Mind Enterprises a dançar, Vince Staples a protestar e Lauryn Hill a desapontar num MEO Kalorama que teima em horários incompreensíveis.
Texto de: Maria João Cavadas
Mais um dia de MEO Kalorama, mais artistas portuguesas a horas quase incompreensíveis. Num festival citadino, terminar uma noite de concertos às 3h e começar às 15h do dia seguinte não se revela sensato. A deslocação para e de casa, conjugada com as poucas oportunidades de descanso durante o dia (não serão assim tantos a sair do recinto para ir dormir uma sesta e voltar), parecem diminuir o apetite por uma ida tão antecipada para o festival. E, mais uma vez, são os nossos artistas quem perde.
Conseguimos chegar mesmo a tempo de ver Bruno Pernadas, que já tinhamos tido a oportunidade de ver em fevereiro deste ano na Culturgest, por ocasião da apresentação do seu mais recente álbum, unlikely, maybe, lançado uma semana antes. E, mais uma vez, a grupeta não desiludiu: músicos virtuosos, alinhamento imaculado e uma performance que parece tirada de um filme, que é editado para incluir apenas o melhor. Ao grupo de sete, juntou-se, vinda de Manchester, Maya Blandy, que participa no tema “Juro que vi túlipas”. Com o calor abrasador que já é norma neste festival, marca-nos o afinco de quem resiste e não arreda pé para ver aquele que é uma peça essencial do panorama musical nacional. Não há muito a dizer. Podíamos ver este espetáculo mais mil vezes sem me cansar. Divinal.

No mesmo palco, o Palco MEO, atuaria, algum tempo depois, o americano Vince Staples, figura bem conhecida da cena hip-hop. No entanto, os reis daquele início de noite foram o rock e o punk, já que o artista priorizou, neste concerto, o seu último álbum, Cry Baby, lançado em junho. Passando por “White Flag”, “Only In America”, “Tulsa, OK” e “The Running Man”, com let’s go intensos e apelos à participação do público, este foi mais um concerto formidável neste segundo dia de festival, num quase-convite de ódio aos Estados Unidos (“sabia que tínhamos algo em comum”, disse-nos, com humor mas também verdade na voz), mas que revelou alguma esperança na mudança do paradigma. Com a projeção da capa do álbum atrás, com um bebé que de alguma forma se assemelha a uma figura política muito controversa daquele país, não houve espaço para dúvidas: este álbum e este espetáculo são políticos.

Às 22h, e à semelhança de ontem, vimo-nos obrigados a decidir entre concertos. O MEO Kalorama apostou, não sabemos se propositadamente, ou não, em poucos concertos coincidentes nesta edição. Na verdade, essa costuma ser uma razão de queixa do público, apesar de nem sempre essa ser uma decisão da produção e da organização próprio festival. Os horários das atuações são influenciados por questões técnicas e, muitas vezes, dependentes dos próprios artistas. Ainda assim, por azar, tivemos de dizer não a Ravyn Lenae, cuja canção “Love Me Not” foi popularizada no TikTok e catapultou a artista para a fama.
Eram os Mind Enterprises quem chamava por nós. No Palco Panorama Lisboa, o palco dedicado à música eletrónica, circundados por arvoredo e longe da multidão, pudemos, finalmente, ver o duo italiano de Andrea Tirone e Roberto Conigliaro. Passaram pelo LAV em novembro de 2025 e voltam, agora, a pôr todos a dançar. O seu italo-disco e os sintetizadores e drum machines que nos transportam para as últimas décadas do século passado contagiaram a pista de dança, e fomos merecedores de um encore de dois temas. Viajámos de “Idol” e “Mongamy”, do EP Panorama (2019) – parece-nos simbólico este nome e tocarem neste palco – até “Gloria”, do seu mais recente Negroni Love (2026). Duas pessoas em palco, um espetáculo de luzes e temas para dançar. Às vezes é bom recordar que é nas coisas mais simples que reside a pureza de que precisamos para nos divertirmos.

Esta última afirmação não vem ao acaso. Mas lá chegaremos.
Conseguimos chegar a tempo de ver uma boa parte do concerto de Sam The Kid no Palco Sagres. A evasão de pessoas que dali saíam para conseguirem um lugar privilegiado no concerto mais esperado da noite, no palco principal do MEO Kalorama, era evidente, mas não foi por isso que a energia se perdeu. O rapper tão querido pelo público português fez-se acompanhar de Orelha Negra e orquestra, numa substituição anunciada a poucos dias do festival, depois de o duo americano Black Star cancelar a sua presença. Samuel Mira atuou em casa. Ligado ao festival desde o início, através da Chelas é o Sítio, associação sem fins lucrativos e coletivo que pretende valorizar aquela zona e o seu potencial, o rapper atravessa gerações, e se centenas de pessoas a cantar, quase sem enganos, “Poetas de Karaoke”, lançada há 20 anos, não é prova viva disso, não sabemos o que é.
Acompanhámos o mar de gente que seguia para ver a cabeça de cartaz da noite – Ms. Lauryn Hill –, que se faria acompanhar, tal como anunciado no cartaz, por Wyclef Jean (com quem formou os The Fugees ao lado de Pras Michel), YG Marley e Zion Marley (filhos da cantora e de Rohan Marley, um dos filhos de Bob Marley). E este concerto comprovou que a excentricidade nem sempre resulta, mesmo quando um artista tem o sucesso de quem pode arriscar.
O espetáculo começou com atraso e deu-nos a oportunidade de ouvir aquilo que nos pareceu ser o soundcheck. Mas lá arrancou. Meia hora dedicada ao hip-hop, não surpreendentemente, e podíamos ver o público a entrar naquela maré. Depois, uma transição subtil para o RnB. Mas já com demasiada informação: a banda, backing vocalists a assegurar as melodias de voz que Lauryn não acompanhava, bailarinos, MCs, palavras soltas, a própria Lauryn com queixas em relação à sua monição (que pareceram durar todo o espetáculo) e uma pressa estonteante em transitar de temas.

O primeiro convidado, Zion Marley, dava o mote para a secção de reggae do concerto, e a ele seguir-se-ia o seu irmão. Sabemos que este não seria um concerto exclusivamente de Lauryn Hill e a própria anunciara a celebração dos 30 anos de The Score (1996) dos The Fugees no início. Ouvimos um medley que, apesar de não ter sido aleatório (“Hips Don’t Lie” de Shakira conta com a participação de Wyclef Jean) nos parecia adicionar à confusão que já sentíamos. A ausência da artista do palco durante algum tempo foi notada. E, se é certo que esta fórmula de concerto, com a artista principal a não ser o foco principal, poderia resultar, conseguimos perceber a desilusão de muitas pessoas naquela plateia.
Talvez “Killing Me Softly With His Song” e “Doo Wop (That Thing)” tenham sido um portal para alguma esperança naquele concerto, mas a sensação que levamos é a de que foi confuso e caótico. Apesar do talento inquestionável de todos os músicos que ali estavam, revelou-se difícil a tarefa de nos focarmos em cada um deles.
