo (recorrendo um bocado à hipérbole para demonstrar o quão surpreendido fiquei). Já o puré ainda surpreendeu mais, dando a sensação que a trufa faz maravilhas a nível de paladar (mais doce) e também de efeito ao mastigar, assemelhando-se a um género de pasta, deveras interessante. Este puré tem um sabor inexplicavelmente fantástico, nunca antes por mim saboreado.

O outro prato escolhido foi Wagyu da vazia (mal-passado), com Migas de espinafres, feijão-frade e broa de milho. Também foi uma escolha algo pensada, mas mais em termos comparativos pela positiva, pelo simples facto de ser recorrente fazer a mistura entra carne bovina com migas de acompanhamento. As migas estavam deliciosas e surtiram na perfeição o efeito desejado na combinação com o Wagyu que, sendo das poucas variantes de carne bovina que ainda não tinha provado, foi, sem dúvida, a mais apetitosa e agradável de mastigar que provei na vida.

Para terminar, pude escolher de um leque de sobremesas algo invulgares, das quais as eleitas foram Banana grelhada no carvão, avelãs tostadas e mousse de chocolate e Souffle de mírtilo de Sever do Vouga com gelado de iogurte. A primeira foi escolhida por ser algo invulgar, no entanto a mistura funcionou na perfeição. A segunda foi mesmo pela curiosidade, dado que nunca tinha ouvido falar de souffle de mírtilo, e fiquei fã. Sendo uma sobremesa quente, a ideia de a associar ao gelado de iogurte é boa, na medida em que neutraliza a temperatura, acabando por ser um pedaço de céu a desfazer-se na boca com todo o sabor do mírtilo.

Em paralelo com esta fantástica refeição, pude ainda contar sempre com a atenciosidade, boa educação, descontração e uma boa dose de boa disposição de todos os funcionários do restaurante Astória. Isto foi, sem dúvida, fundamental na forma como desfrutei e apreciei da refeição, sendo que qualquer dúvida que surgisse relacionada com os pratos escolhidos era facilmente esclarecida. Isto mostra que, para além de todos os funcionários saberem exactamente o que têm para oferecer, também há uma boa química interna, cuja transparência ajuda em muito a proliferar e cimentar o conhecimento geral e química de equipa.

O Restaurante Astória volta ao ativo com o objetivo de manter a classe, mas num ambiente mais informal e relaxado. E cumpre na perfeição. A tranquilidade que o novo espaço transmite é perfeita e as quase quatro horas passadas no restaurante voaram sem nunca se tornarem massudas, tal foi a qualidade da experiência.

A premissa é, assumidamente, a de cativar e atrair o público português e, tendo em conta que o português não é, de todo, de cerimónias, este novo look e postura do Astória enquadra-se na perfeição nessa pretensão.

O Astória torna-se, assim, num espaço para ter um jantar de qualidade, seja ele romântico, de aniversário ou até entre amigos onde, apesar de ser um pouco mais caro que o bom restaurante comum, não considero que tenha preços exorbitantes ao nível em que se encontra. Aliás, tendo em conta a qualidade da experiência, da refeição, do atendimento e do profissionalismo, onde no final é garantido que saímos saciados, até é bastante equilibrado no que toca a qualidade-preço.

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