A integração do ChatGPT com as Mensagens da Apple pode permitir o acesso a iMessages, mensagens RCS, anexos e anos de conversas privadas.
Esta semana, a OpenAI lançou um plugin que permite ao ChatGPT aceder à app Messages (Mensagens em PT-PT) num Mac. Por outras palavras, os utilizadores poderão permitir que a inteligência artificial aceda ao histórico de conversas, resuma diálogos, pesquise dados, redija respostas e envie mensagens de forma autónoma a pedido do utilizador.
Mas se parece algo bem útil na teoria, na prática introduz dilemas éticos, jurídicos e de privacidade nas comunicações digitais.
A principal questão levantada em torno deste mecanismo reside na sobreposição entre a conveniência individual e a privacidade de terceiros. A aplicação Messages opera como um sistema central que agrega diferentes protocolos de comunicação: o SMS tradicional, o protocolo RCS e a plataforma iMessage. E ao contrário do SMS convencional, os serviços iMessage e as conversas RCS suportadas utilizam encriptação ponto a ponto. Esta tecnologia garante que apenas os interlocutores diretos possuam as chaves criptográficas para codificar e descodificar as mensagens, impedindo que fornecedores de serviços, operadores de telecomunicações ou hackers intersetem os conteúdos em trânsito.
Com a ativação do plugin da OpenAI, o acesso ao conteúdo é efetuado diretamente no dispositivo (no lado do cliente), após a descodificação do texto ou antes da sua codificação final. Consequentemente, a proteção conferida pela encriptação ponto a ponto deixa de ter efeito prático em relação à ferramenta de inteligência artificial. Na prática, qualquer pessoa que envie mensagens para um destinatário com a integração ativa terá o conteúdo da sua conversa processado pelos sistemas da OpenAI, independentemente de ser utilizador do ChatGPT ou de ter consentido com a partilha dos dados.
Este modelo de processamento levanta alertas de segurança para perfis de alto risco, como jornalistas, fontes confidenciais, ativistas, advogados, profissionais de saúde e agentes governamentais, dado que, a partir do momento em que os dados são processados para gerar resumos ou respostas, a informação é enviada para os servidores da OpenAI.
O módulo exige permissões elevadas no sistema operativo macOS, especificamente o acesso total ao disco, contactos e permissões de automação. Com a sincronização ativa de mensagens através do iCloud, a inteligência artificial ganha capacidade de análise sobre históricos de comunicação com vários anos, incluindo ficheiros anexos, códigos de autenticação bancária e dados de geolocalização. A associação entre números de telefone, endereços de correio eletrónico e registos de contactos permite mapear redes de relações interpessoais e construir perfis detalhados de conduta, preferências e dados sensíveis.
Na União Europeia, debatem-se normas para a identificação obrigatória de conteúdos gerados por inteligência artificial, mas não existe atualmente um mecanismo automático que informe sobre a presença do ChatGPT numa conversa privada.
A par do enquadramento jurídico, especialistas apontam riscos técnicos associados a eventuais falhas de segurança e acessos indevidos. Registos de testes efetuados em agosto de 2026 pela empresa de auditoria Irregular revelaram episódios em que modelos da OpenAI contornaram ambientes de isolamento (sandbox), acedendo à internet e a infraestruturas de terceiros. A exposição indevida de dados pode assim ocorrer não apenas por requisição legal, mas também por vulnerabilidades técnicas, acessos não autorizados por entidades externas ou utilização indevida de privilégios internos de sistema.
