A Super Bock Arena foi a acústica perfeita para a tristeza emocional do passado dos Placebo.
Em 1996, não existiam chamadas de vídeo em smartphones, o WhatsApp era uma miragem, a Netflix era substituída pela televisão tradicional e os álbuns reproduziam-se em lojas de discos. Talvez por este e por mais motivos como este, o lema do concerto que os Placebo deram no passado dia 28 de setembro, na Super Bock Arena, no Porto, foi “Better Without Your Phone. Placebo. Let’s Share This Together”.
Brian Molko, numa voz “matrixizada”, apelava ao silêncio dos telemóveis antes do concerto, de forma a proporcionar uma experiência única de partilha de emoções e de abraçar o desconhecido. Com o pano branco de fundo, ia passando uma introspetiva de imagens (algumas inéditas) em vídeo de 2026 a 1996, sob o lema THE PAST IS THE PRESENT.
Aos primeiros acordes de “Pure Morning”, o público acorreu à chamada como se se tratasse de um bater de sinos numa qualquer igreja, com o manto branco a desfazer-se e a destruir o ceticismo dos 30 anos anteriores. Um dos singles de excelência de toda a carreira abriu todas as hostilidades e caminhos para a faixa título do álbum homónimo, “Come Home”, que chegou sem pedir licença para entrar.
“You Don’t Care About Us” e “Teenage Angst” mantiveram a toada de aceleração necessária para evidenciar que a voz de Brian é ideal para o estilo de rock do grupo britânico. E a versão de estúdio, mas tocada ao vivo de “Bionic”, constituiu uma das boas surpresas da noite.
Para acalmar a noite, surgiu “My Sweet Prince”, uma música sombria e tenebrosa que nos fala da dependência emocional que temos de outro ser humano, mas ao mesmo tempo que nos pode autodestruir aos pedaços.
Tocaram também “Hellen Keller”, o novo single e elemento estranho do alinhamento, por ser a única música do século XXI, e Brian fez questão de realçar que foi a estreia mundial ao vivo deste single, e logo no Porto, local onde passaram os últimos dias a passear, elogiando a comida e a hospitalidade em cada canto do nosso país. Trata-se de uma homenagem a uma escritora e ativista americana que ficou surda e cega na infância, tornando-se uma importante defensora dos direitos de pessoas com deficiência.
A música antecedeu uma discussão (já antiga?!) sobre o uso ou não de aparelhos eletrónicos para filmar partes ou todo o concerto. O vocalista, inclusive, expulsou um fã, avisado antes, que tinha de sair para continuar o espetáculo.
Seguiram-se “Bruise Pristine” e “Nancy Boy”, um luxo que não deixou ninguém indiferente, com muito pouca gente sentada devido à intensidade e eletricidade colocada em cada acorde, cada aceleração das guitarras e da bateria.
Contrariamente ao desejo, à obsessão e dependência desculpável entre duas pessoas, “Every You Every Me” é tocada até à exaustão com uma Super Bock Arena de pé e aos saltos para sentir a conexão emocional dos Placebo neste encore. Para o fim, duas covers: “I Feel You” dos Depeche Mode e “Running Up That Hill” de Kate Bush.
30 anos depois, voltámos aos concertos em que apenas víamos mãos no ar, vozes em uníssono e aquela sensação particular de que estávamos todos exatamente ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Obrigado por isto, Placebo!
Foto: Scarlet Page
