Um Suculento novo: a prova de que a comida portuguesa cabe num buffet diferente

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Comida portuguesa num buffet gigante? Temos. E de qualidade, tudo graças ao novo Suculento de Carlos Alberto e Sofia Guerreiro.

Depois de um ano de portas fechadas e uma herança de comentários azedos deixada pela antiga gerência, o imenso espaço do Suculento renasceu perto de Palmela pelas mãos de Carlos Alberto e Sofia Guerreiro, que recusa o facilitismo dos tabuleiros a transbordar.

Apostando numa rotação constante de peixe fresco, grelhados no ponto e clássicos portugueses – neste caso em detrimento da comida chinesa -, a dupla tenta desmontar o estigma do buffet massificado e provar que a restauração de grande escala pode – e deve – ter alma, frescura e margem para ouvir quem se senta à mesa.

As dimensões do Suculento desafiam a bolsa de qualquer um: são 2.000 m2 de espaço que, no papel, davam para albergar uma pequena multidão de 780 pessoas. Mas quando Carlos Alberto e Sofia Guerreiro – é extremamente raro portugueses serem responsáveis por este tipo de negócios… – deitaram olho ao sítio numa casualidade de bomba de gasolina, decidiram que era altura de pegar no monstro e virar o disco da história, criando uma nova experiência do prato livre na zona, com este Suculento.

A braços com contas de despesas para pagar desde fevereiro e com os típicos azares de um arranque de verão – em que até encontrar fardas ou pessoal especializado se torna uma epopeia -, a dupla não esconde o desafio dos obstáculos a enfrentar.

Sofia gere a burocracia e o escritório com a certeza de quem almejava o sonho de pisar o outro lado do balcão, enquanto Carlos assume o “bichinho” da restauração em pista. Em vez de tentarem encher travessas infinitas ao estilo dos buffets tradicionais – uma receita infalível para o desperdício que espantava os clientes mal-acostumados às filas fartas -, estão a apostar numa filosofia de cozinha viva e reposição constante.

No Suculento, a comida tradicional portuguesa e a frescura dos grelhados no carvão fundem-se com a popularidade do sushi, desenhados para oferecer ao cliente uma perceção de forte custo-benefício e uma enorme variedade de escolha.

A filosofia do Suculento dita que, ao almoço ou ao jantar, o visitante sinta que está a visitar um “restaurante diferente” todos os dias, devido à forte rotatividade diária dos pratos expostos. A estrutura de preços é segmentada e reflete diretamente a complexidade e o custo dos produtos servidos ao longo da semana. Nos dias úteis, o almoço assume o valor fixo de 12,95€, subindo para os 13,95€ ao jantar. No fim de semana, o preço fixa-se nos 14,95€, um ligeiro acréscimo que se justifica pela introdução de matérias-primas nobres e de grande atração popular, com especial destaque para o marisco fresco (como a sapateira) e o leitão assado, servido aos sábados e domingos. Neste valor fixo de entrada, o cliente tem acesso ilimitado às entradas, ao buffet, à banca de sushi e aos doces dispostos na mesa.

Contudo, para salvaguardar a rentabilidade do negócio, todas as bebidas e o café são cobrados estritamente à parte. No dia a dia, existem pratos de conforto que conquistaram forte aceitação, que a cozinha repete quase diariamente e que experimentámos um a um: o Camarão especial da casa, o Bacalhau com natas (confecionado com um toque diferenciador), o clássico Bacalhau à Gomes de Sá e o saboroso Arroz de pato.

A operação da cozinha é pautada por rigor e uma gestão atenta do desperdício alimentar. Pratos considerados altamente sensíveis e que perdem rapidamente a qualidade se ficarem parados nas cubas do buffet são confecionados em quantidades estritas para apenas uma refeição.

A ementa do Suculento é fortemente reforçada por uma componente de grelhados feitos na hora, onde o cliente pode encontrar opções perfeitamente douradas na grelha, escolhidas a dedo e confecionadas no momento. No peixe, que é comprado fresco diariamente a fornecedores eleitos – recusando-se a gerência a congelar stock para longos períodos -, as opções passam pelo salmão, robalo, dourada, atum, carapau e sardinha. Na secção das carnes, a oferta varia entre picanha premium, acém, costeletas, febras, secretos de porco e frango de churrasco.

Da nossa experiência pessoal ao testar o conceito deste novo Suculento, é imperativo destacar, para além da qualidade dos pratos tradicionais e da cozinha oriental, a elevadíssima qualidade dos grelhados: as carnes revelaram-se excecionalmente tenras, suculentas e deliciosas, atingindo o ponto ideal na brasa. Ao olharmos para a montra do novo restaurante, fica clara a materialização da qualidade e da frescura prometida, através de uma exposição que começa logo por ter grande atrativo visual. Na zona das entradas e mariscos, destaca-se a travessa generosa de camarão cozido com casca, ladeada por travessas repletas de ostras, amêijoas, lingueirão, berbigão – petiscos que funcionam como cartão de visita ideal para os dias de calor.

A zona de frios é complementado por uma seleção de saladas compostas, onde sobressaem pedaços cortados que remetem para clássicos como a salada de polvo, organizados de forma limpa em recipientes dedicados.

A secção dedicada à gastronomia japonesa, e igualmente uma das mais saborosas que provámos, ganha relevo na sala, quebrando em definitivo com a lógica do antigo espaço. As travessas apresentam-se cuidadosamente alinhadas com rolos de sushi variados, onde se encontram à disposição hossomakis e uramakis decorados com sésamo e finalizados com molhos.

O grande destaque desta bancada vai para o peixe cru cortado no momento, distribuído em travessas exclusivas de sashimi de salmão e niguiris encostados harmoniosamente uns aos outros, o que prova bem o abastecimento diário de peixe fresco, um princípio e uma prática defendidos por estes novos proprietários. Provámos, e são de excelente qualidade.

A refeição no Suculento encerra-se com a tradicional sobremesa de doce ou de fruta. Há bastante variedade e, mais uma vez, os produtos são frescos e saborosos. Há Pudim, um delicioso Bolo de bolacha feito à antiga, Doce de amêndoa, Bolo de chocolate… Já nas frutas, a frescura e a qualidade são intensas.

Não é demais recordar que, por se tratar de uma reabertura extremamente recente, esta fase inicial do novo Suculento reflete o arranque intencionalmente discreto adotado pela gerência, focado na dinâmica do passa a palavra e nos ajustes técnicos iniciais da cozinha. Entre o ceticismo digital e as críticas disparadas nas redes sociais por quem reclama disto ou daquilo mas não deixa de comer do princípio ao fim, a vitória faz-se na fidelidade de quem já lá vai todos os dias.

No fim de contas, pagar cerca de 14 ou 15€ por uma variabilidade diária que sabe a um restaurante diferente todos os dias acaba por valer bem mais do que um prego rápido na tasca ao lado.

E se o plano passa agora por limar arestas, reduzir a sala principal a um núcleo acolhedor de duzentos lugares e preparar o terreno para um futuro espaço à la carte mais requintado (focado em vinhos selecionados, T-Bone e assadas de peixe diferenciadas), a ordem continua a ser a mesma: aceitar o elogio com um sorriso, mas pedir aos clientes críticas construtivas para poder alcançar a melhoria contínua. E há mais novidades na calha, mas esses detalhes deixaremos para o futuro.

Resumindo, para quem deseja descobrir a nova proposta gastronómica do Suculento, o funcionamento do espaço assenta num modelo de buffet livre e de fusão, onde o receituário tradicional português, os grelhados no carvão feitos na hora e uma banca de sushi partilham o mesmo protagonismo.

O Suculento está localizado na Estrada Nacional N252, estando aberto todos os dias, das 12h às 15h e das 19h às 23h. Para mais informações ou reservas, basta ligar para o 218099847/937703339.

Graça Pacheco
Graça Pacheco
Licenciada em literaturas clássicas e com um doutoramento em estudos literários, sou colaboradora e fã do Echo Boomer. Escrever, para mim, é um ofício desafiante mas também um hobby. Também adoro gastronomia, gosto de explorar novas tecnologias e sobretudo, adoro cinema e TV.
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