Sabem porque é que a versão portuguesa de Dragon Ball não está disponível em lado nenhum?

- Publicidade -

Sem presença legal no streaming ou na televisão, a dobragem portuguesa de Dragon Ball permanece inacessível devido a litígios de direitos conexos iniciados em 1995.

Neste momento, quem quiser ver o anime de Dragon Ball, assim como os respetivos filmes, em Portugal e de forma totalmente legal, não tem a tarefa facilitada. A partir da Crunchyroll, é possível ver todos os episódios de Dragon Ball Super (na língua original e com legendas em inglês), Dragon Ball DAIMA (na língua original e com legendas em Português do Brasil) e, ainda, o filme Dragon Ball Super: SUPER HERO (dobrado em Português de Portugal).

Já o filme Dragon Ball Super: Broly está disponível na Prime Video e na Netflix, na língua original e com legenda em PT-PT. E basicamente é isso. Ou seja, não há forma legal de ver os animes do Dragon Ball original, de Dragon Ball Z – nem sequer a versão condensada Dragon Ball Z Kai. E muito menos Dragon Ball GT. E não, nem sequer a versão portuguesa das séries existe de forma legal online, permanecendo completamente inacessível por vias legais no território nacional.

Por outras palavras, o anime, dobrado em Português de Portugal, não se encontra disponível em nenhuma plataforma de streaming, canal de televisão ou sequer no serviço OPTO, da SIC, detentora original dos direitos de transmissão. Ou seja, quem estiver interessado em assistir à emblemática dobragem portuguesa é forçado a recorrer a plataformas piratas, grupos de partilha de ficheiros ou, então, as míticas cassetes VHS – e neste caso só para filmes. O impasse, que transformou um marco cultural num vazio de distribuição, tem origem em disputas de direitos conexos e contratuais estabelecidos ainda em 1995.

A produção nacional começou quando a série de anime japonesa chegou aos estúdios da Novaga, atual Digital Azul, por encomenda da SIC. O material-base entregue em Portugal para tradução e sincronização provinha de França, tornando a adaptação portuguesa uma derivação direta dos guiões e diálogos franceses. Face a sucessivas devoluções dos episódios por parte da estação de Carnaxide, que exigia uma redução nos níveis de violência, a equipa de atores optou por afastar-se do guião original. A tradução literal foi substituída por humor, improviso e referências à cultura local.

As adaptações nasceram também de constrangimentos operacionais. O texto traduzido frequentemente não preenchia o movimento labial dos desenhos animados, obrigando o elenco a criar falas adicionais no momento da gravação. A produção operava com uma equipa reduzida a cerca de seis atores, que se encarregavam de dar voz a mais de uma centena de personagens, gravando pela manhã para que o material fosse emitido nas tardes do canal generalista.

Na altura, as dobragens gozavam de total liberdade criativa, sem as listas restritivas de termos e restrições linguísticas que caracterizam o mercado contemporâneo. O desconhecimento geral sobre o estatuto do anime e a ausência de perceção sobre a longevidade da obra levaram a que o projeto fosse encarado pelos intervenientes como um trabalho convencional de desenhos animados.

O cerne do conflito legal eclodiu com a recusa de Ricardo Spínola – que deu voz a personagens como Vegeta, Tartaruga Genial, Freeza, Tenshinhan, entre outros – em assinar um documento de cedência de direitos conexos, alertando colegas como Henrique Feist, Cristina Cavalinhos e Fernanda Figueiredo para as potenciais implicações futuras. A comercialização das cassetes VHS em grandes superfícies comerciais atingiu números históricos de vendas, tendo esgotado constantemente, sem que os atores recebessem qualquer compensação financeira decorrente dessa exploração comercial ou tivessem assinado contratos de cedência para esse formato.

A contestação jurídica foi instaurada pelos atores entre 2003 e 2004, visando empresas como a Prisvideo, conhecida atualmente como PRIS Audiovisuais. Após quase duas décadas de litígio nos tribunais, o elenco obteve ganhou o caso. A lei portuguesa estabelece a inalienabilidade total dos direitos conexos, colidindo com a prática corrente das agências do setor, que impõem a assinatura prévia de cedências para a contratação dos profissionais.

As tensões regressaram com o filme Dragon Ball Super: Broly. Em fevereiro de 2019, Henrique Feist e Ricardo Spínola anunciaram o afastamento da produção. João Loy, a voz de Vegeta, ainda participou no projeto, confirmando a sua rutura a 9 de março, numa transmissão em direto no Facebook, na qual apontou a desvalorização patronal e a disparidade de remunerações face ao período da SIC, após a passagem da transmissão para o canal Biggs. Ao contrário das narrativas que atribuíam o afastamento a divergências com os admiradores da série, a rutura fundou-se na perda do poder de compra e em questões de contabilidade laboral.

Carlos Freixo, conhecídissimo dobrador que já foi a voz de Simba, Pateta, Mickey, Daffy Duck, Silvestre, Stitch, entre tantos outros, revelou em 2024 que os pagamentos efetuados aos dobradores decaíram para fasquias entre os 500 e os 600€ mensais, destruindo a tabela remuneratória praticada na década de 1990 e no início dos anos 2000.

Portanto, a ausência de Dragon Ball no streaming resulta diretamente deste vazio jurídico: os acordos celebrados nos anos 90 não antecipavam a exploração em suporte digital ou fora do sinal televisivo, deixando os direitos fragmentados entre distribuidores internacionais, estúdios de som e estações emissoras.

Alexandre Lopes
Alexandre Lopes
Licenciado em Comunicação Social e Educação Multimédia no Instituto Politécnico de Leiria, sou um dos fundadores do Echo Boomer. Aficcionado por novas tecnologias, amante de boa gastronomia - e de viagens inesquecíveis! - e apaixonado pelo mundo da música.
- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Relacionados