Aquele extremo que brilha no EA FC nem sempre brilha na Primeira Liga. Saibam porquê.
Quem passa as noites no Ultimate Team conhece bem a cena. Compra-se aquele extremo da Primeira Liga com o ritmo nos noventa, faz golos atrás de golos na consola, e no fim de semana liga-se a televisão e o homem não ganha um lance, passa o jogo a pedir uma bola que nunca chega. Ou o contrário. Então, a nota do jogo diz ou não diz a verdade?
Notas de atributos, golos esperados, passes decisivos e duelos ganhos entram nas contas das casas de apostas quando definem as cotas. A Lebull, uma das casas de referência para o campeonato português, tem uma das plataformas mais completas em termos de estatísticas da liga portuguesa.
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Como a EA chega ao número
Convém começar por perceber de onde sai aquele número no canto da carta, porque não é tirado da cartola. A nota global resume dezenas de atributos, e os seis que se veem logo (ritmo, remate, passe, drible, defesa e físico) nem sequer pesam todos o mesmo. Depende da posição.
Num central, defesa e físico valem muito mais do que o drible; num avançado é ao contrário, e assim se explica que dois jogadores com 80 possam ser tão diferentes como a noite e o dia. Ainda há a reputação, que puxa um bocadinho para cima os nomes mais conhecidos.
As notas são feitas pela EA com dados de jogo e com uma rede de colaboradores que acompanha os campeonatos em vários países. Nos últimos anúncios, a EA tem repetido que cada jogador é avaliado tendo em conta a liga e os adversários que tem, por isso um 78 cá não vale exatamente o mesmo que um 78 em Inglaterra.
E nada disto fica parado. Há atualizações e cartas especiais no Ultimate Team ao longo da época, e no EA FC 27 o modo Carreira tem agora uma nota que vai mudando com a forma do jogador. A Liga Portugal está nesta edição e os plantéis estão na página oficial de ratings.
Os números da vida real
Do outro lado estão os números do futebol a sério, que nos últimos anos deixaram de ser só golos e assistências.
O mais falado é o xG, os golos esperados. A ideia é simples: cada remate recebe um valor de 0 a 1 conforme a hipótese que tinha de entrar, olhando para o sítio e para a situação. Um penálti vale muito, um pontapé de trinta metros quase nada. Um avançado com xG alto e poucos golos está a fazer o mais difícil, que é aparecer nos sítios certos, e a bola mais cedo ou mais tarde costuma começar a entrar.
Depois há os passes decisivos, aqueles que deixam um colega a rematar, os duelos ganhos, que são as bolas divididas no chão e no ar, e as recuperações de bola. E os minutos, a que ninguém liga mas que mudam tudo, porque três golos em 300 minutos não é igual a três golos numa época.
Para ver isto não é preciso pagar. O Sofascore e o Zerozero têm as fichas dos jogadores da Primeira Liga e o FotMob tem a tabela da Liga por xG. O FBref, que era a referência de muita gente, ficou sem os dados avançados da Opta.
Quando a carta engana
É aqui que a malta do Ultimate Team costuma ficar surpreendida. O avançado de remate altíssimo que na consola marca de qualquer lado, por exemplo, muitas vezes tem um xG fraquinho na vida real, porque remata de longe e quase não entra na área. O jogo dá muito valor à técnica de remate, o campo dá mais valor ao sítio de onde se remata, e as duas coisas nem sempre andam juntas.
Com o médio é ao contrário. Aquele que ninguém mete na equipa, lento, de drible fraco e nota global sem graça, às vezes é o mais importante do onze, o que liga tudo e anda sempre entre os que mais passes fazem e mais bolas recuperam. Nada disso cabe bem numa carta.
E há o central rapidíssimo, que no jogo é ouro porque o ritmo resolve muita asneira, mas que em campo perde bolas de cabeça e se posiciona mal, até ao dia em que o treinador mete outro, mais lento, que ganha os duelos.
O que se passa é que a nota global é uma média, e as médias escondem muito: o estilo, o papel na equipa, o sistema. Um ponta de lança numa equipa que tem a bola o tempo todo e o mesmo ponta de lança numa equipa que defende baixo e sai em contra-ataque não são bem o mesmo jogador, mas a carta é igual.
Os números sozinhos não chegam
Um jogo não se lê só com números de jogadores. A forma das últimas semanas conta muito, assim como o ritmo das equipas, o estilo de cada treinador e o contexto: se é um dérbi, se houve jogo europeu a meio da semana, se há meia equipa no boletim clínico.
E as próprias estatísticas têm armadilhas. Ao fim de cinco ou seis jornadas a amostra ainda é pequena e dois jogos bons ou dois maus bastam para baralhar tudo. Uma lesão muda o cenário de um dia para o outro. Uma troca de treinador também: há suplentes que passam a titulares e titulares que vão para o banco sem que nenhum número o tivesse previsto.
Ou seja, os números ajudam a perceber o contexto e a fazer melhores perguntas, mas não dão garantias de resultado a ninguém.
Resumindo: a nota do EA FC não conta a história toda
Então, aquele 85 da carta vale mesmo um 85 na Primeira Liga? Nem sempre. As notas do EA FC servem bem como ponto de partida e dão logo uma ideia do jogador que temos à frente, mas não mostram o papel que ele tem na equipa, o sistema em que joga nem o momento de forma que atravessa.
Para a imagem completa é preciso juntar os dados reais e o contexto de cada jogo. O xG diz quem aparece nos sítios certos, os passes decisivos e os duelos ganhos mostram o trabalho que não cabe numa carta, e os minutos jogados indicam se a amostra já chega para tirar conclusões. A isso juntam-se as lesões, o calendário e as escolhas do treinador, que podem mudar tudo de uma semana para a outra.
Quem olha para tudo isto com espírito crítico percebe melhor o futebol, seja na consola ou na bancada. E as apostas, convém lembrar, são só para maiores de 18 anos e com responsabilidade, o que passa por definir um limite antes de começar e nunca tentar recuperar perdas.
